Pé na praia: A violência dos outros

Thomas Fischermann

Em muitas favelas do Rio ocupadas desde a preparação para a Copa, os traficantes voltaram a andar a céu aberto, muitas vezes armados. Os moradores parecem resignados: "Evite ir a São Paulo: lá é muito perigoso."Anoiteceu no Rio de Janeiro e, nos morros sobre a cidade, as luzes da favela começaram a acender. Surgiu vida no barzinho. O barzinho era uma janela grande na parede de um barraco de tijolo aparente, cujo andar de cima ainda precisava ser terminado; a dona, de figura volumosa, colocava garrafas geladas de cerveja Antarctica nos parapeitos, acompanhadas de amendoim torrado. Crianças andavam de bicicleta, alguns convidados conversavam sobre os acontecimentos do dia, mas muitos permaneciam simplesmente calados. Tinham passado o dia trabalhando, sabe-se lá onde, e subido muitos degraus de escada. Preferiam simplesmente descansar. Assistíamos TV. Os jornais noticiavam o surto de violência em todo o país. Em São Paulo, uma mulher foi esfaqueada enquanto sacava dinheiro de um caixa automático. Os ladrões queriam mais, ficaram decepcionados por a mulher não ter sacado o suficiente. "Que horror, a violência em São Paulo", comentou a dona do bar, limpando os parapeitos de manchas de cerveja. Os frequentadores acenaram. Todos se sentiram atingidos por esse assalto. A algumas centenas de metros do bar, na entrada íngreme para o morro, tinha encontrado alguns jovens que imaginei teren 14 ou 15 anos. Telefonavam com walkie-talkies como que para se gabar, e para mim ficou claro o que isso queria dizer. Os meninos guardam esta esquina para uma facção de traficantes armados. Aqui às vezes tem tiroteio. As balas acertam bandidos ou transeuntes inocentes, atingidos por balas perdidas, e policiais, quando vão buscar narcotraficantes. Certa vez um homem foi assassinado aqui, eu li no jornal, aparentemente por que queria tirar umas fotos. Na favela, além do bar agradável, também fica um posto policial. As chamadas "Unidades de Polícia Pacificadora" já não conseguem controlar a situação no local há muito tempo. Em muitas favelas do Rio que foram conquistadas desde a preparação para a Copa do Mundo, os traficantes voltaram a andar a céu aberto, muitas vezes armados. E como estão as coisas por aqui? Como é que fica com a violência neste lugar? Perguntei aos outros frequentadores, mas eles continuaram me ignorando. "Ninguém quer falar com você sobre isso", murmurou um homem de barbicha preta. "Nós vivemos aqui", comentou um outro, o que poderia significar várias coisas. Então ele atirou alguns amendoins na boca e virou-se novamente para a televisão. "Evite ir a São Paulo", disse. "Você está vendo: lá é muito perigoso". Os frequentadores do bar acenaram, sérios. Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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