O que Trump diz de Merkel e vice-versa

Michael Knigge (av)

Diante do histórico de ofensas americanas e réplicas alemãs, clima do primeiro encontro entre os dois líderes deve ser carregado. Ambos terão de superar as duras críticas do presidente dos EUA à líder da Alemanha.Quando líderes políticos alemães e americanos discordam seriamente num tópico crucial, geralmente é este o tom: "Este país, sob o meu governo, não está disponível para aventuras", disse o então chanceler federal da Alemanha, Gerhard Schröder, durante um evento eleitoral de seu Partido Social-Democrata (SPD), em meados de 2002. O chefe de governo se referia à perspectiva de uma invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que acabou acontecendo no ano seguinte, sob o presidente George W. Bush. Consta que a réplica de Schröder não só irritou seriamente o republicano, como também prejudicou irreparavelmente a relação pessoal dos dois líderes. Leia mais: O que esperar de Merkel em Washington? "Não estou convencido", foi a célebre resposta do então ministro alemão do Exterior, Joschka Fischer, ao secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, na Conferência de Segurança Mundial de Munique, em fevereiro de 2003, um mês antes de os americanos começarem a invadir o território iraquiano. O fato de o chefe da diplomacia alemã questionar assim a apologia da guerra feita pelo chefe do Pentágono diante de um grupo de personalidades da política global era inusitado no contexto da tradicionalmente estreita e – pelo menos publicamente – harmoniosa relação entre líderes das duas potências. Tampouco melindroso com as palavras, Rumsfeld declarou, naquele mesmo mês: "Eu creio que Líbia, Cuba e Alemanha são os que indicaram que não ajudarão de forma alguma." Desse modo, ele equiparava o posicionamento do país europeu ao de duas nações tradicionalmente hostis aos EUA. "O povo alemão vai acabar derrubando essa mulher" Mesmo diante de tal pano de fundo histórico, é verdadeiramente inédito o número e a ferocidade dos ataques verbais emitidos por Donald Trump contra a atual chanceler federal alemã, Angela Merkel , durante a campanha presidencial dele, sem qualquer provocação. "Eu sempre achei que Merkel fosse uma grande líder", disse numa entrevista em outubro de 2015, comentando a decisão da política democrata-cristã de permitir o ingresso no país de mais de 1 milhão de refugiados. "O que ela fez na Alemanha é insano", acrescentou o candidato americano. "Eles vão ter revoltas de rua na Alemanha", previu. Dois meses mais tarde, após a revista Time eleger Merkel "personalidade do ano", Trump comentou no Twitter que o veículo escolhera a pessoa "que está arruinando a Alemanha". Em março de 2016, durante um comício no estado de Iowa, referindo-se ao ataque em massa a mulheres no réveillon da cidade alemã de Colônia, o republicano castigou Merkel mais uma vez: "O povo alemão vai se revoltar. O povo alemão vai acabar derrubando essa mulher. Eu não sei o que ela tem na cabeça." Em junho passado, comentando o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), o bilionário americano especulou sobre um êxodo na Alemanha: "Isso é gente que eram alemães muito orgulhosos, acima de qualquer crença [sic], eles achavam que era o maior que já houve e agora estão falando em deixar a Alemanha." Em outra entrevista, ainda como candidato, Trump comentou: "Bem, eu acho que Merkel é realmente uma grande líder mundial. Mas fiquei muito decepcionado quando ela... essa guinada com a coisa toda da imigração. Acho que é um problema realmente grande e, sabe, vendo o que ela fez no último ano e meio... Sempre fui uma pessoa pró-Merkel, achava realmente fantástica, mas acho que ela cometeu um erro muito trágico um ano e meio atrás." Pelo menos sem gritaria Ao contrário de alguns dos membros de seu gabinete, a chefe de governo alemã manteve a calma e não rebateu diretamente as críticas de Trump durante a campanha eleitoral. Em vez disso, esperou o resultado para abrir o verbo com o novo presidente dos Estados Unidos. Num já famoso comunicado da Chancelaria Federal, congratulando o magnata por sua vitória, ela lhe ofereceu cooperação estreita, com base nos valores comuns, que enumerou um a um: "democracia, liberdade, respeito à lei e à dignidade dos seres humanos, independente de origem, cor da pele, religião, gênero, orientação sexual ou posicionamento político". A mensagem pode parecer moderada, diante dos ataques feitos por Trump. Porém oferecer cooperação a um presidente americano não só sob condições especificadas, mas de um jeito passível a ser interpretado como uma lição sobre os valores ocidentais, foi tão próximo a uma repreensão quanto se possa esperar de Merkel ou de qualquer premiê da Alemanha. E a política conservadora não parou por aí, pronunciando-se em janeiro com veemência contra a proibição, anunciada por Trump, do ingresso nos EUA de cidadãos de diversas nações predominantemente islâmicas: "A necessária e decisiva batalha contra o terrorismo não justifica, de forma alguma, colocar certos grupos humanos sob suspeita generalizada – neste caso, indivíduos de fé muçulmana ou de uma certa origem." Considerando-se esse embate retórico, é justo descrever como potencialmente carregado o primeiro encontro entre Merkel e Trump, marcado para esta semana. E tudo indica que um experiente analista de política externa americana estava brincando apenas em parte, ao observar que já consideraria um sucesso, se Trump se comportar e o encontro acabar sem gritaria.

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