Na Paulista, eleitor diz que quer votar, mas não sabe em quem

Malu Delgado (de São Paulo)

Termômetro dos protestos nos últimos anos, ato em São Paulo mostra que pressão das ruas contra Temer ainda é pequena. Manifestantes expressam apoio a eleições diretas - e descrença com a classe política como um todo.A chuva incessante do domingo (21/05) foi um obstáculo para que a avenida Paulista voltasse a ser palco de uma manifestação contundente contra a cena atual da política brasileira e a manutenção de Michel Temer (PMDB) na presidência da República. Mas não foi o único. Por enquanto, a disposição para ocupar as ruas ainda está concentrada nos movimentos sindicais e populares ligados ao campo da esquerda. A grande expectativa para um protesto de maior proporção é o ato marcado para o dia 24, chamado de "Ocupa Brasília". O país poderá assistir, neste dia, a uma ação conjunta de centrais sindicais de campos opostos: a CUT (ligada ao PT) e a Força Sindical (que apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e a instalação do governo Temer). O ato do dia 24, na capital federal, seria um protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária, criticadas por movimentos sindicais de diferentes espectros políticos. Agora, diante das suspeitas que pairam sobre o presidente Michel Temer, a intenção é tentar unificar a resistência das centrais contra a permanência dele no governo e pedir eleições diretas. Porém, a participação da Força Sindical ainda é uma incógnita. Discreto, sob um guarda-chuva vermelho, o matemático Vitor Vieira, 42 anos, simbolizava a agonia dos eleitores brasileiros. "Esses últimos áudios com o Temer são um escracho, revelam como está sendo feita a política brasileira", disse. Vieira não vê outra solução para o país que não a escolha de um novo representante pelo povo, mas tem plena noção de quão difícil será concretizar esse caminho. "Estamos sem candidatos, Lula está sob suspeita e responde a inquéritos, mas quero Diretas Já, independente de quem vá disputar." O matemático contou que em seu ciclo de amizades há várias pessoas que defenderam o impeachment de Dilma Rousseff e, agora, rejeitam o governo Temer. Questionado se votaria no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Vieira disse que isso dependeria do rol de candidatos. "Dos que estão postos, votaria no Lula, mas o Ciro Gomes é uma opção, corre paralelo. Não sei." O metalúrgico Alexandre Ruiz, 44 anos, levou a mulher e a filha para a Paulista, sob chuva. Tem um dilema semelhante ao do matemático. "A solução é sair o Temer e ter eleições diretas. Eu não tenho certeza sobre em quem votar. Do jeito que está, é muito complicado. Acho que votaria na Marina Silva, em alguém da Rede, alguém limpo. Lula não é a minha primeira opção." Ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, Ruiz mora em São Bernardo do Campo. Não tem filiação partidária. O metalúrgico disse que sua indignação inicial contra o governo Temer era movida pelas reformas trabalhista e previdenciária. Em 2016, não participou de nenhuma manifestação popular nas ruas, nem contra nem a favor do impeachment de Dilma Rousseff. "Sou contra esse governo pela forma como quer aprovar essas reformas", afirmou. Ao ser indagado se não estava na rua por causa das suspeitas de corrupção que pairam contra o presidente, explicou que também fazia um protesto contra a corrupção, mas sua motivação principal é tirar Temer do governo para paralisar as reformas. "Tenho expectativa de que poderá haver sim eleição direta, mas também indireta. Tudo vai depender da pressão popular", disse o estudante de Biologia Robledo Ferreira, 22 anos. Universitário da USP, ele também não tem filiação partidária. Afirmou que foi contra o impeachment de Dilma Rousseff, "embora não ache que tenha se tratado de um golpe". Robledo está disposto a se manter nas ruas, mas não esconde a preocupação: "Se deixarmos que tentem resolver isso pelas vias burocráticas, não vai funcionar. Há pressão popular, mas não sei se ela é forte o bastante". De acordo com os organizadores, cerca de 20 mil pessoas estiveram no domingo na Paulista.

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