Zeitgeist: Obama nunca baniu refugiados do Iraque

Alexandre Schossler

O "fato alternativo" divulgado pelo governo Trump não confere: o ex-presidente tornou mais rígida a verificação dos casos, mas não anunciou uma suspensão do ingresso de refugiados iraquianos nos EUA em 2011.Uma das principais assessoras do presidente Donald Trump, Kellyanne Conway, afirmou na quinta-feira passada (02/02), numa entrevista à emissora de televisão MSNBC, que o ex-presidente Barack Obama suspendeu por seis meses o ingresso de refugiados iraquianos nos Estados Unidos depois do massacre de Bowling Green, que teria sido cometido por dois refugiados do Iraque. "Aposto que é informação nova para as pessoas que o presidente Obama suspendeu por seis meses o programa para os refugiados iraquianos depois que dois iraquianos que entraram aqui neste país foram radicalizados e foram os idealizadores do massacre de Bowling Green. A maioria das pessoas não sabe disso porque não teve cobertura da imprensa", afirmou a conselheira de Trump, naquela altura já famosa por ter popularizado a expressão "fatos alternativos". O massacre nunca aconteceu, e Conway corrigiu sua declaração na sexta-feira, afirmando que quis dizer "terroristas de Bowling Green" e não "massacre de Bowling Green". Mas ela manteve o "fato alternativo" de que Obama suspendeu por seis meses o ingresso de refugiados iraquianos. Sites de notícias, como o do jornal Washington Post e da emissora CNN, foram conferir se é verdade. A conclusão: o ingresso de refugiados iraquianos nos Estados Unidos caiu porque os controles se tornaram mais rígidos e, portanto, mais lentos, mas não houve uma proibição generalizada de ingressos de iraquianos nos Estados Unidos. Em maio de 2011, dois iraquianos foram presos no estado de Kentucky e acusados de terrorismo depois que investigadores descobriram que um deles fabricou bombas usadas contra soldados americanos no Iraque. Eles haviam recebido refúgio nos EUA em 2009. Ambos foram mais tarde condenados por tentar enviar armas e dinheiro para a Al Qaeda e por terem ajudado a rede terrorista a executar ataques a tropas americanas no Iraque. Mas eles nunca foram acusados de planejar ataques em solo americano. A descoberta dos dois levou o governo Obama a rever a política de concessão de vistos para iraquianos e o ingresso de refugiados do país nos Estados Unidos. Na prática, isso significou que 58 mil refugiados que já estavam nos EUA tiveram seus casos reavaliados, e que essa análise mais detalhada foi aplicada também para aqueles que ainda não estavam no país. Relatos da época na imprensa americana afirmam que o processo de aprovação se tornou mais lento. Em cerca de mil casos, iraquianos que já estavam com voo marcado tiveram que suspender a viagem porque teriam que passar pelo novo controle. O número de refugiados do Iraque caiu. Em 2010, havia sido de 18.251. Em 2011, passou para 6.339. Em 2012, voltou a subir, para 16.369, segundo os dados publicados pelo Washington Post. O diário observa três diferenças centrais entre as medidas adotadas por Obama e Trump. Primeiro, a decisão de 2011 foi uma resposta a uma situação de ameaça concreta: dois terroristas haviam ingressado como refugiados no país. Segundo, Obama nunca anunciou um banimento, mas tornou mais rígida a verificação de segurança. Terceiro, a medida de então atingia apenas refugiados e não qualquer cidadão iraquiano. Conway não foi a primeira a se referir ao suposto banimento de ingresso de 2011. Antes dela, Trump já havia dito, num comunicado divulgado pela Casa Branca no dia 29 de janeiro, que o seu decreto proibindo a entrada de refugiados de sete países de maioria muçulmana era semelhante a uma medida adotada por Obama em 2011, "quando ele baniu vistos para refugiados iraquianos por seis meses". Não se sabe de onde Trump e Conway tiraram essa informação, mas ela aparece numa matéria do site Breitbart News, também de 29 de janeiro, que, por sua vez, cita uma matéria no site da emissora ABC News de 2013 que menciona o suposto banimento de ingresso de refugiados iraquianos, por seis meses, em 2011. Segundo o Washington Post, esta é a única matéria sobre o suposto banimento de seis meses que pôde ser localizada. O Breitbart News, o principal veículo da extrema direita americana, era até pouco tempo atrás dirigido pelo hoje estrategista-chefe do presidente, Steve Bannon. No comando de Bannon, o Breitbart News se popularizou por divulgar informações inexatas ou simplesmente falsas, como um ataque de mil homens gritando allahu akhbar contra policiais e uma igreja em Dortmund, durante o Ano Novo de 2017. A história é falsa. O jornal local citado como fonte pelo Breitbart News, o Ruhr Nachrichten, disse que trechos de sua reportagem foram distorcidos pelo site americano, que acusou de divulgar "notícias falsas, ódio e propaganda". A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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