Governo tenta minimizar crise da carne e critica PF

Temer convida embaixadores de países importadores à churrascaria e reitera que produto brasileiro é seguro. Blairo Maggi questiona apuração da PF e defende sistema de fiscalização sanitária no país.O governo brasileiro vem tentando acalmar os ânimos e assegurar que sua indústria da carne não representa nenhuma ameaça, apesar de uma operação da Polícia Federal (PF), na sexta-feira passada (17/03), ter desbaratado um esquema de venda do produto com data de validade vencida ou mesmo estragado e de liberação de licenças para frigoríficos sem fiscalização. Após uma série de reuniões com ministros do governo e embaixadores dos principais países importadores de carne brasileira, o presidente Michel Temer convidou os representantes internacionais para um jantar numa churrascaria na noite deste domingo. O restaurante escolhido pelo Planalto compra carnes dos frigoríficos Marfrig, Minerva e JBS, um dos frigoríferos investigados. Temer sentou-se entre os representantes de China e Angola. Após o jantar, o presidente afirmou que os embaixadores e representantes presentes "vão advogar junto a seus países no sentido de divulgar a tranquilidade em relação ao consumo da carne brasileira". "Não é para causar um terror que se está imaginando", disse. Mais cedo, Temer afirmou aos embaixadores dos países exportadores, entre eles EUA, China e nações europeias, que o escândalo não significa que a carne brasileira ofereça riscos à saúde e reiterou a confiança do governo na qualidade do produto nacional. O Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina do mundo e o maior exportador, fornecendo para mais de 150 países. As investigações da PF apontam que a carne imprópria para consumo era destinada tanto ao mercado interno quanto à exportação. Segundo o presidente, o país tem 11 mil inspetores e apenas 33 estão sendo investigados. Das 4.837 unidades sujeitas à inspeção federal, apenas 21 são suspeitas de envolvimento em irregularidades. Os problemas descobertos são pontuais, afirmou. Temer discutiu ainda com os ministros e embaixadores medidas que amenizem os eventuais impactos negativos da operação da PF, batizada de Carne Fraca. "Quero fazer um comunicado de que decidimos acelerar o processo de auditoria nos estabelecimentos citados na investigação da Polícia Federal. Na verdade são 21 unidades no total, três dessas unidades foram suspensas, e todas as 21 serão colocada sob regime especial de fiscalização a ser conduzida por força tarefa do Ministério da Agricultura", anunciou Temer. "Fantasias" e papelão O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou que a China e a União Europeia pediram informações formais ao Brasil a respeito da operação deflagrada pela PF. O ministro garantiu que serão divulgados os nomes e dados das empresas citadas nas investigações e para quais países elas exportaram nos últimos dois meses. Segundo Maggi, seis dos 21 frigoríficos investigados exportaram produtos nos últimos 60 dias. Após a reunião emergencial com Temer e os representantes de países importadores, Maggi criticou a "narrativa" feita pela PF ao divulgar a operação e o fato de o Ministério da Agricultura não ter sido informado sobre as investigações. A PF explicou que o ministério não foi consultado, pois era parte da investigação, segundo o ministro. "A narrativa nos leva a criar fantasias", disse. "Sobre a questão do papelão está claro no áudio de que estavam falando das embalagens e não de misturar papelão na carne. Isso é uma idiotice, uma insanidade para dizer a verdade. As empresas gastaram milhões de dólares para conquistar mercados, e vão misturar papelão?" O ministro disse ainda que o uso de ácido ascórbico e carne de cabeça de porco nos embutidos, por exemplo, é permitido em determinados produtos e percentuais, e que a forma como essas informações foram divulgadas não foi adequada. Maggi voltou a defender que o sistema de fiscalização sanitária do país e a classificou como confiável. "Temos um sistema de fiscalização muito forte, robusto, reconhecido pelo mercado internacional, checamos toda a qualidade. Ao chegar aos países de destino, todos os produtos são novamente fiscalizados e checados. Nenhum mercado internacional é realizado sem que antes haja o reconhecimento dos sistemas de fiscalização, sanidade entre os países", disse o ministro. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a PF descreve indícios de irregularidades entre empresas e servidores do Ministério da Agricultura e na produção de alimentos com base em análise de grampos telefônicos e depoimentos. Em dois anos de apuração, a PF realizou perícia em alimentos em apenas um caso. Momento delicado As reuniões deste domingo aconteceram após a Operação Carne Fraca ter desarticulado uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários que emitiam certificados sanitários sem fiscalização, em troca de propina. Além de empresas fornecedoras e grandes frigoríficos, 33 fiscais federais também estão sob investigação. Segundo a PF, os frigoríficos envolvidos no esquema criminoso "maquiavam" carnes vencidas com ácido ascórbico e as reembalavam para conseguir vendê-las. O caso surge num momento sensível, quando o Brasil e outros membros do Mercosul procuram um acordo de comércio com a União Europeia. Os Estados Unidos começaram a receber, no ano passado, importações de carne crua do Brasil. Segundo informações do Ministério da Agricultura, em 2016, o Brasil exportou mais de 1 milhão de toneladas de carne bovina. Os principais destinos foram Hong Kong, Egito, China e Rússia. Também foram exportados cerca de 3,9 milhões de toneladas de carne de frango in natura, cujos principais compradores foram Arábia Saudita, China, Japão, Emirados Árabes Unidos e Hong Kong. No mesmo ano foram abatidas 42,3 milhões de cabeças de suínos para o mercado interno e externo. PV/AS/afp/rtr/abr/ap/ots

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