Holanda tem campanha eleitoral sob o signo do euroceticismo

Barbara Wesel (ca)

Enquanto o populista Geert Wilders é um inimigo declarado da UE, poucos holandeses defendem abertamente a integração europeia. Mesmo assim, um "Nexit" é considerado improvável.Na Alemanha, milhares de pessoas vão às ruas, seguindo o chamado do movimento Pulse of Europe (Pulso da Europa). Já em Amsterdã, as manifestações conseguem reunir poucos apoiadores de uma Europa unida. A tentativa corajosa de atrair o interesse dos transeuntes com panfletos e bandeirinhas da União Europeia (UE), em meio à chuva e ao vento gelado, não passa de uma ação fracassada de uns 50 amigos da UE. Depois de algumas palavras de incentivo dos organizadores, todos logo escapam para um local mais quentinho. Por que há tão poucos pró-europeus na Holanda? "Nossos políticos não dão um bom exemplo", diz Jan Piet Verhoeg, restaurador de prédios antigos. "Ser antieuropeu está na moda. Há muito tempo que os populistas de direita fazem campanha contra a integração europeia. Eles preferem voltar aos 'bons velhos dias', com controle de fronteiras e moeda própria." Segundo ele, muitos holandeses não entendem que a Europa corre perigo. Por esse motivo, Verhoeg abriu mão do seu domingo. "É surpreendente que essa ideia seja apoiada por tão pouca gente", comenta. O restaurador diz que, embora muitos estejam cientes de que 70% do comércio do país seja realizado dentro da UE, algo sabido principalmente pelos empresários, também na Holanda existe a necessidade de um pensamento simplista, de respostas simples. "E a União Europeia é algo complexo." E como ele explica o chamado paradoxo da felicidade: por que os ricos holandeses estariam tão descontentes a ponto de flertar com o populismo de direita e colocar em questão a União Europeia? "Talvez eles estejam saciados demais", especula Verhoeg. "Talvez a riqueza leve ao egoísmo." Excesso de política neoliberal? Também o advogado Martijn Snoep segura a sua bandeira europeia na chuva. Ele diz acreditar que a política econômica do governo do primeiro-ministro Mark Rutte é corresponsável pelo clima na sociedade: "Muitos acham que ninguém mais se importa com eles. Fala-se de globalização, automação e divisão de riqueza. Todos esses temas não são europeus, mas em todos a UE é o bode expiatório." E a questão dos holandeses ricos e felizes? Segundo Snoep, para além das estatísticas, há "muitos que se sentem perdidos, pois tivemos muitos anos de uma política muito liberal". O advogado acrescenta que, nesse período, foi dito à população que ela tinha que cuidar de si mesma. "Tínhamos um Estado de bem-estar social perfeito e, de repente, as pessoas são deixadas à própria sorte. Elas se sentem traídas e agora gritam por socorro e fazem de tudo para atrair a atenção do governo." Martin Verbeek diz ver a União Europeia de forma bem pragmática. Ele pertence à terceira geração de comerciantes em Aalsmeer, o maior pavilhão de venda de flores do mundo. Lá, quase 30 milhões de flores são vendidas diariamente – rosas do Quênia, crisântemos do Equador e, na primavera, tulipas da Holanda. Cerca de metade das flores vendidas provém de plantações locais. "Elas vêm de todo o mundo, e nós as revendemos para a Europa", diz Verbeek. "Para nós, é importantíssimo o acesso ao mercado comum europeu". Flores, afinal, são produtos perecíveis, que não podem esperar na fronteira. "Vemos isso, por exemplo, na Suíça. Eles têm as suas próprias regras, carimbos e formulários", diz o comerciante, explicando que essa situação torna as vendas para o país mais difíceis. Flores empacotadas para venda pela manhã devem chegar aos revendedores à noite. O imenso pavilhão é também um exemplo da automação onipresente. A maioria dos carros com contêineres de flores são guiados por computador, circulando sem motorista pelos corredores. Somente alguns poucos trabalhadores cumprem tarefas especiais com empilhadeiras. Antes, o local gerava centenas de postos de trabalho. Nexit é improvável O historiador Luuk van Middelaar é um especialista em história da UE. Ele diz que os holandeses sempre foram menos empolgados com a ideia da União Europeia que seus vizinhos. "Eles gostam da Europa como mercado, mas aí o orgulho nacional entra em jogo." Segundo o historiador, o clima no país mudou na década de 1990, quando a Holanda se tornou um país que envia mais dinheiro para Bruxelas do que recebe de volta. Desde então, as críticas à União Europa crescem. Middelaar diz ainda que, ao mesmo tempo, os holandeses são muito pragmáticos e uma saída do país do bloco europeu, um "Nexit" – junção das palavras em inglês Netherlands (Holanda) e exit (saída) – é absolutamente improvável. O historiador explica que, como habitantes de um pequeno país, os holandeses sabem que, ao contrário do Reino Unido, não podem sobreviver sozinhos no cenário internacional. "Deixar o clube não é uma opção." Quando o populista de direita Geert Wilders defendeu a saída da zona do euro, na eleição passada, ele perdeu votos porque isso não soava como algo digno de crédito, acrescenta o especialista. Quanto a Wilders, Middelaar diz que é necessário relativizar o sucesso dele. "No momento, Wilders tem 16% de intenção de voto nas pesquisas, ou seja, um sexto dos eleitores. Talvez um pouco mais, mas, para ao menos 80% dos holandeses, ele não é uma opção." Mesmo que, na eleição na Holanda, o tom dos partidos tradicionais seja um pouco mais crítico em relação à União Europeia, o historiador garante: "Continuamos no campo do pragmatismo e conectados à realidade."

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