Joachim Gauck, de pastor rebelde a presidente da Alemanha

Bernd Grässler, Kay-Alexander Scholz (fc)

O ativista de direitos humanos na antiga Alemanha Oriental restabeleceu a dignidade do cargo de presidente e se manteve fiel aos seus temas mais queridos: liberdade e reconciliação com as vítimas do nazismo.Em meados de fevereiro de 2012, Joachim Gauck, então com 72 anos, estava num táxi a caminho de casa quando uma nova reviravolta acontece em sua vida. O celular toca, e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, comunica-lhe que o partido dela gostaria de indicá-lo candidato ao cargo de presidente. Gauck agradece e acrescenta estar ciente de que a decisão não deve ter sido fácil para ela. Ele sabe que a chanceler teria dito: "Uma coisa é certa: Gauck não será [presidente]". Ela estava errada. Ele se torna presidente na segunda votação, depois de obter a grande maioria dos votos da Assembleia Nacional. Um ano e meio antes, Merkel havia impedido a presidência de Gauck: é verdade que ele, como a própria chanceler, vem da antiga Alemanha Oriental, mas ele seria por demais imprevisível e teimoso. Essas características se refletem no período de Gauck no Palácio Bellevue, a sede presidencial em Berlim. Por exemplo quando ele defende uma reparação alemã aos crimes de guerra cometidos pelos nazistas na Grécia, enquanto o governo evita esse tema como o diabo foge da cruz. Ou quando ele chama de genocídio o massacre turco contra os armênios bem antes de o governo tomar uma posição sobre o assunto. Até que ponto um presidente alemão, um cargo principalmente representativo, pode interferir em assuntos políticos cotidianos? Gauck se movimenta num terreno escorregadio quando pede mais engajamento militar da Alemanha ou critica a eleição de um primeiro-ministro de esquerda no estado alemão da Turíngia, na região da antiga Alemanha comunista. Uma agência com o seu nome Nascido em 1940 em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Gauck não é apenas direto nas palavras – "Eu era um estudante fanfarrão", disse, a seu respeito – como também levou ao cargo uma autoconfiança despreocupada. Em toda a Alemanha, mas especialmente no oeste, sua biografia de pastor rebelde na antiga Alemanha Oriental lhe confere muito mais credibilidade do que uma carreira num partido político poderia lhe dar. Ele restabeleceu a dignidade do cargo após seus dois antecessores, Horst Köhler e Christian Wulff, renunciarem. Logo ele se torna um concorrente da chanceler federal nas pesquisas de popularidade e, de forma surpreendente, é ainda mais popular no oeste do que no leste do país. No leste, as opiniões se dividem sobre os dez anos de trabalho dele como "encarregado especial para os documentos especiais" da antiga Stasi. Os críticos, incluindo alguns ex-companheiros do movimento pelos direitos civis, afirmam que ele foi menos gestor e mais juiz e procurador. A agência dirigida por ele logo se torna conhecida como "agência Gauck", e entre os antigos comunistas do lado oriental ele é chamado de "o grande inquisidor", o que ele considera um comentário maldoso. Destino do pai marcou Gauck politicamente A oposição de Gauck ao regime da República Democrática da Alemanha (RDA) decorre de uma experiência dolorosa da juventude. Quando ele tinha 11 anos, seu pai foi levado, por causa de um contato que tinha no oeste alemão, para um campo de trabalhos forçados na Sibéria e, somente quatro anos mais tarde, libertado. Em suas memórias, Gauck escreveu que o destino do pai lhe marcou politicamente e o impediu de ter qualquer simpatia pelo regime comunista. Ele desiste de se tornar jornalista, como inicialmente queria, e vai estudar teologia, tornando-se pastor. Suas atividades na igreja evangélica são vistas com desconfiança pela Stasi. Os registros sobre Gauck afirmam que ele seria um "anticomunista incorrigível", que age sob o manto da igreja. No outono de 1989, ele se une ao recém-formado movimento pelos direitos civis Neues Forum (Novo Fórum) e é eleito deputado na primeira eleição livre para o Parlamento da Alemanha Oriental, em 1990. Em seguida, acaba sendo escolhido, meio por acaso, como ele mesmo diz, para o cargo de principal administrador dos arquivos da Stasi. Gauck se torna uma das figuras centrais do processo de unificação das duas Alemanhas, e a palavra gaucken (em referência a seu sobrenome) se torna um sinônimo para a verificação da ficha dos candidatos para o serviço público. Ele encampa as demandas da maioria dos defensores dos direitos civis, luta pela abertura regulamentada por lei dos arquivos da Stasi e adverte contra colocar um ponto final no passado. Em 2000, depois de dois mandatos à frente da gestão dos arquivos da Stasi, fala de uma "profunda satisfação por criamos uma lei especial que tem contribuído para a deslegitimação da ditadura finda". "Professor da democracia" Nos 12 anos seguintes, ele se engaja no debate público contra o esquecimento dos males causados pelas ditaduras nazista e comunista e a favor da democracia, até receber no táxi a ligação da chanceler federal. Mesmo presidente, ele não abandona seu tema favorito: a liberdade. Seu entusiasmo pelo assunto deriva da experiência com o Muro de Berlim e a ditadura. "Eu conhecia o olhar de compaixão daqueles consideravam ingênua a minha duradoura alegria quanto à liberdade no oeste, [...] que me olhavam como se eu tivesse há pouco imigrado de uma cultura primitiva", escreveu. Seu segundo grande tema é a reconciliação com os vizinhos: a primeira viagem internacional leva Gauck à Polônia. Imagens mostram ele de mãos dadas com o presidente francês, François Hollande, em Oradour, com o presidente grego, Karolos Papoulias, em Lingiades, ou ao lado de Petro Poroshenko em Baby Yar, na Ucrânia – locais de massacres nazistas. Nenhum presidente alemão derramou lágrimas de emoção tão frequentemente e em público. Seu mandato também coincidiu com as celebrações pelo 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Numa foto, ele é visto no memorial Seelower Höhen, nas proximidades de Berlim, onde se travou uma das últimas batalhas sangrentas do conflito. Gauck anda de mãos dadas com veteranos de guerra idosos. Eles vêm do país que, muitos anos atrás, sequestrou o seu pai. Representante de uma era Por muito tempo, ele deixou o público em dúvida sobre se estaria disponível para um segundo mandato. Então, em junho de 2016, rejeitou a possibilidade, argumentando não ter mais forças. Tomar a decisão, porém, não foi fácil. A política migratória e a ascensão do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) o fazem ponderar se não deveria continuar como uma âncora de estabilidade. No final de seu mandato, o círculo de sua atuação política se fecha. Para ele, as semanas que antecederam a queda do Muro de Berlim permanecem como a principal experiência de sua vida política: "Liberdade é bom, mas a libertação é ainda mais emocionante."

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