Opinião: Punir os britânicos seria um erro

Christoph Hasselbach (as)

Tanto na Comissão Europeia como em algumas capitais, clima parece ser de vingança. Mas revanchismo só aumentaria os sentimentos antieuropeus em outros países-membros, opina o jornalista Christoph Hasselbach.Agora não tem mais volta. O processo de saída começou. E desde já está claro que vai ter briga, principalmente, como em qualquer divórcio, quando o assunto for dinheiro. Com uma certa alegria pela desgraça alheia fala-se em Bruxelas, já há semanas, sobre a salgada conta de saída, de cerca de 60 bilhões de euros, que se pretende apresentar aos britânicos, para a qual ainda não há, porém, um cálculo apurado. Tanto na Comissão Europeia como em algumas capitais europeias, o clima predominante parece ser de punição aos britânicos, na linha de "vocês ainda vão se dar conta do erro que cometeram". Do ponto de vista econômico, o Brexit é um erro – isso pode praticamente ser dado como certo. Os planos ambiciosos da primeira-ministra Theresa May, de um país libertado de grilhões inoportunos e que agora pode fechar acordos comerciais com o mundo inteiro, é superestimar a si mesmo de forma grosseira. Ela, que inicialmente era contra o Brexit, tenta agora fazer o melhor possível com o resultado do referendo. Pode durar muitos anos para que se consiga substituir de forma mais ou menos aceitável as estreitas relações econômicas com a União Europeia (UE) que já existem há muito tempo. Que desperdício de energia, tempo e dinheiro! O Reino Unido sairá perdendo, mas também a UE. Mas o que levou ao Brexit foram sobretudo motivações políticas, e não econômicas. "Retomar o controle" é a expressão-chave. Para a maioria dos habitantes da "bolha de Bruxelas" é um procedimento totalmente inexplicável que um país, que aparentemente lucrou muito com a UE, dê as costas para ela depois de 44 anos. Duvidar de si mesmo é algo que não se vê do lado da UE. Mas que ninguém se engane: a meta oficial de "uma união cada vez mais estreita" não vira só o estômago de muitos britânicos. Especialmente na Alemanha, a tendência é de santificar a União Europeia. Por esse credo, se o dogma "uma união cada vez mais estreita" for questionado, o resultado é o colapso total. Mas o Brexit o coloca fortemente em questão. Justamente a Alemanha deveria evitar sentimentos de revanche. Quando se trata de livre-comércio, competitividade e controle de gastos, os alemães vão sentir falta dos britânicos, que pensam como eles. Para a Alemanha, será ainda mais difícil repelir as exigências de um grande bloco de nações do sul da UE, que desejam transformar a UE numa união de dívidas e de transferência de recursos, com a Alemanha como pagadora. Por isso não deveria ser objetivo das negociações sobre o Brexit usar o Reino Unido para dar exemplo e intimidar outros possíveis candidatos à saída por meio de um "acordo ruim". Isso só elevaria o euroceticismo em outros países, como Suécia, Dinamarca e Holanda. O objetivo deveria ser manter os britânicos o mais perto possível da União Europeia e fazer uma transição da forma mais suave possível. Isso seria uma abordagem pragmática, com a qual todos lucrariam, em vez de um "tudo ou nada" equivocado. A UE não manterá seus membros com punições aos desertores, mas sendo atrativa.

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