Opinião: Trump acerta em discurso, mas deixa muitos aspectos de lado

Kersten Knipp

No seu aguardado discurso sobre o islã, presidente do EUA diz muita coisa correta, mas também varre pontos cruciais, como direitos humanos, para debaixo do tapete, opina o jornalista Kersten Knipp.Em seus melhores momentos, Donald Trump se transforma num mestre do aqui e agora. Quando, na campanha eleitoral, ele conclamou ao Make America Great Again ("Faça os EUA Grandes de Novo") e, alguns semanas depois da posse, proferiu um discurso ao menos em parte conciliatório, ele adotou um tom que era, sim, patético, mas também digno, um tom que impressiona a sua plateia – ao menos durante a duração do discurso, durante aqueles minutos em que o presidente se mostra de seu lado conciliador. As impressões não foram exatamente duradouras, pois ainda estava na lembrança um Trump de outros discursos, um que chamava a atenção com opiniões bem menos generosas, que criavam uma certa tensão com essa generosidade tardia. O mesmo vale para o tão aguardado discurso sobre o islã. O palco era impressionante: diante dos senhores políticos do mundo árabe, aqueles que determinam os rumos das nações no Oriente Médio. Ao contrário do discurso do ex-presidente Barack Obama em 2009, na Universidade do Cairo, a população dessas nações não estava presente. Diante desse círculo reunido em Riad, Trump disse muita coisa correta, apesar de, também desta vez, o tom conciliatório criar de novo uma tensão com uma intervenção sua anterior, aquela tentativa de impedir a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de seis países de maioria islâmica. No debate sobre a proibição, Trump adotava um tom bem diferente do que ele usou em Riad. Lá ele se mostrou generoso: a violência no Oriente Médio "não é uma batalha entre diferentes religiões", mas uma batalha entre "criminosos bárbaros" e "pessoas decentes de todas as religiões". Também positiva foi a garantia de Trump de que os EUA não querem dizer aos outros como eles devem viver nem no que devem acreditar. E também a conclamação aos responsáveis do mundo árabe para que sejam ativos contra o extremismo islâmico foi feita num tom cordial e portanto apropriado. Mesmo assim fica um desconforto depois do discurso. Pois ele combina pouco com outras declarações que Trump fez pouco antes, na mesma viagem. Por ocasião do acordo de armas com a Arábia Saudita, no valor de 110 bilhões de dólares, ele falou de um "equipamento militar maravilhoso" e da "magnífica segurança" que as armas garantiriam. Os iemenitas – que vêm sendo atacados do ar pela Arábia Saudita, numa guerra tanto brutal como covarde – devem ter entendido essas palavras como zombaria. E o que será que pensam os egípcios, que se veem diante de um Estado que ignora cada vez mais os direitos humanos – e cuja segurança Trump elogiou durante a viagem como "muito forte"? Como se não existissem os problemas políticos, econômicos e de Estado de Direito que alimentam o jihadismo no Egito. Assim, o discurso também revela o lado negro da devoção apaixonada de Trump pelo momento: o presidente é tão fixado no que está acontecendo aqui e agora que outros aspectos muito raramente passam pela sua cabeça. A difícil situação dos direitos humanos na Arábia Saudita, e o pânico em parte exagerado dos árabes em relação ao Irã são aspectos que contribuem pouco para a "magnífica segurança", para dizer o mínimo. Mas, pelo menos, ele insinuou críticas à propagação do wahabismo, incentivada com bilhões de petrodólares pelas instituições privadas sauditas. A maior parte do que Trump disse em seu discurso sobre o islã é verdadeiro e compreensível. Com alívio, tomamos conhecimento de que ele falou de um extremismo "islamista" e não "islâmico". Nem todos pensavam que ele seria capaz de tal distinção. Por isso, é ainda mais incompreensível que ele simplesmente tenha varrido aspectos cruciais para debaixo do tapete. O discurso foi edificante, mas apenas em parte objetivo.

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