Num futuro próximo, tudo estará em rede - e você nem notará

Andreas Becker (md)

Estima-se que 50 bilhões de dispositivos estejam conectados no mundo - desde smartphones a válvulas de máquinas e sensores de carros. E a tendência, como mostra a feira Cebit, em Hannover, é que isso se intensifique.Carros autônomos? Isso tem no Salão Internacional do Automóvel (IAA) de Frankfurt ou na conferência sobre tecnologia SXSW de Austin, no Texas. Robôs que ajudam nas tarefas domésticas? Podem ser encontrados na Feira Industrial de Hannover. Soluções de nuvem, big data, a internet das coisas, realidade virtual? Tudo isso pode ser visto na CES, de Las Vegas, ou no Mobile World Congress, em Barcelona. E drones? Podem ser encontrados em qualquer loja de brinquedos. A Cebit, realizada em Hannover desde esta segunda-feira (20/03) e inaugurada pela chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, tem o problema de que as principais novidades do setor não são apresentadas somente aqui, mas em vários outros lugares. Mas isso é algo que parece não incomodar Oliver Frese, membro do conselho de direção da empresa organizadora da feira, a Deutsche Messe AG e presidente da Cebit. "Antigamente, a digitalização era mais abstrata", diz. "Nesta Cebit, ela é uma experiência concreta, porque há agora muitas áreas de utilização." De tampas de bueiros a exoesqueletos O evento conta com a participação de 3 mil empresas de 70 países, que mostram seus produtos e aplicações até a próxima sexta-feira. O número de expositores é, portanto, exatamente o mesmo que o do ano anterior, e Frese espera que a feira receba também neste ano cerca de 200 mil visitantes. A feira é focada nas possíveis formas de utilização pelas empresas das principais tendências de digitalização – especialmente pelas médias empresas. Produtos para consumidores normais são exceção. Já é lugar comum a afirmação de que tudo está em rede com tudo e de que dados digitais são armazenados na nuvem. Na Cebit, os organizadores gostam de citar estudos segundo os quais 50 bilhões de dispositivos estão conectados em rede no mundo – desde smartphones normais, passando por válvulas de máquinas até sensores de carros autônomos. "Em algum dia, até mesmo tampas de bueiros das ruas vão informar seus níveis de água", diz Thorsten Dirks, presidente da Federação Alemã das Empresas de Informação, Telecomunicação e Novas Mídias (Bitkom). "Isso vai acontecer. Vamos ver como a tecnologia de sensores evoluirá, quantos sensores usaremos no corpo e como os sensores serão embutidos em materiais têxteis." A fabricante de tintas Bergolin planeja usar em suas fábricas os óculos Hololens, da Microsoft, dispositivo que enriquece a realidade com dados virtuais. No projeto, ainda em fase de testes, os operários da empresa de médio porte mexem os dedos no ar para controlar os produtos químicos que entram na máquina de mistura de tintas. Já a Ekso Bionics, fabricante dos chamados exoesqueletos (estruturas robóticas para auxiliar o corpo humano), ajuda Sebastian Erhardt – que ficou paraplégico após um acidente – a andar e até mesmo correr novamente. Atualmente, o esqueleto – que custa 120 mil euros – é usado apenas por hospitais. Salesforce, um importante fornecedor americano de soluções de computação em nuvem, desenvolveu aplicações específicas para lidar com dados em rede, em parceria com diversas empresas, incluindo o fabricante de caminhões Man. Fregueses à espera de uma entrega podem saber, a qualquer momento, onde estão as mercadorias que encomendaram. Gerentes de transportadoras podem também obter informações sobre a localização de toda a sua frota. Mesmo para o motorista, há informações que valem dinheiro. O sistema analisa o estilo de condução e o consumo de combustível e alerta o motorista para o melhor modo de dirigir economizando combustível. "Muitos motoristas recebem bônus se consomem menos combustível", explica um dos funcionários da Salesforce. "Eles podem, assim, aumentar seus salários." Empregos em risco Entretanto, após uma volta pela Cebit, o visitante começa a se perguntar por quanto tempo os caminhões de carga ainda precisarão de motoristas. Um micro-ônibus sem motoristas anda pelos corredores da feira, detectando obstáculos e parando quando um ciclista cruza seu caminho. Na Suíça, alguns deles já estão em uso. Também no setor agrícola, os automóveis autônomos são um tema – como no caso do trator autônomo desenvolvido pela empresa japonesa Magellan Systems. E quando o fabricante de chips Intel demonstra como plataformas de petróleo ou turbinas eólicas em alto mar podem ser reparadas com ajuda de drones, o principal assunto é economia de custos. Os custos de manutenção, segundo as empresas, podem ser cortados pela metade. Quando se trata de digitalização, os alemães gostam de falar em "indústria 4.0", um termo genérico para se referir à convergência entre produção industrial e o mundo digital. O Japão, país convidado deste ano da Cebit, já está alguns passos adiante no assunto e chega a Hannover mostrando robôs que trabalham como enfermeiros e cuidadores de idosos. O slogan japonês nesta feira é "Sociedade 5.0". Por trás dele há não somente uma competição pelo melhor slogan, como mostram as estatísticas comerciais dos dois países. O valor do hardware de TI que a Alemanha importa do Japão supera em cinco vezes o das exportações alemãs para o Japão. Segundo a Bitkom, uma em cada quatro empresas líderes no ramo de tecnologia vem do Japão. E, mais uma vez, os postos de trabalho são assunto importante. "Se não conseguirmos na Alemanha assumir um papel de liderança no futuro, estaremos colocando nossa prosperidade em risco", diz o presidente da Bitkom, Thorsten Dirks. "Porque, então, não vão surgir mais novos postos de trabalho, enquanto muitos empregos antigos serão automatizados e eliminados. Este é um cenário que nem gosto de imaginar." Do ponto de vista alemão, o Japão não é somente o país convidado, mas também um concorrente. A chanceler Angela Merkel, entretanto, sublinhou os pontos comuns dos dois países no seu discurso de inauguração da feira. "Quando eu vejo como nós temos que brigar com alguns sobre abertura de fronteiras e livre-comércio", disse ela, se referindo ao presidente dos EUA, Donald Trump, que ela havia acabado de visitar, "então é bom que não precisemos brigar por causa disso", completou, se referindo ao premiê japonês, Shinzo Abe.

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