Curta brasileiro leva caso Vila Autódromo a Cannes

Carlos Albuquerque

Com temática semelhante à de "Aquarius", "Vazio do lado de fora" retrata vida das pessoas num lugar onde quase tudo estava demolido. "O espaço talvez seja o grande protagonista do filme", diz diretor à DW.Mais uma vez, o tema disputa por território leva um filme brasileiro a uma mostra competitiva do Festival de Cinema de Cannes. Em 2017, a película se chama Vazio do lado de fora, curta-metragem do diretor paulista Eduardo Brandão Pinto (30). O curta foi selecionado entre 2.600 inscritos para a mostra Cinéfondation, que reconhece os trabalhos de escolas de cinema em todo o mundo. No ano passado, o longa-metragem Aquarius disputou com temática semelhante a Palma de Ouro em Cannes. Antes de concluir o curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense (UFF), Eduardo Pinto rodou o curta-metragem em junho do ano passado na , uma comunidade de 3 mil pessoas erguida à margem do antigo circuito de Jacarepaguá, que teve de ser demolida na esteira dos Jogos Olímpicos. "O filme é feito de várias cenas de uma vida que tenta continuar existindo num cenário de pós-demolição", explicou o diretor, em entrevista à DW. O cineasta disse ainda "que o espaço talvez seja o grande protagonista do filme", mas que "não se teve a pretensão de criar uma narrativa ou algum discurso que representasse uma luta por moradia. O que foi feito foi tentar entrar numa experiência sensorial de estar naquele espaço." DW: O curta "Vazio do lado do fora" é um dos dois representantes do Brasil em Cannes neste ano. O que significa para você essa nomeação? Eduardo Pinto: Para a gente que fez o filme, foi muito surpreendente mesmo, não se esperava. Inscrevemos o filme sem nenhum contato no festival, e ele foi selecionado logo na semana seguinte ao Carnaval. Foi motivo de grande surpresa. Achamos que isso abre possibilidades de conhecer pessoas, tanto dentro quanto fora do Brasil. Sair da faculdade com isso é um reconhecimento. Cerca de 3 mil pessoas moravam na Vila Autódromo. Com as Olímpiadas houve um plano de reestruturação urbana e somente cerca de 20 famílias permaneceram. O filme aborda as histórias dessas pessoas? Como ele se estrutura? O filme é feito de várias cenas de uma vida que tenta continuar existindo num cenário de pós-demolição. Como se essa destruição, essa devastação do espaço encontrasse uma resistência nesse corpo que se recusa a sair de lá. Como você disse, na Vila havia cerca de três mil pessoas. Quando a gente chegou para começar o contato com a população, havia ainda 20 famílias morando lá. Em várias quadras, tudo estava demolido e só existia uma única casa. Era um cenário que chamava a atenção visual e sonoramente. Não se teve a pretensão de criar uma narrativa ou algum discurso que representasse uma luta por moradia. O que foi feito foi tentar entrar numa experiência sensorial de estar naquele espaço. O título "Vazio do lado de fora" faz lembrar o que o arquiteto alemão Mies van der Rohe uma vez falou: "A arquitetura é um vazio a ser preenchido pela vida". É curioso você citar o arquiteto, porque o espaço é talvez o grande protagonista do filme. Nosso desafio o tempo todo foi pensar como filmar um espaço físico nos modos de como ele se relaciona com as pessoas, com os corpos. Em vez de se ter um protagonista, temos vários personagens que circulam nesse espaço, que é o que dá o eixo do filme: esse quase cemitério de casas na Vila Autódromo e esses corpos que se mantêm ali resistindo e de algum modo sobrevivendo. Nota-se que você usou a câmera fixa, o que enfatiza a presença dos corpos. A falta da arquitetura leva a uma presença maior dos corpos na encenação? Procuramos lidar com os corpos de modo que eles trouxessem justamente talvez a única forma de habitação que restava no espaço onde não havia mais nenhuma estrutura física de pé. O corpo funcionava como uma pessoa e como uma coisa, uma materialidade mesmo. Isso foi muito importante, tanto no trabalho com os atores quanto para pensar a movimentação em quadros. O corpo traz um ritmo, uma textura, um volume. Então se trabalhou muito o ritmo dos movimentos. Na verdade, só há um plano em que a câmera se move, no primeiro, que é uma espécie de prólogo ou funciona como algo assim. No filme, a gente decidiu usar bastante a câmera fixa. Assistimos a vários filmes onde essa câmera é um instrumento de imagem radicalizado, como em alguns cineastas mais experimentais que a usam para tentar fazer com que o limite do que pode e não pode ser mostrado esteja presente no filme. Quanto de ficção e quanto de documentário há no filme? O filme tem um pouco dos dois, tem um pouco de documentário e um pouco de ficção, pois a gente chegou lá com um roteiro. E há atores que passaram por um processo bastante minucioso e extenso de preparação, de ensaios, de estudo, na Vila também. Acho que há no filme um interesse ficcional. E há essa parte de documentário porque o filme traz algumas pessoas da própria Vila Autódromo para atuar em algumas cenas, representando quase que a si mesmos. E também porque se aproveita nas imagens esses elementos do real, um cenário sempre muito imprevisível. Na Vila, o estado das coisas mudava de um dia para o outro. E mudava muito, radicalmente. Eram mudanças que não se conseguiam controlar e que atingiam permanentemente o filme. Até que ponto foi essa resistência, pois chega uma hora onde não há mais Vila, não há mais nenhuma parede quebrada... Eles lutaram durante alguns anos. Nos relatos dos moradores, essa ofensiva do Estado e da especulação imobiliária para retirá-los de lá não começou com as Olímpiadas, isso já vinha de décadas, mas se intensificou com os Jogos Olímpicos e, sobretudo, por a Vila estar do lado da base dos Jogos. Com a intensificação desse ataque imobiliário, a maior parte das famílias foi saindo, mas as que ficaram no primeiro semestre do ano passado conseguiram na Justiça o direito de continuar no terreno. Como essa luta teve muita visibilidade, eles conseguiram permanecer ali. E são essas 20 famílias que estão lá até hoje conseguiram na Justiça que a Vila fosse reurbanizada. Quando se foi filmar, foi justamente nesse momento de reurbanização. Na relação com o Estado já havia um pacto firmado. No ano passado, o longa brasileiro que concorreu em Cannes, "Aquarius", teve uma temática semelhante… Exato. Algumas pessoas me perguntaram por que eu achava que o filme havia sido selecionado. Acho que a questão de disputa por território, da situação imobiliária no Brasil é uma coisa que vem mobilizando o cinema e qualquer um que se interesse pelo campo político. É uma coisa que está bem na hora de mostrar. Não surpreende que não haja só o Aquarius, mas tem também vários filmes recentes sobre esse assunto, como, por exemplo, "Era o Hotel Cambridge", um longa-metragem que está em cartaz agora, dirigido por Eliane Caffé. O filme gira em torno desse mesmo tema. Na Vila Autódromo, muitos filmes estavam sendo feitos ali naquele momento de luta. Os moradores já sacavam muito de cinema, eles já sabiam como as coisas funcionavam. Foi fundamental o apoio que nos deram para entrar naquele espaço. Ao mesmo tempo, eles mesmos diziam que o contato que tiveram, sobretudo com as universidades e a mídia independente, foi bastante central para terem essa conquista de conseguir que o que sobrou da Vila fosse urbanizado e que permanecessem ali. Vazio do lado de fora tem estreia internacional no dia 26 de maio, em Cannes, com reprise no dia 1°de junho na Cinemateca Francesa em Paris.

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