Le Pen consolida Frente Nacional no cenário político francês

Jake Cigainero (ca)

Candidata deixa de lado discurso antissemita e racista adotado pelo pai e foca em críticas a UE, imigração, globalização e islã, atraindo eleitores desiludidos com partidos tradicionais, muitos deles jovens.Marine Le Pen fez história, na semana passada, ao se tornar a primeira mulher a chegar ao segundo turno da eleição presidencial francesa. Essa é também a segunda vez que o seu partido, a extremista Frente Nacional (FN), chega tão perto do poder no Palácio do Eliseu. O pai dela, o fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, concorreu no segundo turno contra Jacques Chirac, em 2002, graças a uma mescla de condescendência e abstenção, pelo lado da esquerda, e voto de protesto contra as elites. Na época, manchetes chamaram isso de uma "vergonha" para a França. Por volta de um milhão de pessoas marcharam nas ruas de Paris contra Jean-Marie Le Pen, um convicto negador do Holocausto. A vitória de Marine Le Pen, no entanto, não provocou indignação em massa. Nas redes sociais, alguns franceses pareceram estar chocados por não ter havido um choque maior. Nos últimos meses, os institutos de opinião previram que Le Pen iria para o segundo turno sem muita oposição. Agora, os prognósticos apontam para uma vitória do novato da ala centrista Emmanuel Macron, com até 20 pontos percentuais de vantagem sobre Le Pen. Mesmo assim, a pontuação da candidata de extrema direita seria o dobro da que seu pai obteve em 2002. Parte do cenário político Mesmo que Le Pen tenha poucas chances de chegar à presidência em 2017, sua agenda de extrema direita fincou raízes na política francesa. "Eles fazem realmente parte do cenário político e vão permanecer. Principalmente depois que muitos jovens passaram a votar neles", explica o analista político Jean-Yves Camus, que escreve sobre movimentos de extrema direita na Europa. Desde a Segunda Guerra Mundial, as facções nacionalistas estão presentes no continente europeu. Segundo Camus, a novidade é que, agora, esses partidos obtêm de 14% a 45% dos votos. Antes chamada de uma espécie de azarão político, a Frente Nacional percorreu um longo caminho até se tornar uma líder entre as legendas eurocéticas. Por meio de um processo que o partido chama de "desdemonização", Le Pen tenta livrar a FN da sua reputação racista e antissemita desde que assumiu a liderança partidária, em 2011. Ela chegou ao ponto de expulsar o pai da Frente Nacional. Marie da Silva, uma apoiadora de Le Pen de 52 anos, diz que deixou de votar na legenda de centro-direita Os Republicanos. "Os programas dos outros não são tão bons quanto eles dizem. Precisamos fechar as fronteiras. É importante. O euro é terrível", afirma a eleitora num comício de Le Pen. Substituto do Partido Comunista A especialista em Frente Nacional Cécile Alduy diz que, com o crescimento dos partidos que refletem a decepção da classe trabalhadora com os políticos, a mensagem de Le Pen de culpar as elites tem sido ouvida por aqueles que se sentem esquecidos pelo Estado. "A Frente Nacional conseguiu plantar raízes ao substituir o Partido Comunista e usando a mesma retórica em vários pontos: os grandes negócios arruinando a classe trabalhadora, o aumento do salário-mínimo, o aumento dos pequenos fundos de pensão", explica Alduy. "Le Pen tem um pouco de tudo para todos." Apesar de a condição feminina de Le Pen não ter marcado a sua candidatura, Alduy avalia que uma representante feminina à frente da FN suaviza um pouco a imagem do partido. Num vídeo de campanha, Le Pen se descreve como uma mulher incomodada com o fundamentalismo islâmico na França e como uma mãe preocupada com o futuro. "Ela usou o trunfo do gênero para promover uma agenda específica e um assim chamado feminismo para atacar o islã. De certa forma, ser mulher a ajuda porque sua imagem se torna menos agressiva do que a de sua plataforma política e a de seu pai, obviamente", acrescenta a especialista. Le Pen deixou de lado a retórica antissemita polarizadora de seu pai, mudando o foco dos ataques para a União Europeia, a globalização, o islã e a migração, tidos por ela como as origens dos problemas da França. A sua mensagem de soberania ecoou em muitos eleitores jovens. "Ela deixa de lado temas de discórdia simplesmente porque não há nenhum interesse por eles entre jovens de 18 a 24 anos", diz Camus. "Eles não têm nenhum conhecimento sobre a guerra. Seu interesse está no desemprego e na imigração." "Última chance para França" Arnaud de Rigne, de 21 anos, da cidade de Nantes, diz que, na primeira vez em que viu Le Pen, ela discutia com o presidente François Hollande sobre o Parlamento Europeu, chamando-o de peão de Angela Merkel. "Quando se está diante dela, sabe-se que ela é a chefe. Para nós, é muito importante ter um chefe como líder", opina De Rigne. Segundo Camus, os jovens que votam na FN não são fascistas. "Eles são nacionalistas. Eles são a próxima geração de líderes da Frente Nacional". Le Pen divide a França em dois campos. A batalha política de hoje, afirma ela, trava-se entre os patriotas – aqueles que amam a França – e os mondialistes, defensores da globalização pró-União Europeia, como Macron. O analista político Pascal Perrineau, do renomado Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po) de Paris, chamou a disputa entre Macron e Le Pen de a divisão do século 21. "Há duas Franças: uma cosmopolita, que está indo muito bem, e outra atingida pelo desemprego e preocupada com a sua identidade", analisa Perrineau. "Esses partidos expressam uma divisão nova e radical entre uma sociedade aberta e outra fechada, de cunho nacionalista, e que se volta para o centro." O jornalista político Christophe Barbier, do jornal L'Express, afirma que Macron é a última chance de a França ter um governo moderado. Se o governo dele não for bom, Macron poderá abrir caminho para uma presidência sob Le Pen. "Se Macron falhar, o próximo presidente será Marine Le Pen ou Marion Marechal Le Pen (sua sobrinha)", diz Barbier. "Esta será a última oportunidade que a França tem de consertar o país antes de uma aventura mortal com o populismo."

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