Pé na praia: De onde vem o lixo

Thomas Fischermann

O programa Lixo Zero faz um alemão se sentir em casa. Ele pode não resolver o problema, mas passa a sensação de que as autoridades no Rio de Janeiro não têm preocupações piores.Uma das coisas mais alemãs no Rio de Janeiro, minha cidade anfitriã, é o programa Lixo Zero. Sou um grande fã. Desde a Copa do Mundo, as duplas do Lixo Zero rodam por Copacabana, Ipanema e outras partes nobres da cidade. São formadas por um empregado da companhia Comlurb – na maioria das vezes de olhar inseguro e ombros encolhidos – e por um policial da guarda municipal, armado de revólver e cassetete. As duplas do Lixo Zero levam consigo uma mini-impressora para multas, que são emitidas toda vez que alguém joga uma lata de cerveja no chão (170 Reais), uma "tupperware" para farofa (425 Reais) e assim por diante. Lembram-me um pouco de Don Quixote e Sancho Pança, dois heróis improváveis, à procura de aventuras impossíveis sem desistir jamais. Entretanto, na maioria das vezes, vejo que ficam de preferência nos cantinhos com sombra e descansam de suas aventuras. Não sei se o Lixo Zero resolve o problema do lixo, mas com certeza passa a sensação de que as autoridades no Rio de Janeiro não têm outros problemas piores. Jogar lixo no lixo é uma coisa que não causa o menor desconforto para um alemão. Nisso somos campeões. Famílias alemãs fazem separação de lixo em quatro recipientes diferentes, nossos jardins cheiram a composto orgânico, dirigimos de uma ponta a outra da cidade só para entregar as baterias usadas. Fazemos passeios de fim de semana no depósito de lixo. Não é piada. Quando queremos jogar alguma coisa grande fora, levamos lá. Os empregados nos dão instruções: "O lustre tem que ser jogado no compartimento número 10.2, mas, por favor, tirem a lâmpada primeiro, que a lâmpada tem que ser jogada no compartimento 11.8!" Acredito que alguns alemães nunca apreciem a natureza por estarem ocupados com seu lixo. O programa Lixo Zero faz um alemão se sentir bem no Rio de Janeiro. Encontrei-me recentemente com um deputado de Berlim em Copacabana. Ele olhou tudo com interesse, muitas coisas daqui lhe pareceram estranhas e incomuns, mas aprovou o Lixo Zero com entusiasmo. Fomos a uma lanchonete com uma dupla do programa, pedimos sucos e discutimos longamente: sobre o lixo, o meio ambiente e as pessoas estúpidas que jogam papel e latas no chão. Por que fazem isso? Será que não pensam no planeta? Reinava a harmonia entre o deputado alemão e os empregados da Comlurb. Mas não obtiveram respostas satisfatórias para suas perguntas. Alguns dias depois passei por uma festa de aniversário infantil no Rio. Estavam comemorando ao ar livre, na área de brinquedos de um parque público. Babás sacolejavam os pequenos convidados, as crianças comiam gelatina e cachorro quente, era uma festa para crianças de classe média. Uma mulher, que não tinha nada a ver com o aniversário, estava passeando no parque. Tinha a pele escura e não usava roupas chiques. Um menino de cerca de nove anos gritou para ela da festa: "Abre o lixo para mim!" A mulher olhou o menino, sorriu, abriu a tampa da lixeira. O menino mirou e jogou. O saco de plástico com o cachorro quente meio mordido dentro caiu bem ao lado da lixeira. "Droga", disse o menino e desapareceu na sua festa. A mulher pegou o saco de plástico no chão e o jogou no lixo. Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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