"Deixei minha família para sempre em Aleppo"

Diana Hodali (av)

Em meio ao curso universitário de ciências, guerra surpreendeu a jovem síria Rima A.. Após um ano e meio na Alemanha, a saudade da família é forte - mas também a determinação de não voltar para a violência e destruição.Rima A. engordou um pouquinho, mas continua esguia. Mesmo depois de 18 meses, ela ainda traz no corpo os efeitos da guerra civil na Síria. Seu sorriso, ao abrir a porta, é largo, aberto, quase despreocupado. Mas quando ela fala da cidade natal, Aleppo, a leveza dá lugar à tristeza, como se tudo o que ela viveu se desenrolasse novamente diante de seus olhos, como um filme. Ela quase se esquece que o conflito já entra no sétimo ano. "Perdi a minha noção de tempo, a guerra está correndo há uma eternidade", comenta. "Nós sempre acreditamos que ela iria acabar logo. Hoje eu sei que era ingenuidade." A síria de 25 anos beberica seu café, os dedos delgados envolvem a alça da xícara como se ela precisasse se segurar nela. Seus pais mandaram o pó de café por uma amiga que, assim como Rima, acaba de vir de Aleppo para a Alemanha através de um programa internacional de estudo para sírios. O aroma lhe recorda dias em que sentava junto com os pais para tomar café da manhã. "O café de Aleppo tem um cheiro delicioso, intenso. São tantas lembranças que vêm. Não tomo todo dia, pois quero que ele dure tanto quanto possível. Tão logo eu não vou receber outro pacote." "A gente se acostuma ao estado de guerra" Ela prefere não dizer seu nome verdadeiro: os pais e a irmã ainda vivem em Aleppo, e ela teme que um artigo sobre sua família possa desencadear represálias do regime do presidente Bashar al-Assad contra eles. Por isso, permanece vaga em muitos pontos da narrativa. "Eu estou longe, fazendo meu mestrado, mas penso sempre na minha família", assegura. Durante um passeio, Rima A. relembra como tudo começou, em 2012. A guerra já grassava há um ano em vastas regiões da Síria. "Era verão, fazia calor, era época do Ramadã e, antes que eu me desse conta, a guerra tinha chegado à minha cidade." Seu segundo ano na Universidade de Aleppo apenas começara, e de um golpe diversas atividades universitárias foram suspensas. Então os tanques de combate tomaram as ruas, manifestantes eram considerados terroristas, a cidade entrou em estado de sítio. Por semanas, Rima e as irmãs não tiveram coragem de sair de casa. "Tínhamos tanto medo. Muitas vezes dormíamos no corredor. Houve tantos momentos em que pensei: 'Vamos morrer agora'", conta, com tristeza. E de repente o leste de Aleppo foi separado do resto da cidade. A área passou a ser controlada pelas forças rebeldes, enquanto a zona oeste, em que Rima vivia, ficou sob o domínio das tropas de Assad. O quotidiano passou a ser uma questão arriscada. Só os pais dela ainda se atreviam a sair para comprar gêneros alimentícios. O perigo era especialmente agudo na periferia da zona oeste, mas lá os preços eram mais baixos. "Havia carência de tudo, em especial de pão. Eu não suportava que a gente de repente tivesse que comer pão 'esticado' com serragem. Era nojento." A partir daí, Rima parou de comer pão. Água e eletricidade também eram artigos raros. "A minha infância inteira eu só escutava falar da guerra na Palestina, no Líbano, no Iraque. E eu sempre me perguntei como se podia viver assim. Hoje, sei que a pessoa se acostuma a esse estado." Decisão e determinação Mas permanecer na Síria estava fora de questão para ela. Não só os choques militares haviam castigado Aleppo; com a divisão da cidade, o clima humano também se deteriorou: só havia amigo ou inimigo, pró ou contra Assad. Em reação, Rima A. se retirou de todas as mídias sociais. "Eu não conseguia suportar as discussões políticas lá. Também não queria ver as fotos dos sírios de Damasco que se divertiam nas festas, enquanto em Aleppo a fome e a guerra imperavam." Rima se recorda de uma bela infância. Ela cresceu em boas condições materiais, no seio de uma grande família. "Eu estava sempre feliz quando criança. Na época escolar, queria ser jornalista, mas meu pai foi contra." Por quê? "Na Síria, nunca houve uma imprensa livre, eu nunca teria podido noticiar de forma objetiva." Por isso, Rima foi estudar ciências naturais, conseguiu até mesmo se formar durante a guerra. Mesmo antes de ela organizar sozinha a própria viagem para a Alemanha, a família já constatara que ela possuía uma forte dose de determinação. "Meus pais não tinham meios de me proporcionar a viagem. Então organizei tudo com a ajuda de um amigo que falava alemão, sem o conhecimento dos meus pais." Mas estes não se espantaram muito de que a filha quisesse ir para o exterior. "Meu pai disse que só me deixaria ir sob uma condição: que eu não poderia voltar nunca mais." Aqui a voz de Rima quebra, ela chora. "Eu me despedi para sempre da minha família. Não sei se algum dia vou poder voltar, e se aí todos ainda vão estar vivos." Doutorado e fricassé de galinha Ela é grata por não ter tido que atravessar o Mar Mediterrâneo para chegar à Europa, como milhares de outros sírios. Após uma longa jornada até Beirute, pôde pegar o avião para Frankfurt, com um visto da Alemanha no passaporte. "Muitas vezes minha consciência pesa por isso. Tantos sírios morreram no caminho para a Alemanha, tantos amigos talentosos estão presos em Aleppo", comenta, reprimindo as lágrimas. "Depois de deixar Aleppo, eu me senti como se estivesse vazia." Até hoje as imagens da destruição a perseguem. "Vou ter que aprender a lidar com isso sozinha. Toda vez que eu penso nos meus irmãos e nos meus pais, meu coração se parte." Desde dezembro de 2016, toda Aleppo está novamente nas mãos do regime Assad. Grande parte da população da quase totalmente destruída zona leste fugiu para a zona oeste. A infraestrutura está à beira do colapso, relatam os pais de Rima através do WhatsApp. Mas agora, cansados da guerra, os cidadãos de Aleppo voltaram a se aproximar uns dos outros. "Essa é uma Síria de que eu gosto de lembrar, de gente que não dá a mínima para qual é a religião do outro." Entretanto a guerra mudou tudo, ressalva a jovem. "Estou há um ano e meio na Alemanha, sinto muito saudade da minha família. Mas não quero voltar para a Síria", diz, decidida. Depois do mestrado, ela pretende fazer o doutorado. Ela gosta de viver na Alemanha, estuda o idioma com afinco. Seu árabe já é entremeado de palavras em alemão. E ela gosta da cozinha nacional, em especial do fricassé de galinha.

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