Opinião: É preciso levar a sério o antissemitismo na Alemanha

Christoph Strack (ca)

País pode se orgulhar de sua florescente vida judaica, mas a percepção de uma crescente hostilidade social, relatada por muitos judeus, deve preocupar políticos e sociedade, afirma o jornalista Christoph Strack.É um pedido, um apelo, um lembrete: o grupo de especialistas em antissemitismo instituído pelo Bundestag (Parlamento alemão) exorta a um debate mais intenso sobre esse tema na sociedade alemã. E muitas vozes da comunidade judaica concordam. Coincidência ou não: os especialistas incumbidos pelo Bundestag divulgaram o seu relatório justamente no Dia em Memória das Vítimas do Holocausto em Israel, no dia em que o país para durante um minuto para lembrar os seis milhões de judeus mortos pela Alemanha nazista. Este foi também o dia em que o ministro do Exterior e vice-chanceler federal alemão, Sigmar Gabriel, visitou o Memorial Yad Vashem, escrevendo no livro de visitas "lembrar-se todos os dias". Lembrar-se todos os dias. A importância dessa reflexão é demonstrada pelos muitos policiais postados diante de instalações judaicas em Berlim e outras cidades alemães, é evidenciada pelas notícias sobre – tome-se um caso exemplar – um aluno que deixou a sua escola em Berlim por sofrer intimidações e ameaças devido à sua identidade judaica. A Alemanha pode estar orgulhosa de que hoje, também devido à imigração de judeus da União Soviética há cerca de 20 anos, registra-se uma florescente vida judaica em muitas partes do país, de que sinagogas são reconstruídas, de que rabinos e cantores estudam e são ordenados no país dos antigos algozes. Os especialistas do Bundestag expõem as preocupações da população judaica diante das crescentes tendências antissemitas e do aumento da violência. Se isso pode ser provado estatisticamente (o documento deixa isso em aberto e não contém novos dados) é uma coisa. Certo é que os judeus na Alemanha descrevem em sua percepção esse aumento da incerteza e do medo. O relatório também lamenta a falta de levantamentos sobre o antissemitismo muçulmano, como também entre os refugiados. Antes que surjam aqui declarações populistas: poucos se ocupam de forma tão equilibrada com a questão como os próprios representantes de organização judaicas. O presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Josef Schuster, afirmou que a responsabilidade está no ambiente social do país de origem de muitos refugiados, e não na religião. Essa situação eleva ainda mais a importância de um abrangente trabalho de conscientização. Esse aspecto também deve fazer parte do esforço de integração da sociedade alemã. Integração exige trabalho árduo. Observa-se que o conhecimento sobre esse aspecto ainda é muito incipiente na Alemanha (também por isso florescem os preconceitos) e que há necessidade de pesquisa qualificada. O grupo de especialistas do Bundestag defende a nomeação de um encarregado federal sobre antissemitismo, a criação de uma comissão federal-estadual sobre o tema e o incentivo a amplos projetos de esclarecimento. O Conselho Central dos Judeus diz ver confirmada a sua demanda por um responsável do governo para tratar de questões envolvendo o antissemitismo. Se tal encarregado deve mesmo ficar na Chancelaria Federal e não depender de períodos legislativos, como propõe o relatório, é algo a ser debatido, e com razão. Diversos postos semelhantes estão ligados ao Parlamento e recebem dessa maneira a atenção da mídia e da sociedade. Mas, em essência, trata-se de nomear um interlocutor central em nível federal para o tema do antissemitismo. Os políticos deveriam levar a sério essa exigência.

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