França volta às urnas com Macron como favorito

Jean-Philip Struck

Segundo turno das presidenciais opõe projetos antagônicos sobre o futuro da França e da Europa. Todas as pesquisas apontam vitória do candidato pró-UE, rejeitando o nacionalismo e euroceticismo de Le Pen.A França volta às urnas neste domingo (7/5) para escolher o seu novo presidente. Em disputa estão dois projetos que propõem renovação, mas que também são totalmente antagônicos: o cosmopolitismo pró-europeu do centrista Emmanuel Macron e o nacionalismo eurocético de Marine Le Pen. Os resultados inesperados dos últimos meses que levaram à vitória de Donald Trump nos EUA, e da aprovação do Brexit no Reino Unido, ainda levantam o temor de que também tudo é possível nas eleições francesas - no caso, a vitória de Marine e a formação de um governo veementemente anti-Bruxelas em uma das nações fundadoras da UE. Mas, as últimas pesquisas cravam que Macron deve ganhar com mais de 20 pontos de vantagem. Um levantamento divulgado na sexta-feira (5/5) mostrou que o resultado deve ser 63% para Macron e 37% para Marine. No primeiro turno, a maior parte dos institutos de pesquisa conseguiu prever acertadamente o resultado. Em 23 de abril, Macron foi o mais votado dos 11 candidatos na disputa, obtendo 23,7% dos votos, seguido de Marine, com 21,9% dos votos. Nas duas semanas de campanha do segundo turno, Marine, do partido Frente Nacional (FN), nunca conseguiu diminuir significativamente a desvantagem em relação a Macron, do Em Marcha. Ainda que os números mostrem que não deve se repetir o massacre eleitoral sofrido pelo seu pai, Jean-Marie Le Pen no segundo turno de 2002 - em que mais de 80% dos eleitores votaram contra ele -, Marine deve sair derrotada na sua segunda tentativa de conquistar o Eliseu. São poucos os analistas que apostam numa virada de Marine. Sua única esperança é a de que um número enorme de eleitores resolva não comparecer às urnas para apoiar Macron ou vote em branco. Assim como ocorreu com o pai, o establishment político se uniu em peso para deter Marine e pedir votos para seu adversário. De certa forma, o segundo turno acabou se transformando mais uma vez em um referendo sobre a possibilidade de um membro da família Le Pen finalmente assumir o poder. O jornal satírico Charlie Hebdo deu o tom em sua última capa, que mostrava um fundo negro e a pergunta "é mesmo necessário desenhar algo?". Na reta final da campanha, a exemplo do que ocorreu nos EUA, hackers tentaram manipular as eleições ao publicarem documentos internos do movimento Em Marcha, de Macron. Assessores do candidato confirmaram a autenticidade de parte dos documentos, mas até agora nada comprometedor foi revelado com o vazamento. Resultado O resultado de uma vitória de Macron deve provavelmente gerar manchetes como "Bruxelas respira aliviada" e destacar que o otimismo do centrista imperou sobre o pessimismo de Marine. Ainda assim, este segundo turno deve já marcar uma reviravolta histórica na vida política francesa. Foi a primeira vez que dois candidatos de fora do sistema partidário tradicional monopolizaram as escolhas do segundo turno presidencial, deixando de fora as velhas legendas socialista e conservadora. Macron e Marine mostraram que campanhas personalistas podem contornar a falta de força política dos seus partidos. O Em Marcha, de Macron, foi fundado há apenas um ano. A FN conta com décadas de existência e uma legião fiel de seguidores, mas na maior parte da sua existência foi marginalizada pelo establishment político. Assim como ocorreu nas eleições parlamentares na Holanda, em março, a vitória de Macron vai significar um respiro de alívio para a União Europeia. O programa do centrista é abertamente pró-europeu, o que o coloca como candidato favorito dos líderes do bloco. Em janeiro, declarou que "nós precisamos da Europa porque a Europa nos faz mais fortes". Há duas semanas, durante a celebração da sua passagem para o segundo turno, seus apoiadores agitaram bandeiras da UE, algo inimaginável entre a base de outros candidatos. Durante a campanha eleitoral, o jovem e ambicioso Macron se definiu como nem de esquerda, nem de direita. Ele prefere a expressão "progressista" a "centrista". Também foi chamado pejorativamente de "internacionalista" e "globalista" pelos adversários. Ele propõe reformas liberais para abrir e melhorar a eficiência do país. Na sua passagem pelo ministério da Economia, quis acabar com as travas que impedem o comércio de abrir aos domingos e defendeu extinguir monopólios. Com o centrista Macron, os franceses também devem finalmente abraçar uma espécie de terceira via, uma mistura de itens de políticas do socialismo e do liberalismo econômico, com duas décadas de atraso em relação a outros países do continente europeu, como o Reino Unido. Se eleito, Macron, que tem apenas 39 anos, será o mais jovem presidente eleito da história de França - hoje o recorde é mantido por Luís Luís Napoleão Bonaparte, que foi eleito aos 40 anos em 1848. Apoio No papel de antagonista de Marine, Macron também atraiu simpatia internacional. Logo após o primeiro turno, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, desejou boa sorte para Macron. Até mesmo o ex-presidente americano Barack Obama gravou um vídeo para expressar apoio. Quase todos principais candidatos derrotados no primeiro turno pediram apoio para o centrista. Houve uma notável exceção: Jean-Luc Mélenchon, um independente da extrema-esquerda que terminou em um surpreendente quarto lugar no primeiro turno. Nas últimas semanas, Mélenchon pediu, sem sucesso, que Macron retirasse de seu programa a reforma trabalhista, como condição para que pudesse ganhar o apoio de seus eleitores. Para muitos eleitores do esquerdista, o ex-banqueiro e liberal Macron é simplesmente muito identificado com o sistema. A maioria deles pronunciou-se recentemente em uma pesquisa interna a favor do voto branco ou nulo no segundo turno. Marine tentou nos últimos dias cortejar os eleitores do esquerdista. Ao longo da campanha, seu programa de extrema-direita recebeu várias pinceladas socialistas para expandir a sua base. O discurso tem apelo nas regiões desindustrializadas do país, como o nordeste, que antigamente preferiam os socialistas e comunistas, e nas áreas que experimentam choques sociais com imigrantes, como o sul. No mapa eleitoral do primeiro turno, Marine dominou essas regiões, enquanto Macron fez mais sucesso nos grandes centros e entre as classes mais educadas. Ainda que saia derrotada, Marine ainda terá algumas razões para celebrar. A FN deve ter o melhor resultado eleitoral da sua história neste domingo e mostrar que as mudanças adotadas pela legenda apresentaram resultados. Com um discurso mais amplo, distante da pregação abertamente racista de seu pai, Marine já conseguiu expandir sua base. O conteúdo xenófobo ainda esteve presente ao longo da campanha, mas foi reempacotado e foi mais pontuado por uma defesa do Estado laico francês e frases contra o terrorismo. O calendário eleitoral, no entanto, não se encerra neste domingo. Em junho, os eleitores voltam às urnas para escolher os mais de 500 membros da Assembleia Nacional. É também considerada um pleito importante, já que pelo sistema presidencial híbrido do país, parte do poder é dividido com um primeiro-ministro que responde ao Parlamento. Estimativas apontam que o FN de Le Pen, que sempre encontra dificuldades de transferir sua força para o legislativo, deve conquistar entre 15 e 25 cadeiras apenas, bem distante de uma maioria. Ainda assim, o número vai representar um enorme crescimento para o FN, que hoje conta com apenas dois deputados. Já o Em Marcha deve levar entre 249 e 286 deputados, próximo da maioria.

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