Opinião: O último sinal de alerta para a Europa

Bernd Riegert

A França terá Marine Le Pen, da extrema direita, no segundo turno. A UE precisará mostrar para os franceses que uma escolha racional contra populismo e isolacionismo vale a pena, opina Bernd Riegert.Poderia ter sido pior, mas bom o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais francesas não é. A populista de direita Marine Le Pen ficou em segundo lugar e, com isso, conseguiu a maior façanha de sua carreira política. O nacionalismo desenfreado avança. Desde que, após a saída de seu pai, o antissemita Jean-Marie, Marine Le Pen assumiu a liderança do partido, ela comanda a "frente nacional" em êxitos cada vez maiores – em eleições regionais, eleições europeias e, agora, nas eleições presidenciais. O que há de errado na segunda maior economia da União Europeia a ponto de permitir que uma política de estratégia maliciosa, com visões retrógradas, possa celebrar um triunfo como o deste domingo (23/04)? Pelo menos ela não conseguiu, logo de cara, a maioria dos votos. Eles foram para o liberal – na verdade, mais social-democrata – Emmanuel Macron. Nesse ponto, imperou a sensatez, e não o sentimento. No segundo turno, daqui a duas semanas, será a hora de os sensatos votarem em Macron, mesmo que não estejam totalmente de acordo com suas políticas. Socialistas e conservadores têm que – e vão – apoiar esse rebento do establishment político, que tem relativamente pouca experiência. Pois, agora, se trata sobretudo de reduzir ao máximo possível Marine Le Pen e sua onipotentes fantasias nacionais. Alguns analistas falam de um efeito Donald Trump no segundo turno, ou seja, um inesperado triunfo dos populistas. Mas algo assim na França está praticamente fora de questão. Em parte, devido ao sistema eleitoral francês, que, com o segundo turno, dá aos eleitores uma segunda chance de tomar uma decisão racional, caso, no primeiro, tenham optado por externar protesto e frustração. Mesmo que Macron chegue de fato ao Palácio do Eliseu, as eleições são como um último alerta. Seus antecessores, o conservador Nicolás Sarkozy e o socialista François Hollande, não conseguiram renovar a França, implementar as reformas econômicas e sociais necessárias. Os franceses não votaram apenas numa radical de direita, como também num radical de esquerda, o velho comunista Jean-Luc Mélenchon. Praticamente um em cada dois eleitores rejeitou o atual sistema. Nenhum partido tradicional chegou ao segundo turno. É por ali que Macron tem que começar. Ele tem que trazer novamente para o centro da sociedade os hoje profundamente inseguros franceses, que se sentem economicamente deixados para trás, excluídos pela elite e ameaçados por estrangeiros e imigrantes. Será uma tarefa árdua. Os vizinhos da França e a União Europeia, que acompanharam com apreensão a votação, podem agora respirar aliviados. A França não deixará a zona do euro e a Otan – como ameaçavam Le Pen e Mélenchon. Os europeus, porém, não podem continuar como agora. A França como um alicerce da UE, ao lado da Alemanha, não é algo mais tão sólido como muitos pensavam. Emmanuel Macron terá exigências à UE. Ele quer um relaxamento fiscal, uma redução no superávit alemão em relação à França. Não será uma jornada fácil para Angela Merkel, mas Macron precisa de ajuda. A Europa precisa provar para os franceses, que uma escolha racional contra populismo e isolacionismo vale a pena. A propósito: as pesquisas de intenção de voto acertaram desta vez. Ou seja, a esperança não está perdida, apesar dos prognósticos errados sobre o referendo do Brexit, a vitória de Trump e as eleições holandesas.

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