Pé na praia: A serpente e a castanheira

Thomas Fischermann

A história a seguir é transmitida oralmente há séculos por uma etnia chamada kagwahiva, do sul da Floresta Amazônia. E era simplesmente bonita demais para não ser compartilhada.Ami, a grande xamã, tinha dois netos. Eles cuidavam de sua avó que já estava velha. Faziam todas as vontades dela. Certo dia, ela disse: Quero comer castanhas! Deixem-me ir à floresta e procurar algumas! Mas era mentira. Na verdade, a poderosa mulher tinha uma fraqueza. Ela comia sem parar apí – uma fruta vermelha pequenina, parecida com cereja, mas com gosto muito mais doce. Há algum tempo tinha comido uma que havia colhido do chão, e em sua semente estava escondida uma cobra. Até mesmo as crianças sabem disso! Nunca pegue frutas do chão! Dá para comer, mas, depois, sua semente se transforma em ovo de cobra. Ami logo sentiu o que acontecia nela. Fez um barulho em sua barriga, e cresceu uma cobra no estômago da grande xamã. Por isso queria ir sozinha para a floresta. O que os netos da mulher deveriam fazer a respeito? Apenas pediram a ela que não demorasse, senão todos ficariam preocupados. Então Ami foi à floresta e deu à luz uma cobra. A cobra saiu dela e aninhou-se na copa da castanheira. De lá, atirou castanhas na velha. Depois entrou novamente em seu estômago, e ambas voltaram para casa. A cobra e Ami tornaram-se companheiras. Tudo que a xamã desejava a cobra obedecia. A cobra crescia, e todo dia Ami ia à floresta. Voltava com castanhas, para dividi-las com toda sua família. Seus netos se espantavam: como podia ser que uma velhinha tão frágil achasse tantas castanhas? Porque as castanhas ainda estavam verdes, como as das copas das árvores? Como a avó poderia ter subido? Perguntaram para a avó, mas ela não contou nada. Desconfiados, eles então a seguiram. Quando a encontraram na castanheira, Ami dormia deitada aos pés da árvore. A cobra subiu para os galhos. Os netos a viram e descobriram toda a verdade. Apesar disso, agiram como se não soubessem de nada. Ami passou a voltar cada vez mais cansada da floresta. A cobra crescia em sua barriga, e por isso a avó tinha dificuldade de andar. Chamou seus netos. "Meus netos", disse, "vocês tem que me prometer uma coisa. Quando eu morrer, não me enterrem. Vocês devem me queimar, e então se mudar daqui. Não entrem nessa parte da floresta por um ano. Depois vocês podem voltar, e aí vocês verão. Então a avó contou-lhes a respeito da cobra. Ela deveria ser morta. Da próxima vez, quando estiver adormecida sob a castanheira, os netos deveriam atacá-la e cortá-la em pedaços com uma faca. Com isso, ela própria, Ami, iria morrer também. Somente a cobra ainda a mantinha viva. Os netos cumpriram também essa vontade, e a cobra e a avó morreram. Após um ano os netos retornaram. Mas não reconheceram mais sua terra. "Quem mudou nosso jardim tanto assim?", perguntaram. O lugar onde queimaram sua avó havia crescido uma horta cheia de plantas, frutas e legumes. Eles viram que em cada planta estava sentado um pássaro, e todos cantavam, querendo lhes contar algo: Awa! Kiu! Iu! Iu! Ambos os netos chegaram mais perto e tentaram compreender. Jit-yga ! Ky'ynha ! Avati a! Aandi'yvakã ! Ka-randi'yva ! Os pássaros contavam às pessoas os nomes de batata doce e pimenta, milho e mandioca, mamão, melão e banana. Mas os netos não conseguiam entender. Sequer conheciam os nomes das plantas. "Mas dá para comer isso?", diziam os netos. Mas eles estavam com muita fome, e pássaros cantando são dignos de confiança. Os netos decidiram fazer um pacto. O mais velho deles provaria todas as frutas, uma após a outra. Se morresse de algum tipo delas, então ninguém nunca mais a comeria. Acenderam um fogo e cozinharam o milho. O mais velho achou gostoso. Também aprovou a batata doce. A pimenta queimava como fogo em sua boca. "Agora vou morrer!", gritou, mas após meia hora ele ainda estava vivo. Experimentou o mamão maduro. E assim por diante, uma planta após a outra. Os netos colheram as frutas e as levaram para seu povo. "No jardim da velha Ami aconteceu uma coisa espetacular", contaram. Todos experimentaram as frutas e os legumes. Desde então as pessoas sabem como se faz farinha do milho e da mandioca, e comem legumes da horta. "Ami e sua cobra deixaram isso para nós", dizem as pessoas. (*) Fiquei conhecendo esta história indígena há algumas semanas no sul da Floresta Amazônica. Ela tem sido transmitida oralmente há séculos por uma etnia chamada kagwahiva que me recebe e com quem convivo – e era simplesmente bonita demais para não ser compartilhada. Semana que vem darei continuidade a meu diário jornalístico, como de costume. Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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