A luta de jovens refugiados para chegar à França

Fernanda Pesce Blazquez (md)

Ao tentarem atravessar a chamada Passagem da Morte, na fronteira ítalo-francesa, menores arriscam tudo em busca de uma vida melhor. Se conseguem sobreviver à jornada, ainda podem ser capturados e enviados de volta.Em um dia ensolarado na cidade de Ventimiglia, no norte da Itália, Azad* tenta atravessar a fronteira ítalo-francesa, juntamente com outras três crianças. Os quatro caminham pela estrada até Grimaldi, o última vilarejo antes da fronteira com a França. Eles procuram a trilha escondida que outros refugiados recomendaram a eles para atravessar as montanhas. "A polícia búlgara me perguntou o que eu estava fazendo ali, já que não era cristão, e eles me chamaram de talibã", lembra Azad, refugiado afegão de 16 anos, que fugiu do conflito envolvendo talibãs em Kunduz, no Afeganistão, seis meses antes. Os quatro rapazes têm histórias semelhantes. Todos eles enfrentaram perigos ao transitar por vários países da Europa. Em meio ao frio, cansaço e fome, os amigos chegaram à Itália, mas não têm intenção de ficar no país. "Muitos dos meus amigos apanharam cruelmente na fronteira búlgara e ficaram sem suas roupas íntimas, mas eu consegui fugir para a Sérvia", conta o menino, com leve sorriso no rosto. Em sua terra natal, Kunduz, Azad foi forçado pelos talibãs a abandonar a escola e deveria se juntar a eles. Ele e a família concordaram que a única saída era fugir do país. Quando os talibãs vieram buscá-lo, ele já tinha ido embora. Desde aquele dia, ele tem viajado com seu primo Hamzad*, de 17 anos. Eles esperam chegar a Paris na busca por uma vida melhor, longe do perigo e da violência. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), 5.190 menores desacompanhados chegaram à Itália entre janeiro e abril deste ano. Em Ventimiglia, 20% dos recém-chegados eram crianças que viajam sem acompanhantes adultos, segundo informação da organização de ajuda humanitária Caritas. Sem espaço para crianças mais velhas Aqueles entre 15 e 17 anos, como Azad e Hamzad, no entanto, são velhos demais para receber abrigo e proteção nos dois centros de acolhimento improvisados, um mantido pela Caritas e o outro pela, Cruz Vermelha. "Temos de dar prioridade a todas as mulheres e bebês que chegaram à fronteira ítalo-francesa. Não podemos separar famílias e, por isso, acomodamos primeiro as crianças mais novas, as mais vulneráveis. Infelizmente, não há espaço para todas as crianças em trânsito", diz o sacerdote colombiano Don Rito Alvarez, Ele abriu aos refugiados as portas da Igreja de Sant'Antonio, em Ventimiglia, com o apoio da Caritas e de outras organizações não governamentais. Aqueles que não conseguiram um lugar são forçados a dormir na rua e ocuparam uma ponte que atravessa o rio Roia. As condições são duras. Os adolescentes ganham uma refeição quente por dia, oferecida por grupos de voluntários independentes italianos e franceses, que às vezes lhes trazem cobertores e roupas limpas. Neste limbo sem esperança, as crianças tentam repetidamente atravessar a fronteira. Aqueles que não podem pagar traficantes de pessoas, escolhem outras opções perigosas. Ou andam através de túneis rodoviários, onde são difíceis de serem enxergados à noite e podem ser atropelados por carros ou caminhões, ou tentam seguir os trilhos do trem, arriscando serem atropelados por trens. Um terceiro caminho, que é tido como menos patrulhado pela polícia e também é um dos mais perigosos, é uma rota através das montanhas, onde eles arriscam suas vidas na chamada Passagem da Morte. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome Passagem da Morte foi derivado da luta desesperada de refugiados judeus que tentavam chegar à França depois de as leis raciais italianas serem decretadas. Milhares de refugiados passam pelo lugar, partindo à noite, para evitar serem vistos. Quando pulam a cerca que divide os dois países, eles seguem as luzes noturnas de Menton, na Côte d'Azur, a primeira cidade costeira francesa, a qual pode ser avistada do alto de um precipício. Sonhos franceses Não muito longe da cerca na fronteira, onde uma bandeira colorida com a palavra "pace" (paz) tremula ao vento, Azad olha para baixo do penhasco, incapaz de tirar os olhos da costa francesa. Ele andou por mais de duas horas, mas não parece nem um pouco cansado. "Isso não é nada comparado com o caminho através das montanhas iranianas", diz Hamzad, descansando sobre uma rocha. "Meu irmão foi morto pelos insurgentes. É por isso que eu deixei o meu país. Agora eu quero aprender francês e voltar para a escola. Esse é o meu sonho." Aqueles que têm sorte o suficiente para chegar à França são frequentemente capturados e imediatamente enviados de volta para a Itália pela polícia francesa, sem terem oportunidade de solicitar refúgio – ação que inflige o direito nacional e internacional, de acordo com um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Algumas vezes, eles são mesmo levados à força para outro centro de refugiados, em Taranto, a mais de mil quilômetros de distância, no extremo sul do país, de onde as crianças começam novamente a viagem rumo à fronteira, sem recursos à proteção internacional e sem consciência de seus direitos. * Nomes fictícios

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