Mesmo o oráculo da eleição francesa está em dúvida

Lisa Louis (md)

Em Donzy, a duas horas de Paris, vence sempre o candidato que se torna presidente. Mas a poucos dias do primeiro turno, mesmo os eleitores do vilarejo têm dificuldade em prever quem sairá vencedor.Na montanha-russa da campanha presidencial francesa, mesmo aqueles que sempre acertam parecem ter dificuldades de prever o resultado da eleição. Como em Donzy, vilarejo de 1.500 habitantes nos arredores de Paris: aqui, nos últimos 30 anos, sempre venceu o candidato que, mais tarde, se tornaria presidente da França. Mas as coisas parecem ser diferentes desta vez, afirma o produtor de foie gras Frederic Coudray, que trabalha no vilarejo há 20 anos. "O clima nunca foi tão sombrio. As pessoas aqui estão fartas. Todo mundo está reclamando. Elas querem um novo presidente. Aqui no campo, muitas pessoas se sentem esquecidas pelos políticos." Após cinco anos no poder, o socialista Francois Hollande é o presidente mais impopular da história: menos de 20% de aprovação. Seu governo foi marcado por falhas de gestão, promessas não cumpridas e escândalos financeiros e privados. A economia francesa cresceu em 2016 apenas 1,1%, abaixo da média europeia, e o desemprego está em torno de 10%. Mesmo os eleitores da esquerda estão decepcionados com o governo do socialista Hollande. Sua política econômica, dizem críticos, é demasiadamente liberal. Uma controversa reforma do mercado de trabalho desencadeou meses de violentos protestos no ano passado. Já os mais à centro-direita – além de muitos empresários – dizem que as reformas do presidente não foram longe o suficiente para simplificar as complexas leis trabalhistas. Frederic Coudray espera que esse desencanto leve Emmanuel Macron ao poder. O ex-ministro da Economia concorre como candidato independente, à frente de seu recém-criado movimento centrista En Marche (em marcha), e parece que conseguirá chegar ao segundo turno. Sua postura liberal e pró-europeia agrada a ele. "Eu gosto disso de ele combinar propostas da direita e da esquerda. E ele é o único a realmente defender a União Europeia, que, afinal, nos trouxe 70 anos de paz", opina o produtor de fois gras. A força de Le Pen Mas nem todos concordam com Coudray. "Muitos aqui são a favor do partido de extrema direita Frente Nacional. E eles estão dizendo isso em voz alta, nas ruas e nos cafés. Isso costumava ser um tabu. É impressionante como as coisas mudaram", frisa Coudray. Um deles é Jacques Bouet, 43 anos, funcionário da fábrica local de foie gras. Ele diz que está farto dos escândalos que sacodem o sistema político. O mais recente atingiu o candidato de centro-direita Francois Fillon, que foi acusado de pagar cerca de um milhão de euros em dinheiro público à sua esposa e filhos, por um trabalho que eles não fizeram. O escândalo tirou Fillon da liderança das pesquisas. Ele agora está competindo pelo terceiro lugar com o candidato de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon. O socialista Benoit Hamon vem em quinto. "Estou enojado com o que está acontecendo na política", desabafa Bouet. "Meu chefe e eu estamos trabalhando duro para financiar estas pessoas. Eu só não quero mais isso. Devemos tentar algo novo. Devemos tentar Marine Le Pen. E, sim, eu não tenho vergonha de dizer isso." Le Pen, candidata da Frente Nacional, também tem seu próprio escândalo. Seu partido é acusado de pagar funcionários usando fundos da UE. Mas a líder partidária diz ser vítima de um sistema que está tentando derrubá-la com falsas acusações. Uma estratégia que parece convencer muitos eleitores – incluindo Bouet. Pesquisas recentes preveem que a populista direita ficará em primeiro ou em segundo lugar no primeiro turno, em 23 de abril. As previsões apontam, entretanto, que ela perderia um eventual segundo turno contra Macron. Pesquisas perderam crédito Mas muitos sentem, cada vez mais, que não podem confiar nas pesquisas. Especialmente depois da surpreendente vitória do Brexit no Reino Unido e do resultado inesperado da eleição presidencial americana. Na França, as pesquisas também têm dado errado, como durante as eleições primárias realizadas pelos partidos tradicionais, os socialistas e os republicanos, cujos vitoriosos eram considerados zebras. O humor em Donzy pode ser considerado indicador de que mais pessoas do que o esperado votarão em Le Pen e de que ela vai ganhar a presidência? O prefeito da cidade, Jean-Paul Jacob, não pensa dessa forma. "Acredito que a nossa assim chamada 'frente republicana' vai funcionar como de costume. Eleitores de outros partidos reunirão seus votos contra a Frente Nacional e a favor do outro candidato, durante o segundo turno", diz. O prefeito acredita que Fillon ou Macron acabarão ganhando a eleição. "Nós normalmente votamos da maneira como França vota, porque somos representativos da zona rural francesa, suas tradições, seus hábitos. Muitas famílias têm raízes profundas na nossa aldeia. E nós temos uma alta proporção de idosos, assim como no resto do país", explica Jacob. Mas talvez a melhor conclusão a se tirar da situação em Donzy seja: o resultado é imprevisível. Pelo menos é assim que a aposentada Cecile Kreweras se sente. A família dela vive no vilarejo há décadas. "A campanha é tão confusa e surpreendente... Um escândalo derruba o favorito, e agora nenhum dos candidatos estabelecidos tem chance de passar para o segundo turno", afirma. "E os debates de TV não esclareceram as coisas. É realmente difícil de lembrar qual dos 11 candidatos apresentou que proposta", reclama. "Estou convencida de que muitas pessoas vão decidir no último minuto, literalmente, quando estiverem na cabine de votação."

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