Depois de cem dias, Trump permanece imprevisível

Miodrag Soric (ca)

Para especialistas, presidente americano é incapaz de compreender as intrincadas relações entre os países. Mal preparado e rodeado por assessores conservadores e militares, ele se guia pelo instinto, afirmam.A avaliação mais positiva em relação à política externa dos primeiros cem dias de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos veio do especialista Eric Gomez, do think tank liberal-conservador Instituto Cato. Para ele, a atuação de Trump pouco difere da de seu antecessor. Assim como o ex-presidente Barack Obama, Trump trabalha com uma mistura de pressão política, diplomática e militar, avalia Gomez. O problema é que a sua política é imprevisível, já que o republicano muda toda hora de opinião. E, segundo Gomez, isso acontece porque Trump simplesmente não entende as correlações na área de política externa. O especialista Michael Werz, do think tank liberal Centro para o Progresso Americano (CAP), é da mesma opinião, lembrando que o primeiro capítulo de suas relações com Pequim foi aberto por Trump com a pergunta se Taiwan pertenceria ou não à China. "Assim, numa entrevista para a qual se preparou mal, ele reviu uma posição americana de quatro décadas e acabou tendo de engolir a correção dos chineses." O analista afirma que o presidente não perdeu uma oportunidade de cometer uma gafe. Werz vê Trump como um presidente rodeado de assessores conservadores com uma agenda de extrema direita – entre eles muitos militares, como o secretário de Defesa, James Mattis, ex-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA. "Desde Franklin Delano Roosevelt não houve mais do que um general no gabinete de governo." Trump tem ainda o conselheiro de segurança nacional H. R. McMaster, um militar condecorado e experiente. Política externa militarizada Paira assim a ameaça de uma "militarização" da política externa americana? Gomez avalia que Trump não será de forma alguma cauteloso no uso da força militar. Isso pôde ser percebido no bombardeio de um aeroporto na Síria e de posições do "Estado Islâmico" no Afeganistão. Além disso, na guerra civil iemenita, os EUA estariam fornecendo armas à Arábia Saudita – um confronto do qual os americanos "deveriam ficar de fora", opina Gomez. O especialista do Instituto Cato avalia que a única resposta que os Estados Unidos apresentaram às crises das últimas semanas, como um novo ataque com armas químicas na Síria ou a situação no Afeganistão, foi a violência militar. Ele diz que isso é um "mau presságio" e que não se pode perceber uma estratégia de política externa coerente em tudo isso. Paralelos com a crise de Cuba em 1962 Já o especialista Jack Janes, da Universidade Johns Hopkins, disse temer que a crise na Coreia do Norte piore ainda mais. Ele compara a situação no país asiático, que está desenvolvendo mísseis de longo alcance, com a crise de Cuba em 1962, quando os americanos quiseram impedir o estacionamento de ogivas nucleares e lançadores soviéticos na ilha do Caribe. O então presidente americano, John F. Kennedy, aconselhou-se com um time de especialistas e funcionários dos ministérios, relata Janes, ao passo que Trump não dispõe de assessores com informações de fundo e capazes de analisar cenários de ação, afinal muitos postos nos ministérios ainda nem foram ocupados. Também por isso, os processos decisórios de Trump seriam guiados pelo "instinto", avalia Janes. Por esse motivo, o veredicto final de Werz é extremamente duro. Ele classifica o atual presidente americano de "estruturalmente incapaz de aprender." Para Werz, a atenção de Trump é muito curta e faltam a ele educação, curiosidade, interesse pelo mundo. A principal fonte de informação dele continuam sendo os noticiários de emissoras de TV conservadoras, e ele seria guiado pelo amor-próprio e pela necessidade de reconhecimento, acrescentou. Basicamente, Trump é uma pessoa completamente apolítica – uma qualidade fatal para o cargo mais importante do mundo.

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