Opinião: Russos também merecem solidariedade

Ingo Mannteufel (md)

Após o atentado em São Petersburgo, foi um erro e uma vergonha não iluminar o Portão de Brandemburgo com as cores russas, como se fizera em outras tragédias, opina Ingo Mannteufel.Até agora, o que é certo é que a explosão no metrô em São Petersburgo, na Rússia, matou 14 pessoas e feriu gravemente muitas outras. O local do ataque e o tipo de bomba correspondem ao padrão de ataques terroristas islâmicos. Na mídia russa, estão circulando diferentes nomes e até mesmo fotografias de potenciais terroristas, que também indicariam uma motivação ligada ao radicalismo muçulmano. Mas um dia depois do incidente, muita coisa ainda é mistério. Depois de um ataque terrorista, toda força de segurança – até mesmo a russa – precisa de tempo para coletar e avaliar indícios. Isso deveria ser claro para todos aqueles que, em nossa sociedade da informação instantânea, clamam por respostas, opiniões e explicações imediatas. Infelizmente, é fato que nas últimas décadas ocorreram muitos ataques terroristas – especialmente de fundo islâmico – na Rússia e contra os russos. Também é claro que a Rússia passou a estar ainda mais claramente na mira do "Estado Islâmico" através de sua política na Síria. No entanto, nem por isso o ocorrido em São Petersburgo está esclarecido. É necessário evitar conclusões políticas apressadas. Infelizmente já faz parte de um ritual corriqueiro que a opinião pública fique, após ataques terroristas, sedenta por julgamentos rápidos e com pouca paciência para dar o tempo necessário às forças de segurança e até aos meios de comunicação para investigações consistentes e coberturas orientadas pelos fatos. Desta simbologia quase ritualizada também já fazem parte hashtags sobre o ocorrido. E que muitos políticos se apressem em publicar mensagens de pesar. Também já é praxe iluminar marcos nacionais com as cores do lugar onde ocorreu o ataque, como o Portão de Brandemburgo, em Berlim. Há boas razões para se considerar tais gestos de suposta simpatia como uma política simbólica superficial e barata. Mas o problema é que, uma vez que isso já foi iniciado, deve ser prosseguido consequentemente. Porque qualquer outra coisa pode ser vista como um desprezo pelas vítimas. Por isso, é de surpreender que, na segunda-feira, dia do ataque, o Portão de Brandemburgo em Berlim não tenha ganhado as cores russas em sua iluminação. A declaração da administração da capital alemã de que São Petersburgo não é uma cidade irmã de Berlim não se sustenta – Orlando, na Flórida, também não pertence a este círculo. Mesmo assim, em junho de 2016, após o ataque a uma casa noturna frequentada principalmente por homossexuais, o Portão de Brandemburgo foi iluminado nas cores da bandeira do arco-íris, símbolo do movimento gay. As vítimas russas do terrorismo merecem nossa simpatia e solidariedade não menos que as vítimas de ataques islâmicos em Orlando, Paris, Bruxelas, Londres, Berlim, Nice, Istambul e aqueles em Iraque, Nigéria, Quênia e Paquistão. A controversa política russa para a Síria certamente não é um argumento para negar a compaixão pelas vítimas de São Petersburgo. Afinal, jamais há uma justificativa para terrorismo e violência contra civis. E, ao contrário dos cidadãos das democracias ocidentais, são exatamente os russos comuns que nunca foram indagados, em eleições livres e democráticas, se apoiam as políticas de seu governo. Eles são, então, vítimas não só de ataques terroristas, mas são subordinados sem poder de influência. Desde a crise surgida nos últimos anos entre o Ocidente e a Rússia – devido à ocupação da península ucraniana da Crimeia e às políticas agressivas em Donbass – o Ocidente insiste que rejeita a política do Kremlin, mas que vê o povo russo como uma parte da Europa com direitos equivalentes. Se o Ocidente está falando sério e não quiser ser considerado como hipócrita na Rússia, ele tem o dever não só moral como político de mostrar solidariedade às vítimas do terrorismo na Rússia. É um erro que o Portão de Brandemburgo não tenha sido iluminado com as cores russas – sim, é até uma vergonha. O jornalista Ingo Mannteufel é chefe da redação on-line da DW em russo.

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