Checkpoint Berlim: Vigilância e privacidade

Clarissa Neher

Projeto piloto para testar novas tecnologias de vigilância em estação ferroviária tem incomodado berlinenses. Críticos alegam que iniciativa fere o direito ao anonimato e pode ser primeiro passo para monitoramento total.Acostumada a deixar minhas digitais ao tirar qualquer tipo de documento no Brasil ou para entrar em determinados prédios, me surpreendi quando, há alguns anos, fui tirar minha carteira de identidade alemã aqui em Berlim. Preenchi os documentos necessários, levei a foto e pronto, nada de sujar os dedos ou escaneá-los. O registro de digitais por aqui é moderado e, somente nos últimos anos, com as novas tecnologias, tem sido ampliado. Esse processo é aplicado, por exemplo, quando alguém solicita refúgio, mas nem sempre para quem pede visto. Para a carteira de identidade, ele é ainda é opcional. Isso diz muito sobre como a privacidade é valorizada na Alemanha. No mesmo patamar está a proteção de dados. Tentativas para burlar essa lei, costumam ser rapidamente barradas, como foi o caso da proibição do compartilhamento de informações entre o Facebook e o Whatsapp. Justamente devido a essa valorização da privacidade, um projeto do Ministério do Interior, da Polícia Federal e da companhia ferroviária, a Deutsche Bahn, está causando polêmica em Berlim. A partir do terceiro trimestre deste ano, a estação Südkreuz, por onde passam cerca de 100 mil passageiros por dia, ou seja, três vezes menos do que a estação central, receberá um projeto piloto para testar novas tecnologias em vigilância. O local foi escolhido para receber câmeras de reconhecimento facial e experimentar métodos de análise para identificar pessoas com comportamento suspeito e monitorá-las dentro da estação. Críticos do projeto, entre eles políticos locais e federais, afirmam que tecnologias de reconhecimento facial são problemáticas, pois interferem no direito do cidadão de se mover anonimamente em lugares públicos. Além disso, argumentam que esse pode ser o primeiro passo para o monitoramento total. O governo alega, porém, que as tecnologias vão auxiliar a esclarecer crimes no futuro, além de ajudar na prevenção de delitos e na identificação de situações perigosas. A previsão é que os testes com as câmeras de reconhecimento facial durem seis meses. A duração dos testes dos métodos de análise não foi divulgada. Antes de vir morar em Berlim, eu nunca tinha pensado sobre as consequências desse tipo de monitoramento de segurança. Talvez por conhecer a violência urbana de cidades brasileiras, não vejo problema na instalação de câmaras em espaços públicos e na perda de parte do anonimato. No entanto, consigo muito bem entender os alemães que são contrários ao projeto e temem a vigilância estatal. Afinal, durante muitos anos, uma boa parte do país viveu sob a mira da Stasi, o serviço secreto da antiga Alemanha Oriental, e teve sua vida monitorada dia e noite. A rejeição à vigilância tem como objetivo evitar que isso volte a ocorrer. Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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