Bibliothek: Turismo literário em Hamburgo

Ricardo Domeneck

Ler um livro associado a uma cidade pode ajudar a conhecê-la melhor. Uma maneira de explorar a alemã Hamburgo é lendo autores como Hubert Fichte, Wolfgang Borchert e Arno Schmidt, indica o escritor Ricardo Domeneck.Sempre que viajo a um país ou a uma cidade que não conheço, procuro levar comigo um livro associado ao lugar. Parece-me uma maneira de conhecê-lo por sua língua, pelas histórias que escolhe contar sobre si mesmo. Em geral levo um poeta do país, ou um romance que se passe naquela cidade e a defina de alguma maneira. Nesta série para a coluna, vou comentar escritores nascidos em determinadas cidades alemãs e de língua alemã, ou que tenham se tornado parte delas por as terem escolhido para seu trabalho literário. Começo por Hamburgo, porque acabo justamente de retornar de lá, onde fui convidado a participar de um evento que tentava reviver um espaço que foi importante para a cidade, o bar Die Palette, que fechou em 1964. Num projeto da jovem escritora Greta Granderath, o Jupibar, no importante bairro boêmio conhecido como Gängeviertel, foi transformado por um mês no antigo Die Palette, com leituras, performances e exibições de filmes. Discutiu-se o estado desses espaços de convivência, bares e pequenas salas de concerto alternativos, focando na gentrificação acelerada da cidade de Hamburgo, em especial com a construção da chamada HafenCity. Meu papel era ler meu texto em homenagem ao escritor hamburguês Hubert Fichte (1935-1986). Porque Die Palette foi um bar, mas é também o título do romance de estreia de Fichte, Die Palette (1968), considerado o nascimento da literatura pop alemã. O livro traz o nome do bar porque o romance todo se passa naquele bar, relatando a partir dele as vidas do submundo hamburguês na década de 1960. Nele já começa a aparecer o interesse antropológico de Fichte, que viria mais tarde a escrever trabalhos importantes no campo da antropologia cultural, inclusive sobre o candomblé na Bahia. É um livro que recomendo para quem quer conhecer um outro lado de Hamburgo, cidade portuária que, como é de se esperar de uma cidade portuária, tem uma vida noturna completamente diferente da diurna, quando o sol brilha sobre os cidadãos comportados e os comportamentos escusos se escondem em bares como Die Palette. São como duas cidades diferentes, a Hamburgo do dia e a da noite. É assim em qualquer cidade, mas em algumas a transformação é bastante extrema. Die Palette é um livro bastante singular dentro da literatura alemã, como é singular o próprio Fichte. Ele escreveu ainda outro livro importante para mim, chamado Versuch über die Pubertät (Ensaio sobre a puberdade, 1974), sobre a descoberta de sua homossexualidade. Outro escritor bastante importante nascido na cidade foi Wolfgang Borchert (1921-1947), um dos autores da chamada Trummerliteratur (ou Literatura dos escombros), recontando os efeitos imediatos da Segunda Guerra Mundial, após a derrota alemã. Ele é conhecido por seus contos, em especial os que foram reunidos no livro An diesem Tag (Neste dia, 1947). Borchert tem ainda um livro de poemas dedicados todos à cidade de Hamburgo: Laterne, Nacht und Sterne – Gedichte um Hamburg (Lampiões, Noite e Estrelas – Poemas sobre Hamburgo, 1946). O romance de Fichte e os contos de Borchert seriam companheiros bons de viagem a Hamburgo. § É claro que os que gostam de desafios podem sempre tentar aventurar-se no trabalho do escritor mais complexo e estranho que Hamburgo gerou para a Alemanha: o experimental Arno Schmidt (1914-1979). Seu romance monumental Zettel's Traum (1970) talvez tenha para a Alemanha a importância que Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa, tem para o Brasil. Encerro com um delicado poema de Ulla Hahn, também nascida em Hamburgo, para quem quiser se arriscar numa tentativa de tradução: Meine Wörter Meine Wörter hab ich mir ausgezogen bis sie dalagen atmend und nackt mir unter der Zunge. Ich dreh sie um spuck sie aus saug sie ein blas sie auf spann sie an von Kopf bis Fuss spann sie auf Mach sie groß wie ein Raumschiff zum Mond und klein wie ein Kind. Überall suche ich die Zeile die mir sagt wo ich mich find (Ulla Hahn, Herz über Kopf, 1981)

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