Alemanha vê seu futuro também em jogo na eleição francesa

Christoph Hasselbach (ca)

Visão é de que vitória de Le Pen poderia por água abaixo tudo que foi construído pelas gerações anteriores nas relações bilaterais. Por isso, políticos, inclusive Merkel, não escondem preferência por Macron.Em menos de dois anos, a Alemanha sofreu dois grandes choques na área de política externa: o Brexit, votação que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), e a eleição de Donald Trump nos EUA. Mas o que aconteceria se também Marine Le Pen vencesse o pleito presidencial na França? Em Berlim, não se quer nem imaginar. O certo é que se Le Pen conduzisse seu país para fora da zona do euro e do bloco europeu, também iria por água abaixo tudo que foi construído entre Alemanha e França por gerações anteriores. E também é difícil imaginar uma UE sem a França. O iminente Brexit já foi um golpe duro para o bloco europeu – no caso de um "Frexit" nada seria mais como antes. Os prognósticos veem uma vitória clara de Emmanuel Macron. No entanto, como as previsões falharam totalmente tanto no referendo britânico quanto nas eleições americanas, os nervos em Berlim continuam à flor da pele – enquanto a chanceler federal alemã, Angela Merkel, faz um pouco de campanha eleitoral. "É claro que se trata de uma decisão dos eleitores franceses, em que eu não me envolvo", afirmou Merkel ao jornal Kölner Stadt-Anzeiger. "Mas que eu me alegraria com uma vitória de Emmanuel Macron, por ele representar uma consequente política pró-europeia, isso eu também digo." Francês predileto em Berlim Em janeiro último, quando ainda era um azarão na campanha eleitoral, Macron já havia anunciado durante visita à Universidade Humboldt em Berlim: "Eu quero mais Europa, e almejo isso com a Alemanha. Confio na Alemanha." Em março, ele foi recebido por Merkel na Chancelaria Federal. Mas, desse encontro, não se pôde constatar nenhum tratamento especial: também o conservador François Fillon e o socialista Benoît Hamon visitaram a chefe de governo alemã. Ainda no início do ano, Merkel estava apostando completamente em Fillon como futuro presidente, até que ele foi pego pelos escândalos de empregos fictícios. No início do ano, Marine Le Pen também esteve na Alemanha, mas bem longe de Merkel: ela participou de um encontro de populistas de direita europeus em Koblenz, oeste alemão. Já há bastante tempo, ela não faz nenhum segredo de sua profunda rejeição à chanceler federal alemã. Durante a campanha eleitoral, ela afirmou que, como presidente, não pretende "ser a vice de Angela Merkel" e acusou Macron de querer "entregar a França à Alemanha." Agora que se trata somente de decidir entre Le Pen e Macron: o político de 39 anos é o favorito absoluto dos políticos alemães. Com exceção da legenda populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), todos querem que ele vença. Embora o presidente do partido A Esquerda, Bernd Riexinger, tenha chamado Macron de "um desafio para os trabalhadores", ele defendeu a sua eleição. No caso do social-democrata Sigmar Gabriel, ministro alemão do Exterior e vice de Merkel, o amor vai tão longe que, já mesmo antes do segundo turno, ele se posicionou a favor não do socialista Hamon, mas de Macron, que ele diz ver como um "verdadeiro social-democrata". Não importa se é a CDU/CSU (União Democrata Cristã/União Social Cristã), Partido Social-Democrata (SPD), Partido Liberal Democrático (FDP) ou Verdes – Macron é compatível com todos os partidos de centro, afirma Claire Demesmay, especialista em assuntos franceses da Sociedade Alemã de Política Externa (DGAP). Segundo ela, ao contrário de Le Pen, Macron seria "compatível com a Alemanha". O ex-ministro reformista e orientado para negócios tem tudo para todos. De acordo com Demesmay, no entanto, o importante para o governo alemão é: "Sua posição se aproxima bastante da política alemã para a Europa, em questões como a liberdade de circulação e o euro. Também nos grandes temas internacionais, como a Rússia, Síria ou livre-comércio, há pontos em comum." Também Almut Möller, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, defende: "A conclusão em Berlim é que ele é a única pessoa que pode nos ajudar a manter a UE unida." Os louvores berlinenses a Macron são, na França, motivo de problema. No recente duelo televisivo entre os dois candidatos, na última quarta-feira (03/05), Le Pen usou isso para atacar o adversário, afirmando que Macron teria "pedido a bênção" à chanceler federal alemã e que ele "não planeja nada sem a anuência de Angela Merkel". A mordaz candidata da extrema direita disse: depois das eleições, a França seria "governada de qualquer forma por uma mulher, ou por mim ou por Angela Merkel." Em seu país, a aproximação com Berlim trouxe críticas a Macron de que ele teria sido o único dos 11 candidatos a elogiar a política de refugiados de Merkel. Alerta a Paris No entanto, caso seja eleito presidente, Macron dá pistas de que não será um bajulador, mas um parceiro construtivo para Berlim. Ele defende a ideia de comunitarização das dívidas europeias, o que, para o governo alemão, é um tabu; ele considera o superávit comercial alemão insuportável, e os investimentos, muito baixos. Mas, diante da Alemanha, "ele não nutre nenhum ressentimento", afirmou a eurodeputada liberal Sylvie Goulart, sua assessora de política europeia. Ao contrário de praticamente todos os candidatos, durante a campanha eleitoral, ele elogiou a Alemanha como um exemplo econômico. O governo alemão vai soltar um enorme suspiro de alívio, caso venha a lidar no futuro com Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu. E alguns políticos já estão ponderando se o indispensável parceiro francês recebeu o devido tratamento nos últimos anos. Quase com um pouco de pena, os políticos do governo em Berlim advertiram continuamente a França – com seus notórios déficits orçamentários, sua fraca economia e alta taxa de desemprego. Isso também foi usado por Marine Le Pen para colocar ainda mais lenha na fogueira. Recentemente, o ministro do Exterior Sigmar Gabriel escreveu no jornal Le Monde que a Alemanha deveria se apresentar na Europa como "um verdadeiro mediador" e "deixar de lado qualquer arrogância pedante". Para os franceses, isso deve ter sido um bálsamo. Mas foi, sobretudo, uma ajuda eleitoral para Emmanuel Macron.

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