Retórica da guerra se acirra entre EUA e Coreia do Norte

  • Kim Hong-Ji/ Reuters

    17.abr.2017 - O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, observa o lado norte da fronteira entre as duas Coreias em um posto de observação na zona desmiliitarizada, em Paju, Coreia do Sul

    17.abr.2017 - O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, observa o lado norte da fronteira entre as duas Coreias em um posto de observação na zona desmiliitarizada, em Paju, Coreia do Sul

Provocações de Pyongyang elevam tensões, e ambos os países se dizem preparados para recorrer à via militar. Em visita à Ásia, vice-presidente americano tenta articular resposta contra programa nuclear norte-coreano.

A escalada de tensões entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte nas últimas semanas tem acentuado o discurso de guerra iminente entre os dois países e seus aliados. Em meio à troca de ameaças, o vice-presidente americano, Mike Pence, tentou sinalizar uma saída diplomática em visita ao Japão nesta terça-feira (18/04), para evitar que as provocações se concretizem.

Em Tóquio, Pence afirmou que os EUA estão dispostos a trabalhar com Japão, Coreia do Sul, China e demais aliados na região para encontrar uma solução pacífica e interromper o programa nuclear da Coreia do Norte.

Sem recuar, no entanto, o vice-presidente reiterou que a "era da paciência estratégica" com o regime de Pyongyang acabou e que todas as opções estão sobre a mesa".

Arquitetura do conflito

O primeiro sinal de possibilidade de conflito direto dos EUA com a Coreia do Norte foi dado em março, quando o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que uma ação militar contra o país é uma opção a ser considerada caso o regime de Pyongyang persista com as suas ameaças nucleares. O discurso tem sido repetido por autoridades americanas nas últimas semanas.

O embaixador norte-coreano nas Nações Unidas, Kim In Ryong, acusou os EUA nesta segunda-feira de, com manobras militares na região, criarem uma situação em que "uma guerra nuclear pode eclodir a qualquer momento".

No último fim de semana, Pyongyang testou mais um míssil, mas o lançamento fracassou. Ryong afirmou que um próximo teste nuclear pode acontecer quando e onde o regime achar necessário. O vice-ministro do Exterior da Coreia do Norte, Han Song-Ryol, declarou que mísseis serão testados numa periodicidade "semanal, mensal e anual".

Segundo o diretor-geral de Organizações Internacionais da Coreia do Norte, Kim Chang-min, a situação na região é "extremamente perigosa" e, a qualquer momento, pode haver uma guerra. "Washington diz que todas as opções estão sobre a mesa. Não só eles, mas nós também temos nossas próprias opções", declarou o alto funcionário norte-coreano.

No último fim de semana, o regime comunista da Coreia do Norte utilizou as comemorações do 105° aniversário de nascimento de Kim Il-sung, avô do atual ditador, Kim Jong-un, para exibir seu poderio militar e sinalizar aos EUA a disposição do país para a guerra.

O papel da China

Nesta terça-feira, o vice-presidente americano e o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, concordaram em fazer um esforço mútuo para convencer a China a desempenhar um papel maior ao lidar com a Coreia do Norte. "Temos que resolver [a crise] de forma diplomática e pacífica, mas o diálogo sem resultados não faz sentido", disse Abe.

O porta-voz do Ministério do Exterior da China, Lu Kang, afirma que o país quer retomar as negociações multilaterais sobre o programa nuclear norte-coreano, mas ponderou que os planos dos EUA de instalar um sistema de defesa de mísseis na Coreia do Sul irá minar a relação de Washington com a China. Pelo Twitter, o presidente americano, Donald Trump, disse que a China tem feito muito pouco para diminuir as tensões.

Em entrevista ao jornal americano Financial Times no início de abril, dias antes de receber o presidente chinês, Xi Jinping, nos EUA, Trump afirmou que o país está pronto para agir sozinho, caso a China não aumente a pressão contra o programa nuclear norte-coreano.

Em resposta, o ministro russo do Exterior, Serguei Lavrov, disse esperar que não haja nenhuma ação unilateral, como a tomada recentemente pelos EUA contra o regime de Bashar al-Assad na Síria.

Mísseis e porta-aviões

No início de março, pela segunda vez em um mês, a Coreia do Norte disparou mísseis no mar do Japão, o que provocou nervosismo entre seus vizinhos e seus aliados ocidentais. Pyongyang aumentou a tensão ainda mais ao comentar que o lançamento recente foi parte de um exercício de ataque contra bases militares americanas no Japão.

O lançamento ocorreu apenas um dia depois de os EUA moverem um sistema de mísseis de defesa conhecido pela sigla THAAD para novas posições na Coreia do Sul. Militares dos EUA e da Coreia do Sul deram início ao que está foi descrito como "o maior" exercício militar já efetuado em conjunto.

Em abril, os EUA posicionaram o porta-aviões "USS Carl Vinson" em águas próximas à península coreana como demonstração de força após novas provocações do regime do ditador Kim Jong-un.

"Se os EUA se atreverem a optar por uma ação militar, ao falar em um 'ataque preventivo' ou em 'destruir nosso quartel-general', a Coreia do Norte estará pronta para reagir a qualquer forma de guerra planejada por Washington", afirmou o governo norte-coreano em nota publicada pela agência de notícias estatal KCNA após o envio do porta-aviões.

Sanções "ilegais"

Em Tóquio, Pence disse que o mundo viu nas últimas semanas que os EUA não titubearam ao atacar uma base militar do regime de Assad e lançar a "mãe de todas as bombas" no Afeganistão contra jihadistas do grupo "Estado Islâmico" (EI).

A administração de Trump diz que ação militar continua sendo uma opção contra a Coreia do Norte. Mas com a consciência de que um conflito pode gerar grande impacto sobre EUA, Coreia do Sul e Japão, a Casa Branca ainda tem procurado achar uma saída diplomática por meio de sanções econômicas. 

O isolado país comunista continua a violar a condenação internacional contra o desenvolvimento e testes com armas nucleares e o lançamento de mísseis balísticos. Várias resoluções da ONU têm sido ignoradas de forma consistente.

Kim Chang-min diz que as sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU à Coreia do Norte em resposta aos últimos testes nucleares e lançamentos de mísseis são "ilegais".

"Nunca aceitaremos as sanções que foram impostas. As rejeitamos taxativamente. Se os testes nucleares são uma ameaça para a segurança mundial, os EUA deveriam ser os primeiros a serem punidos", afirmou o diretor-geral de Organizações Internacionais da Coreia do Norte.

Segundo autoridades dos EUA, novas sanções contra o regime norte-coreano podem incluir um embargo de petróleo, a interceptação de navios de carga e punições a bancos chineses que fizerem negócios com Pyongyang.

A Coreia do Norte advertiu que aplicará retaliações caso a comunidade mundial aumente as sanções econômicas em represália aos recentes testes militares de Pyongyang. O regime norte-coreano já realizou cinco testes nucleares – dois deles no ano passado. Especialistas estimam que o país esteja adquirindo a capacidade de atingir os EUA com uma arma nuclear.

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