Operação Lava Jato

Círculo de confiança de Temer na mira: quais são as suspeitas contra os homens-fortes do presidente?

Jean-Philip Struck

  • REUTERS/Adriano Machado

    Temer cumprimenta Moreira Franco em cerimônia de posse do ministro em fevereiro

    Temer cumprimenta Moreira Franco em cerimônia de posse do ministro em fevereiro

O chamado núcleo duro do poder, aquele que auxilia e influencia diretamente o presidente Michel Temer, está praticamente desfeito. Atuais e ex-ministros do círculo de confiança do Planalto enfrentam inquéritos e citações em delações. Veja as principais: 

Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento e atual líder do governo no Senado 

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Nomeado para o cargo de líder do governo no Senado no último fim de semana, Jucá é alvo de oito investigações no Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio do ano passado, chegou a ocupar o posto de ministro do Planejamento por dez dias antes de pedir demissão. Sua situação havia ficado insustentável após o vazamento da gravação do infame diálogo com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. 

Na conversa, Jucá sugeria um pacto para frear a Lava Jato e "estancar essa sangria". Apesar de não ocupar mais nenhum ministério, Jucá continua próximo de Temer e é um dos responsáveis por ajudar o pacote de reformas do governo no Senado.

Suspeitas: Sua coleção de investigações no STF inclui o inquérito 3989, em que o senador é investigado pelos crimes de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e corrupção passiva relacionados aos desvios na Petrobras ao lado de outras figuras do PMDB. 

Três inquéritos apuram suspeita de responsabilidade e contra a ordem tributária, apropriação indébita previdenciária e falsidade ideológica, além de crimes eleitorais. O restante dos inquéritos apura suspeita de corrupção passiva e ativa, ocultação de bens e formação de quadrilha e obstrução da Justiça.

Alguns do inquéritos andam lentamente. Um deles, que investiga um esquema de desvios de verbas federais para municípios de Roraima, tramita no STF desde 2004. Só no ano passado o tribunal autorizou a quebra de sigilo bancário do senador. 

Em sua delação, o ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho disse que Jucá recebeu R$ 22 milhões da empreiteira em troca de apoio para medidas provisórias e projetos de interesse da empresa. Na planilha de pagamentos/doações da empresa, o senador era chamado de "Caju". 

Moreira Franco, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência 

Pedro Ladeira - arquivo/Folhapress

Amigo de Temer há mais de 20 anos, Moreira Franco ocupou até o início de fevereiro o cargo de secretário do Programa de Parcerias de Investimentos. Acabou sendo promovido ao cargo de ministro após o seu nome ter sido citado em uma das delações da Odebrecht. Menos atingido por denúncias do que outros membros do núcleo, teve sua influência ampliada nas últimas semanas.

Suspeitas: O executivo da Odebrecht Claudio Melo Filho citou Moreira Franco 34 vezes em sua delação. Nas planilhas da empresa, o ministro apareceu com o apelido "Angorá". Mello disse que tratou com Moreira – que ocupou o cargo de ministro da Aviação Civil no governo Dilma Rousseff - os planos da empreiteira na área de concessão de aeroportos. Melo relatou que Moreira teria solicitado ainda recursos da empreiteira para o PMDB.

Moreira também foi citado em conversas de WhatsApp entre o ex-deputado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS. "Eles tão chateados porque Moreira conseguiu de você para Michel 5 paus e você já depositou inteiro e eles que brigaram com Moreira, você adia. É isso", disse Cunha em um dos textos.

Moreira é alvo ainda de uma investigação do MPF do Rio de Janeiro que apura o prejuízo causado por um erro no sistema de informática da Caixa que pode ter resultado em um prejuízo de 1 bilhão de reais ao banco público entre 2008 e 2009. O erro permitiu que a Caixa assegurasse títulos "podres" de difícil recebimento no mercado. À época, Moreira Franco era vice-presidente de Loterias e Fundos do governo.

José Yunes, ex-assessor especial do gabinete da Presidência

21.jun.2013 - Zanone Fraissat/Monica Bergamo/Folhapress

Suspeitas: Amigo de Temer há cinco décadas, Yunes deixou o cargo em dezembro após ser citado em uma delação da Lava Jato.

O executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho disse em delação que Yunes recebeu parte dos 10 milhões de reais supostamente solicitados pelo próprio Temer, em maio de 2014, em um jantar no Palácio do Jaburu. A propina seria destinada para a campanha eleitoral do PMDB daquele ano.

Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, está licenciado 

Evaristo Sá - 5.out.2016/AFP

É considerado o braço-direito do presidente.

Suspeitas: Oficialmente, Padilha não é investigado na Lava Jato, mas seu nome foi citado várias vezes. O executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho, por exemplo, disse que em maio de 2014 o então vice-presidente Temer pediu R$ 10 milhões a Marcelo Odebrecht para serem usados em campanhas eleitorais do PMDB.

Segundo o delator, o dinheiro não foi registrado oficialmente. Desse total, R$ 4 milhões deveriam ser entregues a Eliseu Padilha. Ainda segundo Melo, a parte de Padilha foi enviada para o escritório do ex-assessor da Presidência José Yunes. O ministro licenciado foi citado 45 vezes na delação de Melo. Na planilha do Odebrecht, o apelido de Padilha era "Primo" – o documento aponta ainda mais um pagamento de R$ 1 milhão a Padilha.

Otávio Marques de Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, também disse em depoimento que a sua empreiteira acertou com Padilha o repasse de 1 milhão de reais para Temer na campanha de 2014. Além das suspeitas na Lava Jato, Padilha é alvo de investigações por suspeita de grilagem de terras e crime ambiental no Rio Grande do Sul e de mais uma acusação por crime ambiental em Mato Grosso.

Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Secretaria de Governo 

Pedro Ladeira -05.out.2016/Folhapress

Geddel balançou no cargo por vários dias antes de deixar o governo em novembro passado. Ele era responsável pela articulação política entre o Planalto e o Congresso.

Suspeitas: Um dos alvos da Lava Jato, Geddel deixou o cargo de ministro após ser implicado em um caso não relacionado de tráfico de influência. O peemedebista foi acusado de pressionar seu colega Marcelo Calero, que chefiava a pasta da Cultura, para que usasse sua influência na liberação da construção de um edifício de luxo em uma área histórica de Salvador. Mesmo com a revelação do escândalo, Geddel se manteve firme no cargo por uma semana graças ao apoio irrestrito de Temer. Só decidiu pedir demissão quando o escândalo envolveu o próprio Temer.

Antes disso, o ex-ministro apareceu em mensagens do celular do empresário Léo Pinheiro, da OAS, pedindo dinheiro para campanhas. Investigadores suspeitam que Geddel junto com Eduardo Cunha pode ter usado sua influência para atuar em favor da OAS dentro da Caixa (Geddel ocupou uma vice-presidência do banco) e em outros órgãos.

O executivo da Odebrecht Cláudio Mello afirma que Geddel recebeu mais de R$ 5 milhões da empreiteira nas campanhas de 2006, 2008, 2010 e 2014. Em troca, ele ajudou a liberar recursos federais para grandes obras e apresentou uma emenda que atendia interesses da empreiteira. Nas planilhas da empresa, Geddel era identificado pelo codinome "Babel".

O conteúdo das 77 delações de ex-executivos da Odebrecht foram homologadas pela Justiça em janeiro, mas estão sob sigilo. Os relatos sobre as delações foram trazidos pela imprensa durante cobertura da operação Lava Jato.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos