A nova ofensiva do Hamas

Considerada radical por EUA e UE, organização radical palestina abranda levemente seu discurso e sugere tentativa de pôr fim a décadas de isolamento político - mas ainda não reconhece Israel.Ao apresentar um novo programa político, o Hamas deu um passo nesta segunda-feira (01/05) rumo ao que tem sido visto como uma ofensiva para mudar a percepção pública sobre si: em busca de uma imagem mais moderada, que possa pôr um fim ao isolamento internacional de um grupo classificado como terrorista por grande parte do Ocidente. O documento foi revelado dois dias antes do primeiro encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, cujo partido Fatah permanece hostil à organização extremista. Embora ainda não reconheça formalmente Israel, a nova carta de princípios do Hamas, que detém o controle da Faixa de Gaza, pede laços mais estreitos com o Egito, se distancia da linguagem antissemita e aceita um Estado palestino transitório, com as fronteiras de 1967 – ano em que os israelenses capturaram Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. A medida sugere uma tentativa do Hamas de aliviar a tensão com aliados regionais e amenizar as hostilidades com os as potências globais. A organização é considerada terrorista por Israel, EUA e União Europeia, ao mesmo tempo em que possui relações tensas com muitos Estados árabes. "O Hamas está tentando enganar o mundo, mas não vai conseguir", disse David Keyes, porta-voz do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. "Eles cavam túneis de terror e lançaram milhares e milhares de mísseis contra civis israelenses", completou, referindo-se a foguetes disparados de Gaza e túneis usados para realizar ataques. Discurso brando O conteúdo do documento, com o qual Hamas pretende atualizar sua ideologia e seus compromissos 30 anos depois de sua fundação, foi informado pelo chefe do movimento, Khaled Meshal, em uma coletiva de imprensa em Doha. "O Hamas acredita que nenhuma parte da terra da Palestina será comprometida ou concedida, independentemente das causas, das circunstâncias e das pressões, e não importa quanto tempo dure a ocupação", afirma o documento, em alusão à presença de Israel na região. O documento também "rejeita qualquer alternativa à completa liberdade da Palestina, desde o rio (Jordão) até o mar" (Mediterrâneo), o que em princípio significa a aspiração a toda a Palestina histórica, incluindo o território, reconhecido pela comunidade internacional, onde hoje se assenta Israel. "No entanto, sem comprometer sua rejeição à entidade sionista (Israel) e sem renunciar aos direitos dos palestinos, o Hamas considera o estabelecimento de um Estado palestino plenamente soberano e independente, com Jerusalém como capital nas linhas de 4 de junho de 1967", acrescenta o documento. O manifesto diz ainda que, independentemente da aceitação de um Estado nas fronteiras de 1967, "os refugiados e os deslocados devem retornar aos lares dos quais foram expulsos", uma possibilidade que Israel rejeita pelo desequilíbrio demográfico que representaria. Trata-se dos refugiados que saíram para o exílio nas guerras de 1948 - que Israel considera sua guerra de independência após a rejeição árabe ao Plano de Partilha da ONU para Palestina - e a de 1967 (Seis Dias). Hoje eles superam cinco milhões de pessoas, segundo as estatísticas da UNRWA, a agência da ONU que se encarrega deles por todo p Oriente Médio. Meshal disse que uma luta do Hamas não é contra o judaísmo como uma religião, mas contra o que chamou de "agressores sionistas". O discurso coincidiu precisamente com o início em Israel dos festejos pelo dia da independência, que se comemora no país no dia 5 do mês hebreu de Iyar, que em 1948 coincidiu com 14 de maio. Rivalidade O novo programa parece cimentar a divisão ideológica entre o Hamas e o Fatah, seu principal rival político. O Hamas expulsou as forças leais a Abbas quanto tomou Gaza, em 2007, um ano depois de derrotar o Fatah nas eleições parlamentares palestinas. Os esforços de reconciliação falharam. O manifesto do Hamas foi lançado em um momento de tensões crescentes entre os dois lados. Nas últimas semanas, Abbas ameaçou exercer pressão financeira, incluindo cortes nos salários e de ajuda a Gaza, como forma de pressionar o Hamas. Líderes do grupo disseram que não vão ceder. A guerra verbal com o Hamas foi vista como uma tentativa de Abbas de se posicionar como líder de todos os palestinos antes de seu primeiro encontro com Trump na Casa Branca, marcado para esta quarta-feira. O presidente dos EUA já se disse disposto a intermediar negociações entre israelenses e palestinos sobre um acordo de paz, apesar de repetidos fracassos nas últimas duas décadas. Especulações agora giram em torno de quem vai suceder a Abbas, de 82 anos, líder apoiado pelo Ocidente e cujo movimento Fatah está baseado na Cisjordânia ocupada. Fundado em 1987 como uma ramificação da Irmandade Muçulmana, movimento egípcio islâmico proscrito, o Hamas lutou em três guerras contra Israel desde 2007 e realizou centenas de ataques armados no país e em territórios ocupados pelos israelenses. Muitos países ocidentais classificam o Hamas como um grupo terrorista por não renunciar à violência, não reconhecer o direito de existência de Israel ou não aceitar acordos de paz entre Israel e palestinos.

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