Trump muda tom em primeiro discurso no Congresso

Carsten von Nahmen (as)

Presidente dos Estados Unidos se apresenta de forma serena e decidida, mas permanece inflexível em suas propostas e na descrição do país: uma nação em profunda crise que só ele pode salvar.Antes do discurso desta terça-feira (28/02), analistas da esquerda e da direita se mostraram, pela primeira vez, unânimes na sua análise: para Donald Trump, tratava-se sobretudo de um recomeço para a sua presidência e de deixar para trás o início meio tortuoso – alguns diriam fracassado – do seu governo. O próprio presidente havia dito pela manhã, em entrevista à emissora Fox News, que estava satisfeito com o próprio trabalho, mas que havia o que melhorar em termos de comunicação. Agora, portanto, ele iria fazer melhor. E, de fato, Trump se apresentou sereno, decidido, em tom presidencial e já quase otimista no seu primeiro discurso diante dos congressistas da Casa dos Representantes e do Senado – certamente bem mais otimista do que em seu discurso de posse, de tons sombrios, em 20 de janeiro. Desta vez, ele prometeu uma "renovação do espírito americano", da capacidade de enfrentar todos os desafios. Ele saudou o "novo orgulho nacional" que move o país. E destacou que os Estados Unidos estão "de novo prontos para liderar". Além disso, logo no início do discurso, ele condenou uma onda de incidentes antissemitas em vários estados americanos e a morte por motivação racista de um indiano em Kansas City. Mas, depois desse começo algo conciliador, o presidente voltou a apresentar seu repertório de campanha – menos agressivo na forma, mas inflexível na essência. Para o especialista David Litt, que durante muitos anos escreveu os discursos do ex-presidente Barack Obama, não se trata de uma surpresa. "O tom de Trump foi outro, mas quem ele é não vai mudar. Há poucas coisas com as quais os democratas podem se identificar", comenta Litt. Entre o júbilo e o silêncio Trump apresentou os Estados Unidos como um país que defende as fronteiras de outras nações, mas que não têm mais o controle sobre as próprias fronteiras, com imigrantes, criminosos e drogas entrando sem dificuldades. Um país que gasta bilhões de dólares no exterior enquanto a própria infraestrutura desmorona. Um país no qual mais de 90 milhões de pessoas estão sem trabalho e mais de 40 milhões vivem na pobreza enquanto postos de trabalho migram para o exterior. As pessoas nos Estados Unidos se rebelaram contra essa situação catastrófica descrita por ele e contra as prioridades equivocadas da elite, afirmou Trump. Essa rebelião tinha sobretudo um objetivo: fazer com que o governo americano colocasse os interesses dos próprios cidadãos em primeiro lugar. Foi por isso que ele concorreu à presidência, e ele vai manter a sua promessa ao povo americano, assegurou. Entre os republicanos, o clima era de júbilo; entre a oposição democrata, de um silêncio sepulcral: um símbolo da profunda divisão da classe política nos Estados Unidos – e do país como um todo. "Também no tempo de Obama já havia muita desconfiança e troca de farpas entre os dois lados", lembra Litt. Porém, a dimensão atual é nova. "Para muitos democratas, Trump não é um presidente normal, que joga dentro das regras. Eles o acham assustador em muitos aspectos. Por isso, eles ainda buscam um caminho para lidar com o mandatário com o respeito que o cargo merece, mas sem ignorar o que se passa diante dos nossos olhos", afirma. Isso ficou claro já na entrada do presidente no plenário: o aplauso de boas-vindas do lado democrata era contido ou até mesmo nulo. E muitas mulheres entre os democratas vestiam branco, numa referência aos primórdios do movimento pelos direitos das mulheres – e num protesto silencioso contra os reiterados casos de misoginia de Trump bem como seus planos de colocar o juiz federal Neil Gorsuch, inimigo declarado do direito ao aborto, na Suprema Corte Também outras declarações do presidente, como a redução da regulação na proteção ambiental, a reforma do sistema de educação e sobretudo o fim do Obamacare, há anos demonizado pelos republicanos, não entusiasmaram os democratas. De onde virá o dinheiro? Diante disso, não ajudou muito o fato de Trump ter abordado alguns temas politicamente menos controversos, como a luta contra o chamado "Estado Islâmico" (EI) e outras organizações terroristas. Aplausos entusiasmados do lado democrata só foram ouvidos quando o presidente se dirigiu aos representantes das Forças Armadas para agradecer aos soldados americanos que estão em ação em todo o mundo – um ponto que não deve faltar em nenhum discurso presidencial. Em alguns trechos do discurso de Trump, pôde-se ver uma mão estendida para a cooperação com os democratas: por exemplo, quando ele exortou o Congresso a elaborar uma lei de imigração mais ampla. E ele prometeu melhores salários, milhões de novos postos de trabalho e um programa de investimento de dimensões históricas para renovar a infraestrutura dos Estados Unidos, em muitos pontos sucateada. O que Trump não disse é como pretende pagar por tudo isso: uma ampla modernização da infraestrutura ao longo de muitos anos custará centenas de bilhões de dólares. Além disso, ele voltou a prometer uma redução significativa de impostos, uma das maiores elevações do orçamento militar na história dos Estados Unidos, mais dinheiro para veteranos e mais apoio para a polícia e outros órgãos de segurança. E é claro que não deixou de fora a construção do muro na fronteira com o México, o qual, sozinho, deverá custar 20 bilhões de dólares. "É bastante evidente que tudo isso ao mesmo tempo não é possível", comenta o analista Nico Lange, que dirige o escritório da Fundação Konrad Adenauer em Washington. "A linha de conflito mais interessante a ser observada não é a entre republicanos e democratas, mas como o embate entre nacionalistas e republicanos clássicos vai evoluir, e como Trump vai conseguir chegar a um acordo com os deputados e senadores republicanos. Eles são extremamente seguros de si mesmos e têm suas próprias concepções." O único indício concreto de financiamento não apareceu no discurso, mas antes dele: já na segunda-feira, a Casa Branca havia anunciado que os recursos para os militares virão sobretudo de cortes na ajuda ao desenvolvimento, na proteção ambiental e no serviço diplomático. Os democratas já se opuseram a essas propostas. Centrado nos Estados Unidos "Quem cortar os recursos para a diplomacia e a ajuda ao desenvolvimento de forma tão expressiva que, ao final, só restarão os militares como ferramenta da política externa americana, cometerá um grande erro", alerta Jack Sullivan, que foi assessor de segurança nacional do ex-vice-presidente Joe Biden. "Quem tem apenas um martelo para se defender, vê prego em qualquer problema, e nós logo estaremos envolvidos em mais guerras e conflitos no exterior." Porém, peculiaridades da política externa americana claramente não são a prioridade de Trump, comenta o analista Michael Czogalla, que há anos analisa a política externa e de segurança dos Estados Unidos para a Fundação Friedrich Ebert. "Este foi um discurso extremamente centrado nos Estados Unidos. Ele falou um pouco sobre o 'Estado Islâmico', um pouco sobre a Otan, mas no geral ele falou pouco sobre política externa: nada sobre a Rússia, a Síria, a Turquia, o Irã, o Afeganistão – a lista continua", aponta. Para Czogalla, a mensagem de Trump para a própria população é clara: "Temos de pensar primeiramente em nós. Eu represento os Estados Unidos e mais ninguém. E isso é uma forte negação daquilo que os Estados Unidos fizeram até aqui."

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos