Dissidentes da Coreia do Norte conquistam TV sul-coreana

Gouri Sharma (av)

Em meio a tensões crescentes na Península Coreana, gênero televisivo invade os lares do Sul: "reality shows" com exilados da Coreia do Norte. Programas de TV reaproximam povos irmãos isolados mutuamente há sete décadas.Eunhee Park tinha 22 anos quando fugiu da Coreia do Norte. Ela conhecia os riscos – quem fosse apanhado tentando escapar era enviado de volta para enfrentar os carrascos –, mas estava determinada a alcançar a liberdade. Atravessou a China e chegou até a Tailândia, onde traficantes a ajudaram a entrar na Coreia do Sul. Quatro anos mais tarde, Eunhee tem status de celebridade na capital Seul, um número crescente de fãs no Facebook e ambições de viajar pelo mundo. E tudo é fruto de seu sucesso num dos muitos reality shows da Coreia do Sul enfocando os exilados do Norte. O gênero relativamente novo de entretenimento vem tendo impacto sobre a forma como os sul-coreanos veem o país irmão. "Fiquei surpresa com a resposta que recebi depois de aparecer no reality show na TV. Não por ter ficado famosa, mas por haver tanta gente interessada na Coreia do Norte", comentou à DW. "Só há uns 30 mil dissidentes do Norte entre os 50 milhões de pessoas vivendo no Sul, então é difícil os sul-coreanos se encontrarem com eles. Por isso a mídia tem um papel significante em informá-los sobre quem nós somos", prosseguiu. "Acho bom que esteja aumentando o número de programas mostrando as histórias dos dissidentes norte-coreanos. Isso gera assunto de conversa quando gente do Norte e do Sul se encontra, e é uma das maneiras de prepararmos a reunificação." Eunhee ganhou popularidade depois de participar de Agora a Caminho de Encontrar Você, um misto de talk show e concurso de calouros apresentado desde 2011. Criado com o fim de promover a reunificação, o programa pioneiro destaca as histórias dos exilados sobre como era sua vida sob o regime de Kim Jong-un. Humanizando os vizinhos temidos Milhões de sul-coreanos assistem ao programa, um dos muitos centrados nos dissidentes que a televisão sul-coreana vem apresentando nos últimos anos. O gênero vai da procura de parceiros à aventura e comédia, revelando um lado do quotidiano na Coreia do Norte de que os vizinhos do Sul não tinham conhecimento até então. "As Coreia do Norte e do Sul têm estado mutuamente isoladas há sete décadas, portanto o nível de divergência e ignorância é alto", comenta Sokeel Park, diretor em Seul da ONG internacional Liberty in North Korea. Kate Hardie-Buckley, diretora do filme Unreported world: North Korea's reality TV stars (Mundo não documentado: Os astros da reality TV da Coreia do Norte), produzido pelo britânico Channel 4, analisa o fenômeno. "O gênero televisivo dissidente – que cativou a imaginação sul-coreana e cujo pioneiro foi Now On My Way To Meet You (Agora a Caminho de Encontrar Você) – parece ter impacto real em desfazer os estereótipos no Sul. Embora os programas possam ser sensacionalistas, por vezes superficiais, a mensagem final é que os sul-coreanos estão vendo e escutando os norte-coreanos.", diz. "São histórias, emoções, insights de dissidentes. Como me disseram alguns sul-coreanos, esses programas humanizam o vizinho do Norte, que eles foram ensinados a temer." Quebrando a barreira da ignorância mútua Medo do outro é um dos resultados negativos mais óbvios das décadas de cisão entre as duas nações, mas não o único. Com a comunicação estritamente controlada nos dois sentidos, muito do que um lado sabe sobre o outro vem da mídia nacional mainstream, que tende a pintar um quadro basicamente desfavorável. No Sul, a narrativa é de um líder "enlouquecido" que governa um povo pobre e faminto; enquanto a propaganda do regime de Kim apresenta os sulistas como um inimigo apoiado pelos Estados Unidos. "É uma situação meio espantosa, em que se tem 50 milhões de sul-coreanos e 25 milhões de norte-coreanos vivendo bem próximos, mas os do Sul não sabem citar uma única pessoa do Norte a não ser Kim Jong-un, a esposa dele ou algum jogador de futebol", ressalta Park. "Há um divórcio enorme, então, nesse vácuo você cria percepções negativas e estereótipos. A Coreia do Norte ainda é um país bem pobre, mas mudou muito. Portanto, poder ouvir os exilados que escaparam mais recentemente fornece muito mais histórias e mostra a diversidade do país, das cidades e das províncias, e as pessoas que vivem lá." Da vida real para a telinha Hardie-Buckley considera extremamente esclarecedor o insight proporcionado pelos exilados. "Ficamos sabendo que as mulheres tendem a ser o ganha-pão da família, já que em geral os homens estão atados aos empregos no governo, em que os salários costumam girar em torno de um insustentável um dólar por mês", diz. "Há corrupção crônica, mas é essa mesma corrupção que mantém o país unido, e há desobediência crescente, de assistir a DVDs contrabandeados da China ou Coreia do Sul até mulheres trajando jeans apertados nas cidades de fronteira, comprados de negociantes chineses", exemplifica a diretora. Embalar essas histórias como lazer permitiu que esses programas alcançassem as massas, atraindo tanto uma geração mais idosa, interessada na reunificação, como a nova geração, crescida na era da reality TV. "Na maioria dos casos, a informação sobre a Coreia do Norte é cheia de retórica negativa, e esse tipo de clima criou no meu coração um muro invisível contra os dissidentes da Coreia do Norte, me distanciando deles", admite Hardie-Buckley. "Mas por meio do programa eu vi que eles tinham preocupações semelhantes, e adoravam fazer compras e comer boa comida. Eles são simplesmente gente comum que atravessou diversas dificuldades. Então, esse tipo de programa de TV pode promover um melhor entendimento da Coreia do Norte, fazendo-os parecerem menos extraordinários ou diferentes", considera.

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