Macron quer um New Deal para a Europa

Christoph Hasselbach (pv)

Novo presidente da França tem uma visão para a zona do euro: mais solidariedade e investimentos para superar a crise. Mas Alemanha teme que, no fim, vai ficar com a conta.O New Deal original remonta ao ex-presidente democrata dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt. Nos anos 30 do século 20, durante uma grave crise econômica, Roosevelt combateu o desemprego com amplos programas de investimento e profundas reformas sociais e econômicas e assim estabilizou gradualmente a situação, tanto do ponto de vista economica como político. Pois também naquela época havia a tentação de buscar a salvação no extremismo político. A atual situação na França não se compara com a americana daqueles tempos, apesar de a França estar numa crise contínua. A taxa de desemprego é cerca de duas vezes maior que na Alemanha, o país está ficando para trás na concorrência internacional e seu crescimento econômico tem sido fraco há anos, salvo uma recente leve recuperação. Afinal, a França não consegue cumprir há uma década com os critérios de estabilidade econômica da Europa (também conhecidos como critérios de Maastricht), enquanto a Alemanha gera excedentes. E no que tange à política: quase metade dos franceses escolheu, no primeiro turno da eleição presidencial, candidatos com agendas críticas à globalização e à União Europeia. No segundo turno, muitos deles não votaram em Emmanuel Macron e em seu programa, mas contra Marine Le Pen. Macron pretende reduzir a presença do Estado e os impostos corporativos, além de liberalizar o mercado de trabalho – o que não tem nada que ver com o New Deal. Este consiste em seu segundo grande projeto: um programa de investimentos para toda a zona do euro, que deve ser financiado por um orçamento comum dos países-membros. O termo New Deal para a Europa foi proferido durante uma visita de Macron à Alemanha em março, ou seja, algumas semanas antes da eleição francesa. Mas o que Macron tem em mente ele já colocou no papel há dois anos, quando era ministro da Economia, juntamente com o então homólogo social-democrata e agora ministro do Exterior da Alemanha, Sigmar Gabriel. Pelos planos, a zona do euro deve ser reforçada com um orçamento comum, "novos poderes executivos" em nível da zona do euro, por uma "câmara do euro" e um "comissário do euro". O objetivo é criar uma "união econômica e social". Macron volta e meia menciona os eurobonds, os títulos compartilhados dos Estados da zona do euro. Schäuble insiste em regras E é nesse ponto que a ala conservadora da grande coalizão que governa a Alemanha torce o nariz. Orçamento conjunto, dívidas conjuntas: para políticos da União Democrata Cristã (CDU), isso soa a transferência de responsabilidades da França para os contribuintes alemães. A chanceler federal Angela Merkel reagiu prontamente: "Ajuda alemã obviamente não pode substituir a política francesa." Ela rejeitou os eurobonds. O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, é favorável ao fortalecimento da zona do euro, mas, para ele, isso significa impor disciplina fiscal. "A ideia é simples: se criamos regras, é preciso aplicá-las", declarou ao jornal italiano La Repubblica, sobre a França. E, recentemente, ele disse "que a França é tão grande e forte que não tem como prioridade pensar em quem pode ajudá-la". Em outras palavras: apoio sim, desde que não custe nada. Medo de Le Pen como meio de pressão As opiniões na política e entre observadores políticos são bastante diferentes. Uns acusam o governo federal de ganância e que esta ainda causará consequências, outros enxergam no plano de Macron uma redistribuição descarada à custa da Alemanha. O especialista Gregory Claes, do think tank belga Bruegel, diz acreditar que Macron manterá ao menos, por motivos táticos, a ordem correta: "Ele deve focar inicialmente nas reformas domésticas para tentar mostrar que vai se ater às regras de estabilidade, para assim recuperar credibilidade com os parceiros europeus, como a Alemanha e os países nórdicos". Macron dificilmente irá se aventurar com suas ideias de reforma europeia antes da eleição legislativa alemã, avalia Claes. Por outro lado, a cientista política Ulrike Guérot avalia que Macron tem em mãos meios de pressionar Berlim. "Ele pode apontar para o Reino Unido. A Alemanha tem muito a perder se der a louca num país. Macron poderia dizer: 'Se vocês não me ajudares, terão de lidar com Marine Le Pen'", disse Guérot, em entrevista à agência alemã de notícias DPA. Mas uma chantagem como essa pode sair pela culatra. Especialmente durante a campanha eleitoral para a eleição legislativa alemã, os eurocéticos podem obter um novo impulso caso surja a impressão de que o governo federal possa ser posto sob pressão. Muitos afirmam que, politicamente, há muito mais em jogo do que economicamente. O New Deal dos EUA contribuiu para preservar a democracia no país, apesar da grave crise econômica. Na Alemanha e em outros países foi diferente. O eurodeputado alemão Elmar Brok, que acompanha a questão há décadas, mostrou-se preocupado: "A Europa está desmoronando. Macron é a última chance. Temos de fazer algo". Mas as opiniões divergem sobre o quê, exatamente.

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