Trump se lança em terreno incerto com ataque a base síria

Carsten von Nahmen (av)

Ofensiva militar americana durante cúpula com Xi Jinping deixa Coreia do Norte nervosa e enterra os planos presidenciais de aproximação com a Rússia. E Trump continua devendo uma estratégia de longo prazo para a Síria.As primeiras reações da mídia americana e dos meios políticos de Washington davam razão ao presidente Donald Trump: a ofensiva contra a base aérea síria de Al-Shairat teria servido como sinal de advertência ao regime de Bashar al-Assad de que o atual líder dos Estados Unidos não é facilmente previsível, e que novas atrocidades contra o próprio povo sírio poderão ter consequências sérias para os dirigentes em Damasco. À primeira vista tratou-se, de fato, de um ataque delimitado, "limpo", contra a mesma unidade da Força Aérea síria que, no entender dos EUA, fora responsável pelo bombardeio com gás tóxico a civis da província de Idlib. Aparentemente não houve mortes entre os aliados russos e iranianos do ditador Assad, evitando-se, portanto, uma confrontação direta com essas duas nações. Mudança de curso na avaliação de Washington "Uma reação apropriada", aprovou inicialmente em uníssono o Congresso americano. Mesmo os oposicionistas democratas se abstiveram basicamente de criticar. Exceto por um tweet do deputado Seth Moulton, dizendo que, ao que tudo indica, Trump teve compaixão suficiente para mandar lançar os mísseis de cruzeiro, mas não para receber como refugiados nos EUA as vítimas de Assad. No decorrer da sexta-feira (07/04), contudo, o discurso mudou de rumo. Diversos democratas exigiram que o presidente submeta o ataque militar à aprovação do Congresso, a posteriori. No mínimo, porém, deverá haver um debate abrangente sobre o futuro procedimento americano na Síria. Até o momento, os republicanos rejeitam ambas as reivindicações. Contudo até mesmo eles reconhecem que um êxito tático militar está longe de constituir uma estratégia, e que essa abrupta mudança de curso de Trump, depois de ele ter se recusado a atacar o regime Assad por bastante tempo, traz consigo grandes riscos. O republicano Roger Wicker, membro da comissão das Forças Armadas do Senado, manifestou-se, por um lado, "satisfeito de que este país volte a mostrar determinação e força", mas teve que admitir que também ele não sabe qual possa ser o plano de longo prazo de Trump para a Síria. Ouvem-se igualmente críticas partindo de think-tanks conservadores como o Cato Institute. Seu analista de defesa, Christopher Preble, comentou à DW que a reação emocional às fotos de crianças mortas com gás tóxico pode ser compreensível do ponto de vista humano, "mas acho preocupante que se tenha decidido tão rápido sobre uma ofensiva militar dessas; e que, ao que parece, não tenha havido nenhum processo rigoroso, contrabalançando custo e benefício". Assim, fica o perigo de que os EUA se afundem ainda mais no conflito com a Síria sem ter um plano real. "O que fazemos se Assad matar civis com armas convencionais? Isso, então, está OK? O que fazemos se ele voltar a empregar armas químicas? Essas questões não estão nem um pouco esclarecidas", objeta Preble. Incentivo à paranoia norte-coreana O episódio também afeta outros focos de crise no mundo. Bruce Klingner, da igualmente conservadora Heritage Foundation, alerta que a disposição do presidente dos EUA de tomar decisões militares espontâneas poderá complicar ainda mais a situação na península coreana. "O regime de Pyongyang verá confirmado seu ponto de vista de que apenas armas atômicas poderá protegê-lo de ofensivas." Diante das recentes declarações de Trump e de diversos secretários de seu gabinete, de que "o tempo está correndo" e que "todas as opções estão sobre a mesa", o ataque militar contra a Síria só vai agravar a paranoia do governo da Coreia do Norte. Klingner acrescenta que quem também não deve ter ficado muito contente com a ofensiva militar – justamente durante o encontro sino-americano em Mar-a-Lago, a propriedade de Trump na Flórida – terá sido o chefe de Estado da China, Xi Jinping. "O ataque lança uma sombra sobre a cúpula e, assim, sobre a intenção de Xi de se apresentar em pé de igualdade com o presidente americano." Em vez disso, o líder chinês teve que ficar sabendo que mísseis americanos caíam sobre a Síria no preciso momento em que os casais Trump e Xi se reuniam à mesa de jantar. "É bem possível interpretar isso como um tapa na cara", resume o especialista da Heritage Foundation. Saia justa em Moscou Entretanto, o principal dano colateral do bombardeio contra Al-Shairat fica sendo a aproximação com Moscou, tão propagada pelo presidente Trump. Se, nos meios políticos internos, essa aproximação já era controvertida desde o início, agora ela chega a ser tóxica. O FBI e o Congresso estão investigando as conexões de Trump com a Rússia, diversos de seus colaboradores e associados já tiveram que renunciar ou são considerados comprometidos. Na política externa, o abono do Kremlin ao regime Assad na Síria, sua cooperação com o Irã, assim como as manipulações russas na Ucrânia, fazem de Vladimir Putin antes um inimigo declarado dos EUA do que um aliado no combate ao terrorismo mundial, para numerosos apoiadores do magnata americano. Aqui fica claro que nem mesmo um forasteiro político como Donald Trump pode simplesmente negar as posições do establishment. A nova reestruturação do Conselho Nacional de Segurança na primeira semana de abril demonstrou isso de forma exemplar: o posto do conselheiro Herbert McMaster foi fortalecido, e o estrategista político e elemento anti-establishment Steve Bannon teve que abandonar o grêmio. "O establishment volta a ter nas mãos as rédeas da política externa e de segurança", avalia o perito de defesa da Cato Christopher Preble. Ao ponto de, na sexta-feira, o líder da maioria republicana no Senado Mitch McConnell não descartar novas sanções contra a Rússia, por exemplo como reação a seu fornecimento de armas à Síria: "A Rússia não é nossa amiga", enfatizou. Diante desse contexto, a viagem de Rex Tillerson a Moscou, programada para esta semana e incluindo um encontro com o presidente Putin, não deverá ser uma missão nada fácil para o secretário de Estado americano.

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