"Alemanha está abaixo da média no combate ao declínio populacional"

Peter Hille (av)

Envelhecimento da população integra agenda política alemã há anos. Em entrevista, especialista do Instituto Max Planck afirma que esforços do governo são incipientes e esbarram numa mentalidade trabalhista retrógrada.Nesta quinta-feira (16/03), a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e quatro de seus ministros se reúnem numa cúpula em Berlim para discutir a política demográfica nacional. O envelhecimento da sociedade alemã tem sido tema há décadas, e até se cogitou que o afluxo em massa de refugiados poderia ser o remédio ideal para o problema. A DW entrevistou James W. Vaupel, diretor-fundador do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, em Rostock. Sua avaliação das políticas populacionais alemãs é severa: o país está abaixo da média no incentivo à natalidade, devido a uma legislação trabalhista inflexível e anacrônica. "A atitude de que mulheres com filhos não devem trabalhar equivale à de 50 anos atrás, e não é benéfica para a taxa de natalidade", critica Vaupel. Sua primeira medida para sanear a política populacional seria prorrogar a idade de aposentadoria: "Ainda há inflexibilidade demais no sistema alemão." DW: Alguns anos atrás, a Alemanha temia um colapso demográfico. Tratava-se simplesmente do típico angst (medo) alemão? James Vaupel: Sim, era principalmente angst alemão. Mas não só: na Itália, Polônia ou Rússia os cidadãos estão igualmente preocupados com o colapso demográfico. A população começou a cair em diversos países, e estimativas para um futuro distante permitem vislumbrar um cenário assustador, com uma população muito menor. Mas isso levaria muito tempo, talvez décadas. E até então as políticas podem mudar, as atitudes podem mudar. Foi isso que aconteceu na Alemanha em tempos recentes? Tem-se visto uma espécie de pequeno baby boom ultimamente. Se as pessoas tivessem o número de filhos que desejam, uma família média alemã teria duas crianças. Mas o número ainda é muito mais baixo. Por quê? Um problema é o sistema de creches. É difícil combinar emprego e família. Principalmente na Alemanha Ocidental, se espera que as mães fiquem em casa com as crianças pequenas, o que prejudica suas carreiras e sua renda. O governo tem tentado melhorar a situação com mais vagas em creches e mais benefícios para os pais. Não houve impacto positivo algum? Teve um impacto modesto, mas é pouco. Quando um jovem casal tem uma criança, fica submetido a uma enorme carga. E o governo poderia fazer várias coisas para reduzir essa carga. A Dinamarca e a Suécia, por exemplo, têm muito mais sucesso em ajudar os jovens a terem filhos do que a Alemanha. Na Dinamarca, a licença paternidade e maternidade é longa, há jornadas de trabalho flexíveis e também oportunidades de trabalhar meio período. E há muitas creches, a custo bem baixo. Como avalia as políticas demográficas alemãs? Temos desempenho mediano em relação a outros países desenvolvidos? Acho que a Alemanha está abaixo da média em termos da assistência fornecida aos jovens. Especialmente quanto à atitude de que mulheres com filhos pequenos não devem trabalhar. Esta é uma atitude como a de 50 anos atrás, que não é benéfica para a taxa de natalidade. Vai caber aos refugiados da Síria e outros lugares preencher essa lacuna? É claro que um imigrante de 20 anos pode substituir um bebê que deixou de nascer 20 anos atrás. Mas a dificuldade está na integração à sociedade. Esse é um problema em muitos países europeus. Se pudesse alterar as políticas demográficas da Alemanha, o que mudaria primeiro? O sistema de pensões, a idade de aposentadoria. Uma das razões por que a Alemanha não tem dinheiro suficiente para ajudar as famílias é porque se gasta tanto com os mais velhos, que não trabalham. Se os cidadãos trabalhassem mais tempo, isso pouparia muito dinheiro e contribuiria para a economia. Aí a Alemanha poderia gastar mais na educação, saúde, na integração dos imigrantes, na defesa, pesquisa. E como convenceria as pessoas a trabalharem por mais tempo? Muito importante seria ter horários de trabalho mais flexíveis. Para encorajar os mais idosos a permanecer na força de trabalho, é preciso ter mais empregos de meio período, com horários flexíveis, onde se possa escolher as horas em que se quer trabalhar. Ainda há inflexibilidade demais no sistema alemão.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos