Equador vai às urnas para decidir sobre legado de Correa

Gemma Casadevall (fc)

Há uma década no poder, socialista Rafael Correa espera passar bastão da presidência para Lenín Moreno, que disputa segundo turno com Guillermo Lasso. Vitória do oposicionista seria mais uma derrota para modelo chavista.Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial no Equador, marcado para este domingo (02/04), o clima político está agitado no país. Não há um dia sequer em que o líder oposicionista Guillermo Lasso, do partido Criando Oportunidades, não convoca um protesto contra a "ditadura de um partido só" do atual presidente, Rafael Correa. Lasso adverte seus seguidores de que a autoridade eleitoral tentará "roubar" sua vitória nas urnas. Ele diz que o triunfo do candidato preferido de Correa, Lenín Moreno, iria levar o país definitivamente à falência. De fato, os dados econômicos no país não são tão positivos como nos melhores tempos de Correa, antes da queda dos preços das commodities no mercado internacional. Mas Lasso foi ministro da Economia durante a grande crise financeira equatoriana em 1999, o que o partido de Correa, Alianza País, faz questão de lembrar durante a campanha eleitoral. Ataques verbais e físicos Autoridades acusam grandes veículos de mídia e agentes econômicos poderosos de manipular pesquisas de opinião para ajudar o candidato da oposição a vencer. Após os ataques verbais, a violência física também apareceu: partidários do governo jogaram objetos contra Lasso e sua família durante uma partida de futebol entre Equador e Colômbia. Lasso cancelou a participação no único debate televisivo com o candidato governista, descrevendo o evento como uma armadilha armada por organizadores pró-governo. Um detalhe picante, recebido com gratidão pelos meios de comunicação pró-governo, é que Lasso, ex-presidente do Banco de Guayaquil, cancelou sua participação no duelo televisivo depois de ser noticiado que nele ambos os candidatos deveriam jurar não ter se envolvido em nenhum escândalo de corrupção. Acusações de corrupção contra Lasso Pouco antes do segundo turno, o jornal argentino de esquerda Página 12 publicou uma matéria afirmando que Lasso ainda detém a maioria das ações do Banco de Guayaquil e que seu nome foi ligado a contas offshore no Panamá. Mas Moreno, que concorre pelo Alianza País para prosseguir com o projeto socialista de Correa, também não é incontestável. Ao candidato governista não são associados os sucessos de Correa na luta contra a pobreza, mas a decepção quanto à corrupção e as promessas quebradas perante a população indígena. No primeiro turno, Moreno obteve pouco menos de 40% dos votos, porcentagem inferior à dos dois maiores partidos de oposição juntos. Apesar de a oposição alegar que o candidato é favorecido pelos meios de comunicação oficiais, ele ainda não pode contar com uma vitória certa. Observadores internacionais O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é responsável pela tarefa de "minimizar o impacto que o apoio do aparelho do Estado poderia gerar em favor do candidato governista", diz Leandro Querido, diretor da Transparência Eleitoral. A organização não governamental participa como observadora das eleições presidenciais no Equador e espera um pleito justo. O diretor destaca que o CNE – diferentemente do que aconteceu na Bolívia ou Venezuela – convidou também observadores eleitorais da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). A OEA disse ter constatado "irregularidades" no primeiro turno, realizado em fevereiro, mas nenhuma manipulação eleitoral consciente. Mensagem para a América Latina De qualquer modo, o resultado da eleição não vai somente decidir sobre o legado de Correa, mas também pode ser outra mensagem sobre o futuro do chamado "socialismo do século 21" na América Latina. Após a derrota eleitoral da esquerda nas eleições parlamentares na Venezuela e presidenciais na Argentina, o controverso impeachment de Dilma Rousseff no Brasil, e a vitória do presidente liberal conservador Pablo Kuczynski no Peru, o sucesso da oposição no Equador representaria mais uma derrota para os simpatizantes do modelo chavista. Pouco antes da decisão eleitoral, a resignação aumentou nas ruas. Emilio Valles, chefe de uma oficina mecânica em Quito, acredita que uma mudança é indispensável para acabar com a concentração de poder do presidente após uma década de mandato de Correa. "Mas não com alguém como Lasso", diz Valles. "Neste país há muita corrupção. E não se pode confiar a um ex-banqueiro a luta contra a corrupção."

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