Opinião: Uma UE em dois ritmos

Barbara Wesel

A União Europeia vem refletindo sobre seu futuro, não apenas por causa do Brexit, mas também porque a unidade entre os países-membros está se esvaindo. Alguns serão deixados para trás - e com razão, opina Barbara Wesel."Nunca concordaremos com divisões na União Europeia (UE), porque esse é o caminho mais fácil para enfraquecer a Europa", ecoa após uma reunião do grupo de Visegrad [aliança entre Hungria, Polônia, República Tcheca e Eslováquia], em Varsóvia, nesta quinta-feira. Algo surpreendente depois de a cooperação e a solidariedade europeias serem há algum tempo fortemente colocadas em questão pelos governos da Polônia, da Hungria, da República Tcheca e, em parte, da Eslováquia. Lembramo-nos de palavras incendiárias do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e dos ataques do partido governista polonês, PiS, contra Bruxelas. O que aconteceu para, de repente, os pássaros pousados sobre as cercas cantarem uma canção tão diferente? O motivo é a atual discussão sobre uma nova ordem europeia. A discussão não é travada somente por conta do Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia], mas também devido à crescente incapacidade de se chegar a acordos. Nesse contexto, a política para refugiados é apenas um exemplo: durante meses um grupo de países do Leste Europeu bloqueou qualquer progresso razoável. Mas as frustrações são mais profundas. Movimentos populistas em muitos países-membros tacham a UE como a fonte de todos os males, sem que os governos nacionais se posicionem seriamente contra isso. É confortável demais para eles o papel de eterno bode expiatório desempenhado por Bruxelas. Um mau exemplo vem da Itália: a própria incapacidade de implementar uma reforma é vendida como uma fictícia política de austeridade da UE. E, sem ser contestado, Beppe Grillo pode convencer os italianos de que a Europa é culpada pelo mau desempenho da economia no país. Nesse estado miserável da UE, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, respondeu agora com cinco propostas para o futuro. Elas vão de "business as usual" a uma redução do bloco a um mercado comum até uma "UE com coalizões da boa vontade". Tais ideias devem colocar a discussão sobre o futuro da Europa sobre trilhos e, em breve, levar a um resultado. Quem prestou atenção no que disse a chanceler federal alemã, Angela Merkel, nos últimos tempos já sabe o destino da viagem: ela falou repetidas vezes numa Europa de "diferentes velocidades". Um termo que representa a ideia de que um núcleo de países quer cooperar mais estreitamente do que a UE como um todo. Numa margem externa ficam os países que não estão presentes em todos os assuntos. Agora todos em Bruxelas e Berlim vão contestar a ideia de que um sistema de duas classes deve surgir na UE. Merkel sempre ressalta que todos estão convidados a participar. Na verdade, porém, os países da Europa são colocados diante da escolha entre uma cooperação estreita – em defesa, política econômica, impostos e assim por diante – e uma existência nos bancos de trás da UE. A Europa chegou a um ponto em que parece não ser mais possível continuar de outra maneira. No entanto, de repente acordaram aqueles que até agora viam a UE apenas como seu caixa principal, de onde coletam bilhões para o próprio orçamento estatal. Um jornal búlgaro conclui que, numa Europa com um núcleo, os demais países seriam deixados à margem e para trás. E também na mídia polonesa se constata com inquietação que o trem europeu poderia partir da estação sem esperar pela Polônia. Muitos dos Estados-membros contribuíram para os problemas da Europa. Quase ninguém é inocente. Mas a contribuição de alguns foi particularmente destrutiva. Como adolescentes rebeldes, eles tramaram a queda da casa dos pais. Já no fim deste mês serão apresentados os primeiros caminhos para reformas na Europa. E logo alguns poderiam se encontrar diante da porta, do lado de fora.

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