Onde a Frente Nacional ensaia assumir o poder

Barbara Wesel (ca)

A pequena cidade de Fréjus, na costa mediterrânea francesa, é governada há anos por um prefeito do partido populista de direita. Embora haja resistência, a região possui uma longa tradição de direita.Como em todas as prefeituras da França, o prédio da administração municipal de Fréjus, pequena cidade localizada na Riviera Francesa, também promete "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" em sua fachada. Embaixo dos dizeres, vê-se somente a tricolor francesa e nada da bandeira da União Europeia. O prefeito David Rachline mandou retirá-la na manhã após a sua eleição, em abril de 2014. Para o prefeito, trata-se de um pequeno ato de provocação: onde está a Frente Nacional (FN), não existe Europa. Ele se filiou ao partido já aos 15 anos de idade, e suas origens políticas remontam à ala de extrema direita "nacional-revolucionária" da legenda populista. Desde que se tornou gerente de campanha de Marine Le Pen, ele não tem mais tempo para suas atividades em Fréjus. A prefeitura tem que funcionar sem ele. Para Clothilde Loidreau, Rachline é o grande exemplo. Quando pequena, ela própria queria entrar na ala juvenil da FN. Agora com 19 anos, ela é uma fervorosa seguidora de Marine Le Pen. Por quê? Devido aos "valores patriotas" pregados pela Frente Nacional e que devem ser recuperados. Por isso, a eleição presidencial é fatídica para a França, explica a jovem. Naquela manhã fria, Loidreau se encontrava em frente ao escritório da FN usando somente uma camiseta. "Você não está com frio? Vista algo por cima", afirma a sua tia Jaqueline. "Patriotas são fortes", responde Clothilde, continuando a passar frio pela pátria. "Marine fez bem ao se aliar a [o independente] Dupont-Aignan, assim aumentam as suas chances entre os eleitores dos Republicanos", espera Jaqueline Loidreau com vista ao segundo turno no próximo domingo. Querendo abrandar um pouco o fanatismo da jovem sobrinha, ela afirma que a França precisa de algo novo: "Tivemos a catástrofe com Sarkozy, então tivemos o desastre com Hollande, devemos então dar uma chance ao programa de Marine", explica a ativista. Como todos os demais, ela chama a líder partidária de Marine, uma mescla de familiaridade e reverência. Jaqueline Loidreau diz ser injusta a acusação de racismo contra a FN: "Os árabes que trabalham podem ficar. Mas precisamos fechar, finalmente, as fronteiras para migrantes. Todos eles recebem uma habitação social e dinheiro do Estado." Um argumento que se escuta repetidamente, mas ninguém oferece números e fatos. A solidão da cabine de votação Toda a família Loidreau está envolvida com a Frente Nacional. O pai Patrick opera o restaurante Les Micocouliers, localizado direto na praça do mercado, seus dois filhos também são "frentistas". Patrick Loidreau é a imagem de um patrão do sul da França: corrente de ouro, sorridente e cuidadoso com os clientes. Se ele não tem medo que os turistas desapareçam depois que a FN assuma o poder? "Que nada", acena, dizendo que eles poderiam continuar entrando na França com os novos controles de fronteira, e o país estaria realmente seguro, sem terrorismo. Patrick Loidreau afirma não ter problemas com as muitas mudanças propostas por Marine Le Pen em seu programa eleitoral: "Vamos manter o euro para grandes empresas internacionais e, internamente, voltar ao franco. Você vai poder comprar a sua baguete novamente com francos." Ele também diz não ver problema em a França deixar a União Europeia. De alguma forma, explica, a vida vai continuar como antes – só que melhor. "Marine vai empregar mais 50 mil soldados, 10 mil agentes alfandegários e 15 mil policiais", relata Patrick. Ele diz querer uma mudança política e que não se pode falar que o programa da FN seria ruim, já que ele ainda não foi testado. E quanto às chances para a eleição no domingo? "Na solidão da cabine eleitoral, muitos vão optar pela Frente Nacional", explica, acrescentando que, de qualquer forma, a abstenção vai ser alta e que isso