Análise: As recorrentes e fracassadas comparações com Hitler

Konstantin Klein

  • Reprodução

    Adolf Hitler

    Adolf Hitler

Porta-voz da Casa Branca é alvo de uma enxurrada de críticas após mencionar ex-líder nazista. Não é a primeira vez que quem recorre a comparações com o ex-ditador sai perdendo, nos EUA e no cenário internacional.

Em sua coletiva de imprensa desta terça-feira (11/04), o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, afirmou, em alusão ao governante sírio, Bashar al-Assad, e ao ataque com gás venenoso contra civis no norte da Síria, que nem mesmo Adolf Hitler teria se rebaixado a ponto de usar armas químicas. Indagado por repórteres presentes, Spicer se emaranhou ainda mais em sua argumentação, afirmando que Hitler não teria usado gás "contra o próprio povo", mas somente em "centros do Holocausto".

Independentemente da estranha denominação para campos de concentração como Auschwitz, Spicer deixou implícito, em sua declaração, que judeus, adversários políticos de Hitler e homossexuais alemães não faziam parte do "próprio povo", ou seja, do povo alemão na Alemanha nazista. O Centro Anne Frank de Nova York classificou as afirmações de Spicer de "negação do Holocausto" e exigiu a demissão do porta-voz. Spicer se viu forçado a fazer um pedido público de desculpas.

Instrumento político

No cenário político dos EUA, comparações com Hitler não são nada incomuns, sendo empregadas em todas as direções. Na campanha eleitoral de 2016, o atual presidente americano, Donald Trump, foi desdenhado em imagens em que aparecia com bigodinho de Hitler e capuz da Ku Klux Klan, intituladas "Mein Trumpf", em alusão ao livro do ex-ditador alemão Mein Kampf (Minha luta). Os seus antecessores imediatos, Barack Obama e George W. Bush, assim como a adversária Hillary Clinton não tiveram melhor sorte: em seus retratos, logo aparecia um pequeno retângulo preto sobre o lábio superior e, com os modernos programas de processamento de imagens, não é difícil manipular também uniformes do esquadrão nazista SS sobre o corpo de qualquer um.

O que chama atenção é que tais comparações vêm, frequentemente, do mesmo meio em que Hitler teria se sentido confortável: da extrema direita. Nesse contexto, os agitadores tiram proveito de que, nas escolas americanas, o ensino de História Geral tem pouco espaço. Assim, a denominação dos partidários de Hitler, os nacional-socialistas, é usada para insinuar que os nazistas haviam sido na verdade socialistas – o que é superado, como insulto no cenário político americano, somente por "comunista".

Que na década de 1920 tenha havido dentro do Partido Nazista (NSDAP) correntes de inspiração socialista tem, nesse tipo de discussão, tão pouco espaço quanto o fato de Hitler ter subido ao poder com o apoio de grandes capitalistas, livrando-se rapidamente dos "nazistas esquerdistas" em torno de Gregor Strasser.

O debate político nos EUA gira em torno, geralmente, de denegrir a imagem do adversário. Alguém apoia o endurecimento da lei de armas? Hitler! Uma lei do aborto mais liberal? Hitler! O acordo nuclear com o Irã? Hitler! Nenhuma declaração de solidariedade com as vítimas do terrorismo? Hitler! (Em todos os casos, o endereçado era Barack Obama, e as comparações com Hitler vieram de republicanos ou de pessoas próximas desses).

Assim, os americanos que clamam "Hitler!" ou que fazem comparações com o ex-ditador nazista se encontram num selecionado grupo internacional: o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, empregou tais comparações, assim como o chefe de Estado filipino, Rodrigo Duterte, e também o atual ministro britânico do Exterior, Boris Johnson, antes da votação do Brexit. Regularmente, tabloides britânicos e poloneses recorrem a imagens da chanceler federal alemã, Angela Merkel, vestindo uniforme do esquadrão nazista SA. E a ex-ministra alemã da Justiça, Herta Däubler-Gmelin, perdeu o seu cargo em 2002, depois de comparar a política do então presidente americano George W. Bush à de Hitler.

Princípios a observar

Todos que se colocam no perigo de fazer uma comparação com Hitler devem estar cientes de dois princípios básicos. Um deles é a falácia da "reductio ad Hitlerum", descrita em 1953 pelo filósofo alemão-americano Leo Strauss: tenta-se contestar ou condenar um argumento ou uma ação insinuando que Hitler teria defendido tal ideia ou cometido ou causado tal ato. A tentativa de Spicer de comparar o ataque com gás venenoso no norte da Síria aos assassinatos em massa no Terceiro Reich é uma dessas falácias.

O segundo princípio foi formulado, entre outros, pelo historiador Thomas Weber, da Universidade de Aberdeen, em conversa com a Deutsche Welle antes das eleições americanas de 2016: "O primeiro a lançar o nome de Hitler perde a discussão, pois a conversa passa a girar em torno somente da comparação com o ditador, e não mais do conteúdo real."

E foi justamente isso o que aconteceu com Spicer: o tema passou a ser não mais o ataque com gás venenoso contra civis que dominou as manchetes da semana, mas a fracassada comparação com Hitler de um porta-voz pouco habilidoso.

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