Opinião: Discurso de Merkel evidencia força do nacionalismo

Jefferson Chase

Chanceler alemã deixa claro que é a maior apoiadora da UE entre os Estados-membros, mas mesmo ela não consegue escapar das emoções nacionalistas que colocam em risco o projeto europeu, opina o jornalista Jefferson Chase.O discurso da chanceler federal Angela Merkel nesta quinta-feira (9/3) pode ser resumido assim: reprovar as ações da Turquia, ignorar Donald Trump e esperar para ver no caso de Theresa May. O propósito do discurso da chanceler era expor a posição da Alemanha antes de uma especialmente importante cúpula da União Europeia, em 25 de março em Roma. Mas Merkel dedicou uma parte considerável do seu discurso a um tema majoritariamente doméstico: as comparações entre a República Federal da Alemanha e a Alemanha nazista que foram feitas por altos membros do governo turco, incluindo o presidente Recep Tayyip Erdogan. As comparações, como Merkel destacou corretamente, são ridículas e infantis demais para merecerem um comentário. Mas o fato de Merkel tê-las comentado assim mesmo mostra como tópicos nacionais continuam sendo sensíveis na era da globalização. Esse é o maior problema da União Europeia (UE) – e consequentemente também de Merkel. Apesar de Merkel ter louvado a UE como "uma história única de sucesso" e uma garantia da paz e prosperidade europeias, o populismo de direita ameaça rasgar a Europa pelas suas fronteiras nacionais. Não há consenso nas questões envolvendo refugiados, os eleitores do Reino Unido decidiram deixar completamente a UE, e muitas pessoas temem que os populistas eurocéticos vencerão ou pelo menos conseguirão poder significativo nas próximas eleições na França, na Holanda e na própria Alemanha. Merkel quer reverter essa tendência. Ela defendeu maior responsabilidade europeia pela segurança da UE, especialmente nos Bálcãs, em leve aceno às críticas de Trump aos seus parceiros europeus na Otan. Mesmo o Brexit foi apenas rapidamente mencionado no final do seu discurso. Merkel disse que não se pode dizer nada antes de os britânicos apresentarem oficialmente seu pedido de saída. Parecia que ela estava esperando que os britânicos recobrassem a razão no último minuto. Mas, se Merkel enfatizou os aspectos positivos, a verdade é que ela e a UE enfrentam desafios espinhosos. Ela não pode responder vigorosamente às comparações turcas sobre o nazismo, como provavelmente gostaria, porque precisa do acordo entre a UE e a Turquia para diminuir a entrada de refugiados na Europa – e consequentemente frear o avanço dos populistas de direita. Além disso, o apelo de Merkel por uma cooperação mais estreita entre os 27 Estados da UE, em resposta às tendências isolacionistas de Trump, bate de frente com o ceticismo, ou até mesmo hostilidade, que muitos europeus mostram em relação à UE. A calma prudente, marca registrada de Merkel, não pode apagar sozinha as profundas divisões no interior da Europa. Espera-se que os participantes da reunião de cúpula da UE, que vai ocorrer daqui a duas semanas, tomem parte no 60º aniversário dos Tratados de Roma, que deram origem à Comunidade Econômica Europeia. Mas o aniversário vem num momento em que os nacionalistas querem reduzir a UE às dimensões de então – ou mesmo aboli-la completamente. Merkel mostrou em seu discurso ser uma vigorosa apoiadora de uma Europa unida, e que a posição da Alemanha na cúpula em Roma será a de que uma UE fortalecida é boa para todos. Mas Merkel deve considerar que muitos europeus, talvez até mesmo a maioria, querem menos e não mais UE. Sentimentos nacionalistas estão em ascensão – ela não conseguiu nem mesmo evitá-los durante o próprio discurso. E emoções como essa podem provocar uma eventual ruína da UE.

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