ajudaria Le Pen. Corte de verbas A professora Marie-Jo Azevedo e seu marido Gérard são os líderes da resistência civil em Fréjus. Em frente de uma antiga sede comunitária no bairro de Villeneuve, Marie-Jo contou: "Eles expulsaram, gradualmente, todas as associações daqui, retirando-lhes as subvenções." O cuidado de jovens, um clube esportivo, uma associação cultural – todas tiveram de partir. Atualmente, o prédio abriga uma delegacia e um escritório para assistência a idosos. Durante a entrevista, dois policiais aparecem e perguntam o que se fazia ali, se a reportagem foi agendada com alguém. Rapidamente, eles desistem da tentativa de intimidação. "Desde a posse do novo prefeito, vê-se polícia por todos os lugares", reclama Marie-Jo. "É típico do extremismo de direita", acrescenta seu esposo Gérard, referindo-se não somente à constante presença policial, mas também à sistemática repressão da sociedade civil. O casal é responsável pelo "Fórum Republicano", um ponto de encontro para opositores da FN. "Fazemos eventos com a federação de associações SOS Racismo, temos presença ativa no Facebook", relata Marie-Jo, informando que vão promover no dia 20 de maio uma Festa da Europa. Por que a FN é tão forte na costa mediterrânea ensolarada e rica? "O Sul da França sempre foi de direita", responde Gérard, explicando que, além disso, ali vivem muitos ex-franco-argelinos que seriam particularmente contrários ao islã, como também muitos idosos com necessidade de segurança e muitos militares aposentados. Uma mescla populacional feita sob medida para Frente Nacional. Guerra contra a mídia Na cidade vizinha de Saint-Raphaël, o repórter local Eric Farel mostra o livro que escreveu sobre suas vivências como repórter do jornal Var-Martin. Em Ma ville couleur bleu marine (Minha cidade cor azul-marinha, em tradução livre), ele relata como, gradualmente, os jornalistas são privados de informações em Fréjus. A mesa de imprensa na câmara municipal desapareceu, as sessões passaram a ser de portas fechadas, não são dadas mais entrevistas. "No início, tínhamos boas relações com a prefeitura, mas pouco a pouco fomos totalmente marginalizados", diz o repórter, explicando que o mesmo acontece em nível nacional, onde são permitidos somente jornalistas do agrado de Le Pen. "Nós nos saímos bem da situação. Em vez de um monte de emails de ódio, recebemos mensagens de apoio e o número de assinantes aumentou", um efeito semelhante ao New York Times em miniatura. Eric Farel também não deixa se intimidar, por exemplo, ao pesquisar sobre membros da FN de Paris, que controlam a distância a economia em Fréjus: os comerciantes nas feiras, a gastronomia e, sobretudo, os negócios imobiliários. "Precisamos voltar a nos orientar mais pelos fundamentos de nosso trabalho jornalístico", adverte Eric Farel. Teste de coragem Enquanto isso, na feira em Fréjus, Jaques Lajous e seus companheiros distribuem panfletos para Emmanuel Macron – uma tarefa não muito fácil. Muitos passantes dão de costas bruscamente, outros xingam os voluntários de campanha com palavrões. "A FN faz uma enorme pressão: eles ameaçam os proprietários de retirar parte da área externa de seus restaurantes. Quem pretende conseguir uma habitação social tem que rezar pela cartilha deles e a suposta redução do endividamento de Fréjus é somente fachada: o prefeito vendeu, simplesmente, todos os terrenos públicos", contam os ativistas. Eles se opõem tanto ao conteúdo quanto ao estilo da política praticada pela Frente Nacional: "O culto de personalidade em torno de Marine Le Pen é terrível, trata-se antes de uma seita do que de um partido político", afirma Jacques Lajous. Ele e seus correligionários dizem apostar firmemente na vitória de Emmanuel Macron: "Ele é o único que pode unificar agora a França." E no caso de Marine Le Pen vir a assumir o controle do país: "Então, logo, não se poderá mais reconhecer a França". E o espaço para adversários políticos, como eles, poderá ficar cada vez menor.

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