Pé na praia: O alemão no mundo mágico

Thomas Fischermann

Há 20 anos, o alemão Ruprecht Günther foi a Salvador passar férias. Casou-se e por lá ficou, caindo num mundo mágico como só existe na Bahia, acompanhado de anjos da guarda e espíritos de mortos.Para muitos alemães que imigram para o Brasil, existe um momento em que simplesmente decidem partir de casa. Foi assim com Ruprecht Günther. Já faz vinte anos que o designer gráfico veio passar um verão na Bahia. Estava na flor da idade, tinha acabado de completar 40 anos. Queria somente passar as férias, mas vendeu tudo, trouxe sua herança para o nordeste brasileiro e casou-se em Salvador. Na época ele tinha 47 anos, ela 21. "Viajante alemão usando sandálias esquisitas casa-se com uma bela jovem brasileira!" Todo mundo acha que já viu essa história antes. Mas, no caso de Ruprecht, ela exige um olhar mais cuidadoso. No final ele conseguiu mais do que esperava: além da bela Bárbara, ganhou como acompanhantes todos os espíritos da Bahia. Bárbara trabalhava como professora numa escola primária. No início, o alemão não percebeu que ela era a neta de um grande mestre bruxo. A família dela acredita que o Vovô Paulo nasceu ainda escravo, em 1901. Na época em que frequentava os terreiros, ele era uma espécie de superstar, dizem que até tinha um livro de magias misterioso. Talvez fosse oriundo da África, não se sabe ao certo, pois o livro desapareceu. A família, contudo, tem uma certeza: o Vovô Paulo sabia fazer muitas coisas espetaculares. Podia ficar invisível. Podia correr mais rápido que um trem. Nunca levava suas chaves. As portas eram destrancadas por telepatia. Ruprecht só depois compreendeu que poderes mágicos desse calibre não desaparecem simplesmente. Quando o Vovô Paulo morreu, seus poderes mágicos foram transmitidos para sua família. Por exemplo, sempre que a mãe da Bárbara sonhava com mortos, acabava morrendo alguém logo depois. E a Bárbara revelou-se médium. "Desde criança ela via imagens e ouvia vozes", contou Ruprecht quando nos encontramos em Salvador. Regado a Moqueca e Coca-Cola ele me contou a história de sua vida e fiquei fascinado. Hoje em dia, Ruprecht já está com 62 anos e publicou na Alemanha quatro livros. Pequenas edições, mas cheias de fantasia. Alguns são romances, e outros, livros policiais (Im Zeichen der Götter). Nos relatos mais recentes, trata da Bahia e seu mundo de espíritos. "Minha mulher tem uma voz sussurrando em seu ouvido, que lhe revela certas coisas", explicou Ruprecht, e sua esposa, ao lado, concordou. "Quando a conheci, dirigiu-se a um homem no ônibus e gritou: 'Não faça isso!' Descobriram que o homem trazia consigo um revólver e pretendia assassinar alguém." Outras vezes a Bárbara ficou sabendo que conhecidos haviam morrido, por exemplo, no caso de uma queda de avião. Isso tudo lhe pareceu atemorizante no início, mas, neste meio tempo, Ruprecht acha que a voz mágica tem um lado prático. Antigamente, o casal andava de moto pelas ruas de Salvador, e a voz serviu como sistema de navegação: "Aqui vocês têm que virar à direita! Saiam agora, senão vai acontecer um acidente horrível!" Mesmo assim, Ruprecht sofreu muitos acidentes. Já teve que ficar engessado por meses. Isso também foi por causa de magia. Há um detalhe complicado na vida de Ruprecht. Quando ele chegou à Bahia, há vinte anos, não se casou imediatamente com a Bárbara. Primeiro teve uma outra esposa, num matrimônio que durou pouco tempo. "Desde então, todos os pais e mães de santo aonde eu vou me avisam que alguém faz feitiços contra mim! A minha vida virou um inferno. Então, fomos a alguns sacerdotes que nos ajudaram." Assim, o designer gráfico Ruprecht Günther acabou caindo num mundo mágico como só existe na Bahia. O imigrante alemão era acompanhado de anjos da guarda e espíritos de mortos. Tomava banhos de descarrego para se livrar de doenças que os médicos não poderiam curar. Homens sagrados sacrificavam galinhas e pombos para que seus livros tivessem muitos leitores. O alemão orientava sua vida de acordo com avisos místicos e gastava muito dinheiro com todos os serviços espirituais. Achava alguns deles revoltantes, como os sacrifícios, outros fascinantes, mas, acima de tudo, afirma Ruprecht, ele encontrou a sua pátria. Visitar a Alemanha ficou mais difícil. "A voz no ouvido de minha mulher não fala alemão", explicou Ruprecht, "mas é uma voz que sabe de tudo, também na Alemanha". Certa vez, o casal foi passar o verão lá. No metrô em Munique, a Bárbara contou que a pessoa ao lado iria morrer de câncer. Isso não deixou o astral agradável. De qualquer forma, Bárbara não gosta muito das viagens à Alemanha. Lá faz muito frio. E para Ruprecht é um problema não poder contar tudo. "Muitos acham que estou louco quando falo sobre a magia", afirmou. E me diz que se pergunta, às vezes, se ainda é um "alemão de verdade". Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna Pé na Praia, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos – no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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