Opinião: Última chance para Memorial da Unidade Alemã

Gero Schliess

Após ter construção embargada em abril de 2016, monumento é surpreendentemente liberado pouco antes do fim do atual período legislativo. Para o jornalista Gero Schliess, teria sido melhor mantê-lo no esquecimento.Respirar fundo e bola para frente: esse parece ser o lema de todos aqueles no Bundestag (Parlamento alemão) que querem agora, no último minuto, tocar adiante o Memorial da Unidade Alemã. Há poucos meses do fim do atual período legislativo, a grande coalizão de governo em Berlim resolveu ressuscitar a moribunda "gangorra da Unidade", apelido que o monumento ganhou por sua forma. Trata-se de uma resposta tardia à decisão de abril do ano passado da comissão parlamentar do orçamento, que embargou o projeto devido aos galopantes custos construtivos. Na época, a medida desagradou ao núcleo dos apoiadores da obra, mas não desencadeou nenhum protesto amplo. Por isso surpreende ainda mais essa ação de uma para a outra do Parlamento, cujo apoio mais recente foi dado pelo presidente do Bundestag, Nobert Lammert, com seu fervoroso apelo à Assembleia Federal, órgão responsável pela eleição do presidente alemão. Afinal, o contexto para a tomada de decisão continua o mesmo. A muito criticada "gangorra da Unidade" em frente ao Palácio de Berlim, que se encontra agora em reconstrução, deve expressar alegria e gratidão pela Reunificação e pela vitória da liberdade. Mas as dúvidas em torno do projeto assinado pela coreógrafa Sasha Walz e pelo escritório de arquitetura Mila & Partner permanecem, e nem o peso político dos líderes das bancadas conservadora, Volker Kauder, e social-democrata, Thomas Oppermann, dos políticos ligados a assuntos culturais de todos os partidos da grande coalizão em Berlim e principalmente de Lammert muda isso. Essas dúvidas, tanto hoje como ontem, são sobretudo de natureza estética: com seus 50 metros de extensão, a concha transitável tem um caráter excessivamente intelectual, indeciso. Desde o início, o projeto, concebido em 2009 como um grande playground da democracia, não convenceu. E é incerto se ele ainda se enquadra no atual clima social, totalmente diferente. E também os incontroláveis custos construtivos não voltaram, como por milagre, a estar novamente sob controle, um ano depois. Por fim, as colônias de morcegos encontradas durante a fase de planejamento, que causaram um atraso dispendioso nas obras, podem voltar a criar problemas. E o mais importante: no fim das contas, quase ninguém sentiu falta do Memorial da Unidade Alemã. A ideia sempre foi vista como algo artificial e enxertado, que nunca chegou ao seio da sociedade. Nos EUA ou na França, isso seria impensável. Mas os alemães ainda têm uma relação fraturada com a sua história. Mesmo quando se trata de momentos de alegria, como a Reunificação. Os apoiadores do projeto reconheceram isso tarde demais. E também não aproveitaram o período, logo após a decisão de embargar a obra, para finalmente empreender o tão necessário debate público. A ministra alemã da Cultura, Monika Grütters, tentou levantar o debate, indagando se os alemães têm alguma afinidade com monumentos e se teriam entrado em acordo sobre uma narrativa nacional. Paralelamente, Grütters cogitou o Portão de Brandemburgo como possível substituto, esperando, no fundo, que o projeto herdado de seu antecessor, Bernd Neumann, fosse finalmente enterrado. Recentemente, ela exigiu até mesmo que o processo de escolha fosse reiniciado – tudo em vão. Manter o Memorial da Unidade Alemã no esquecimento teria sido a melhor solução e, no momento atual, a mais honesta. Mas a liderança da grande coalizão não quis saber disso. Após anos de vergonhosas idas e vindas, os líderes queriam fechar um flanco político e demarcar os limites para a poderosa comissão de orçamento. Assim que o Parlamento aprovar a devida resolução e liberar o dinheiro, a construção pode ser iniciada. Se tudo transcorrer como planejado, o que equivale a um milagre quando se trata de obras públicas, a "gangorra da Unidade" poderá ser inaugurada no 30° aniversário da Reunificação, ou seja, em 2020. Até lá, Grütters e também os apoiadores da obra têm a chance de debater com os alemães sobre o seu país e sobre o monumento. Uma oportunidade que deveriam aproveitar. O tempo dirá se, no final, a população alemã vai se identificar com a ideia do Memorial da Unidade, apesar de o país ser, hoje, totalmente diferente.

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