Como a vida nos grandes centros urbanos afeta a saúde

Meyre Brito

Em entrevista, psicóloga fala sobre as causas do estresse nas grandes cidades e sobre como lidar com o problema. "O número de pessoas por metro quadrado afeta muito a maneira como você se sente", afirma.Dados da ONU apontam que cerca de 3 milhões de pessoas migram para cidades mundo afora a cada semana, principalmente em países em desenvolvimento. O contingente de pessoas morando em zonas urbanas – 3,4 bilhões de pessoas em 2009 – já representa mais de 51% da população mundial. O número de moradores de cidades deve chegar a 6,3 bilhões em 2050. Na América Latina e Caribe, as cidades já abrigam cerca de 80% da população total da região. Em entrevista à DW Brasil, a psicóloga Marilda Lipp, diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress e autora de 25 livros na área da Psicologia, fala sobre as causas do estresse nas grandes cidades e sobre maneiras de lidar com o problema. "Quando se vive em uma cidade com uma superpopulação, o nível de cansaço parece maior, parece que você despende mais energia para lidar com o que está acontecendo ao seu redor", afirma. Deutsche Welle: As pessoas costumam se sentir mais estressadas em grandes cidades. De onde vem a pressão? Marilda Lipp: Hoje em dia todo mundo quer morar nas grandes cidades. O resultado dessa migração é o aumento de estresse, de irritabilidade, de nervosismo, de intolerância. O número de pessoas por metro quadrado afeta muito a maneira como você se sente. Quando se vive em uma cidade com uma superpopulação, com muita gente vivendo próxima da outra, trabalhando muito próximo, o nível de cansaço parece maior, parece que você despende mais energia para lidar com o que está acontecendo ao seu redor. DW: Além da superpopulação, que outros fatores causam estresse? ML: A poluição sonora, de luzes, ambientes mais fechados. Prédios altos, por exemplo, dão aquela sensação de estar fechado num determinado ambiente. Esses fatores se somam para causar instabilidade e cansaço no ser humano. DW: Mas há pessoas que vivem em grandes cidades e não são estressadas. ML: Uma pessoa pode ter uma sensibilidade maior ou menor a estímulos ambientais – uma coisa geneticamente determinada. Mas existe também, para acrescentar a essa genética, a história de vida do ser humano. Uma pessoa que sempre viveu em um ambiente fechado, com muita gente ao redor, não vai se sentir mal, está habituada. Há outras pessoas, no entanto, com uma história de vida diferente. Mas, basicamente, a genética tem um fator muito importante na maneira como se reage a estímulos externos. DW: Qual o número de pessoas estressadas em São Paulo? ML: O estresse em São Paulo atinge 35% da população economicamente ativa. E esse mesmo percentual vale para outras metrópoles, como Nova York, Washington, Miami. Miami pode ter praia, o lugar pode ser bonito, mas há muitos estrangeiros vivendo lá; existe a dificuldade de adaptação, problemas com a lei, etc. É como o Rio de Janeiro, com praias lindas, mas o nível de estresse na cidade maravilhosa é parecido com o de São Paulo. DW: Como as pessoas lidam com a superpopulação? ML: Notamos uma coisa muito interessante. Nessas cidades grandes, as pessoas formam algo que chamamos de uma "bolha emocional" ao seu redor, para se protegerem. Às vezes, a pessoa não conhece o próprio vizinho. Ela entra no elevador e mal o cumprimenta. Essa "bolha emocional" dá um pouquinho de privacidade a cada um de nós. O fator positivo é que minimiza um pouco aquele contato intenso com muita gente. Por outro lado, também atrapalha; as pessoas não se conhecem mais. E os relacionamentos se tornam mais horizontais, superficiais, sem profundidade no dia a dia. Esse é um dos maiores fatores de estresse que observamos no mundo: a mudança nas relações interpessoais. Porque elas poderiam ser uma fonte de apoio para outras pessoas, mas como as relações estão horizontais, as pessoas não recebem muito apoio de ninguém. São relações secas, não têm nada pra dar. DW: Como se pode controlar o estresse? ML: Existem quatro pilares fundamentais para o controle do estresse: se não quer frequentar uma academia, é preciso fazer alguma atividade física: caminhar, dançar, etc; ter uma alimentação antiestresse, que deve ser rica em legumes, verduras e frutas. O prato não pode ser só branco, bege; ele tem que ter cor; momentos de descontração. É preciso respirar profundamente e relaxar das atribulações do cotidiano. E o mais importante: a reestruturação cognitiva, ou seja, mudar o modo de pensar, encarar a vida de uma maneira positiva. Se a pessoa escolhe viver em uma cidade grande, ela tem de aprender a interpretar os desafios como parte de sua rotina. Ela não pode se angustiar frente a um trânsito difícil nem diante da dificuldade de superlotação dos vários lugares que frequenta, como o transporte público. Ela tem que interpretar esses desafios de uma maneira positiva. DW: E quando a pessoa faz isso tudo e continua estressada? ML: Aí ela tem que verificar o que está causando esse estresse crônico nela. Normalmente, é uma família muito conturbada ou um momento difícil. Ela teria que verificar o que está causando isso e se afastar da causa do estresse. Se por acaso não puder se afastar da causa do stress, ela precisa eliminar outros fatores de stress da vida dela. Vamos dizer que um desses fatores seja um filho doente. Essa mãe deve se afastar de outros problemas, dando espaço para o organismo dela poder lidar com o filho. DW: Como uma pessoa pode detectar que está de fato estressada? ML: Existem sinais que indicam que o indivíduo estaria entrando numa parte mais avançada do estresse. Ele precisa verificar um conjunto de sintomas que são um sinal de alerta: no período de uma semana, ele acorda todo dia cansado, não quer levantar da cama; à noite, vai dormir cansado, consegue adormecer, mas em vez de dormir até um horário adequado, acaba acordando prematuramente, tem dificuldades com a memória imediata, esquece coisas básicas, tem vontade de fugir de tudo, desinteresse pelas coisas. Quando o estresse aumenta de intensidade, a pessoa passa a ter infecção na garganta frequentemente, problemas dermatológicos, os cabelos começam a cair, tem gastrite constante, por exemplo. DW: Diante de tantos problemas, as pessoas ainda querem continuar vivendo em grandes cidades? ML: As pessoas deixam a vida no campo na ilusão de que nas grandes cidades vão ter uma vida melhor. Uma cidade grande como São Paulo tem muitos atrativos; oferece muitas oportunidades: hospitais, médicos, restaurantes, biblioteca, teatros. Mas já está se vendo um esforço de algumas pessoas de mudar dessa megametrópole para cidades menores. Ainda é um número pequeno, mas é um movimento – tem gente comprando casas no interior, executivos deixando o trabalho em grandes empresas para aceitar trabalhos menores em lugares com qualidade de vida melhor.

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