A figura masculina no jardim de infância

Jeannette Cwienk (mb)

Na Alemanha, cada vez mais homens trabalham como educadores de crianças, mas proporção ainda é pequena. Educação infantil continua sendo em grande parte vista como algo para mulheres.Em Colônia, no oeste da Alemanha, cerca de 40 homens trabalham hoje como educadores de crianças em casa – em alemão, Tagesväter, ou, ao pé da letra, "pai do dia". Há 15 anos, quando Mehran Aghadavoodi começou a aprender o ofício, ele era o único homem da turma de Tagesmütter ("mães do dia"). Desde então, o iraniano de 62 anos exerce a função. Diante dos dados atuais, pode-se considerar que Aghadavoodi tem uma função exótica. O número de homens que cuidam de crianças aumentou nos últimos dez anos – mas continua sendo baixo. Em 2006, eles eram 3,1% dos que exerciam a função em jardins de infância e creches do país, e passaram para 5,4% em 2016, aponta um estudo do Deutschen Jugendinstitut. Miguel Díaz, que atua no Centro de Coordenação do chamado Boy's Day (Dia dos Meninos) e na associação Neue Wege für Jungs (Novos caminhos para meninos), vê um desenvolvimento positivo na maior presença de homens na profissão. Mas, para ele, os números só atestam um fenômeno bem conhecido na sociedade: quanto mais nova a criança, menor a quantidade de homens que toma conta delas. Pois continua em voga o velho dogma de que a educação de crianças pequenas é coisa de mulher. Díaz destaca que a questão também é evidenciada linguisticamente. Raramente se fala em "mães de família", mas é normal ouvir a expressão "pais de família" quando se descreve o papel do homem no núcleo familiar. Mais uma vez, não é algo usual dizer "pai que trabalha fora"; mas sim "mãe que trabalha fora". Esses são apenas dois exemplos de visões predominantes em relação aos gêneros e seus papéis nos universos profissional e familiar. "Não se trata de uma questão de renda" Aghadavoodi tem dificuldade em compreender por que tal cenário persiste. Ele especula que muitos homens na Alemanha simplesmente ainda não tenham descoberto o tema educação infantil. "A culpa é deles próprios", diz. No momento, Aghadavoodi cuida de cinco crianças. A mais nova tem 14 meses; e a mais velha, três anos. Todo dia, os pais trazem as crianças às 7h da manhã e às 15h vêm buscá-las. Atualmente, ele recebe do município cinco euros por criança cuidada, a cada hora trabalhada. Desse valor, ainda é preciso subtrair a comida das crianças, brinquedos e, vez ou outra, o conserto de algo. Mesmo assim, ele considera o salário bom. Díaz também afirma que o desinteresse dos homens por educação infantil não tem a ver com a perspectiva de uma renda modesta. Um técnico em mecatrônica não ganha necessariamente mais do que um cuidador de idosos, por exemplo. Mesmo assim, um curso de mecatrônica ainda é o sonho de formação de muitos jovens do sexo masculino. Escolha da profissão "A escolha da profissão é muito mais do que somente uma decisão sobre o que um jovem quer fazer profissionalmente mais tarde", afirma Díaz. Muitas vezes, os jovens também querem reforçar seus papéis masculino ou feminino na sociedade. "Fazer um curso de empreiteiro transmite uma mensagem bem diferente que estudar para ser educador, sobretudo porque a educação infantil tem essa conotação de ser algo para mulheres", diz. A família, em especial os pais, exerce uma grande influência sobre a escolha da profissão. Além dos pais, o grupo social conhecido como peergroup, geralmente da mesma idade, tem também muita influência na hora em que o jovem decide o que fazer no futuro. Na Alemanha, todos os anos são organizados os chamados Boy's Day (Dia dos Meninos) e Girl's Day (Dia das Meninas), nos quais meninas e meninos têm a oportunidade de ter contato com profissões que costumam ser vistas como mais masculinas ou femininas. Eles visam estimular a diversidade de gênero nas diferentes áreas. Até porque já se constatou que, nas empresas onde há essa diversidade, o trabalho funciona muito melhor do que naquelas onde estereótipos ainda predominam. Da mesma maneira, a diversidade de gênero é vantajosa em creches e jardins de infância. Segundo Díaz, meninos e meninas devem ter o direito de ser educados da maneira mais diversa possível – tanto por homens quanto por mulheres. Aghadavoodi também considera importante que as crianças tenham referências mais variadas. As crianças de que ele cuida vivenciam diferentes formas de educação no dia a dia. Enquanto ele prefere brincar e cantar, à esposa, que às vezes o auxilia em seu trabalho, cabem as atividades mais tranquilas, como artesanato e leitura. Ele não sabe dizer se isso isso tem a ver com o papel dela como mulher na sociedade ou com a profissão dela – professora de artes e terapeuta.

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