O que está em jogo nas eleições francesas?

Bernd Riegert (av)

A maior preocupação dos eleitores é o declínio social, só depois vêm segurança e a ameaça do terrorismo. Mas parte da campanha foi dominada por discursos extremos, como o de Le Pen. Para onde vai a França?O eleitorado francês vai às urnas neste domingo (23/04) sob a impressão do recente atentado em Paris, após o qual os candidatos, da extrema esquerda à extrema direita, cancelaram seus últimos grandes comícios. Todos defendem o fortalecimento da polícia e dos órgãos de investigações. A populista de direita Marine Le Pen culpa o governo por ter fracassado no combate ao terror islamista. O ministro do Interior, o socialista Bernard Cazeneuve, acusa Le Pen de explorar o dramático perigo terrorista em sua campanha eleitoral. De acordo com as pesquisas de opinião, as maiores preocupações dos eleitores são a segurança e a ameaça do terrorismo – depois do medo do declínio social. Contudo, não há levantamentos que levem em consideração o atentado fatal da quinta-feira contra policiais, em pleno coração da capital. Em todo o país continua vigorando o estado de emergência decretado após os ataques de novembro de 2015, em Paris. Segundo o empresário Frédéric Coudray, "o clima nunca foi tão ruim como agora, muita gente está de saco cheio, todos se queixam". Ele é da cidadezinha Donzy, cujos resultados nas urnas tradicionalmente correspondem estatisticamente aos da França, como um todo. Enquetes supervalorizadas O páreo pelo cargo presidencial está totalmente em aberto. As pesquisas conferem a quatro dos 11 concorrentes chances realistas de participar do segundo turno, em 7 de maio. Dois deles – a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, e o liberal Emmanuel Macron, representando seu recém-fundado Em Marcha! – aparecem como os favoritos, correndo cabeça a cabeça há semanas. Mas igualmente apresentam boas chances o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon e o conservador François Fillon – único que concorre por um partido estabelecido. Ambos estão apenas dois a três pontos percentuais atrás da ultradireitista e do liberal, e, portanto, dentro da margem de erro usual nas pesquisas. Falando à DW, o especialista em assuntos eleitorais Stéphane Wahnich admite que, a rigor, não se sabe nada com certeza. "Cerca de um quarto dos franceses só se decide no dia das eleições. Ou seja, nós consultamos gente que ainda está longe de saber a quem dará seu voto." O professor de ciência eleitoral se queixa de que o eleitorado francês não seja mais estável. "Nossa sociedade está em vias de mudança, o que torna difícil fazer prognósticos confiáveis. Levando-se isso em consideração, no pleito atual as enquetes são totalmente supervalorizadas." UE, Otan, imigração e outras "batatas quentes" O Partido Socialista, do malquisto presidente François Fillon, não tem mais qualquer relevância na corrida presidencial – também este, um fato inédito na política francesa. Segundo o publicista Alfred Grosser, a atual legenda governista não deverá alcançar nem 10% nas urnas. Com a esquerda política mais fragmentada do que nunca, surpreende a súbita ascensão do comunista velha-guarda Jean-Luc Mélenchon. Sobretudo entre os eleitores jovens, ele faz boa figura com suas palavras de ordem radicais anti-UE e propostas de impostos de 100% para os ricos. Mélenchon rejeita a globalização e o livre-comércio: "Todos os acordos comerciais que devastem os países participantes precisam ser terminados", é uma de suas máximas. Embora derrotada ainda no primeiro turno na última eleição, em 2012, desta vez a populista de direita Le Pen parece estar certa de que participará do decisivo segundo turno. Em sua campanha, a figura de proa da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, operou com os mesmo métodos que o presidente americano, Donald Trump, e outros populistas, atiçando medos, e prometendo isolamento e um retorno aos supostamente bons velhos tempos. "As fronteiras nacionais serão reerguidas!", ela tem repetidamente declarado, sob grande júbilo, em seus comícios. A imigração, seja legal ou ilegal, pretende sustar completamente: "Prestem atenção ao mundo que está mudando agora mesmo, diante dos seus olhos. Esta é a nossa chance!" Le Pen quer também que a França abandone a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Com tais intenções a ultradireitista não está sozinha na campanha eleitoral; o único que se declara francamente pró-europeu é o liberal Emmanuel Macron, ex-socialista e, aos 39 anos, de longe o candidato mais jovem. "Eu defendo uma Europa dos Estados soberanos. Não posso relegar a ideia da soberania à extrema direita ou esquerda, com as mentiras deles", já declarava Macron em janeiro, em seu estilo tipicamente floreado, num discurso em Berlim. Poucas chances para uma "vitória dos sensatos" Quem caiu vertiginosamente na preferência eleitoral foi o candidato conservador, François Fillon. Após os escândalos em torno de empregos fictícios, mas regiamente pagos pelos cofres públicos, para seus parentes, o republicano teve que desistir da quase certeza de que marcharia direto para o segundo turno. Fillon se manifesta antes eurocético, e considera a política orçamentária dos alemães – que "simplesmente embolsam seus superávits, enquanto os soldados franceses se arriscam na zona do Sahel" – um dos motivos para a debilitação econômica da França. Também a deputada do Parlamento Europeu Le Pen arca atualmente com acusações de desvio de recursos públicos. Neste caso, no entanto, o escândalo não parece ter afetado suas chances junto aos eleitores franceses. Enfim, após este domingo, muitas combinações são possíveis. No momento, a mais provável é a dobradinha Macron-Le Pen no segundo turno, do qual o jovem liberal sairia com uma maioria de 65%, segundo as pesquisas de intenção de voto atuais. No entanto, para essa "vitória eleitoral dos sensatos", como a denomina o publicista Alfred Grosser, não existe qualquer garantia.

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