Resistente a UE e refugiados, Trump ameniza tom no 'buraco do inferno' de Bruxelas

Christoph Hasselbach

Em Bruxelas

  • REUTERS/Francois Lenoir

    Donald Trump com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, em Bruxelas

    Donald Trump com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, em Bruxelas

Durante a campanha, presidente americano usou palavras fortes para descrever o que, em sua visão, era um excesso de imigrantes na capital belga. Em encontro com líderes da UE, ele usou tons mais cordiais.

Enquanto um longo comboio de limusines blindadas adentrava o pátio do Conselho Europeu, em Bruxelas, nesta quinta-feira (25/05), o anfitrião, o presidente do organismo, Donald Tusk, andava para baixo e para cima, visivelmente nervoso.

Os seguranças olham mais uma vez em torno, abrem a porta do carro. Donald Trump salta com um impulso e, de expressão séria, vai em direção ao político polonês, aperta-lhe a mão. Os dois Donalds atravessam o longo tapete vermelho que leva ao prédio do órgão da União Europeia, numa conversa ligeira, mas sem se olharem.

Deixa-se de lado o sorriso e o aperto de mão mais longo diante das bandeiras, como é usual quando há visitantes. Só ao alcançar o interior do edifício, Trump, Tusk e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, posam para um retrato de grupo, porém mesmo aí suas expressões são tensas.

AP Photo/Matt Dunham
Manifestantes protestam contra Donald Trump e a Otan em Bruxelas, na quarta (24)

"Sai do nosso buraco"

Desde o início, essa visita portava uma carga de expectativas negativas. Após o resultado do referendo, o presidente dos Estados Unidos classificou como "fabulosa" a decisão dos britânicos de abandonar a UE, antecipando que logo ele estaria sendo chamado de "Mr. Brexit".

Trump conseguiu colocar contra si até mesmo os bruxelenses durante sua campanha eleitoral no ano passado, ao afirmar que a cidade se transformara num "buraco do inferno" (hellhole) devido ao excesso de imigrantes.

Em resposta, quase 10 mil cidadãos de Bruxelas se uniram para demonstrar seu desagrado com o chefe de Estado já na quarta-feira, preparando sua recepção com faixas dizendo "Trump not welcome" (Trump não é bem-vindo) e "Get the hell out of our hole" (aproximadamente: "Vai para o inferno e sai do nosso buraco").

Por sua vez, os políticos europeus também não têm escondido seu rechaço ao bilionário tornado candidato republicano à Casa Branca. É difícil imaginar opostos mais extremos do que Trump e a União Europeia, fato que ficou reforçado no almoço entre o americano e seu homólogo francês, o recém-eleito Emmanuel Macron.

Com um programa decididamente pró-europeu, Macron conseguiu se impor contra a populista de direita e adepta de Trump Marine Le Pen. Para os representantes da UE, essa vitória eleitoral representa a esperança de que a tendência ultradireitista generalizada no bloco, impulsionada também pela ascensão trumpista do outro lado do Atlântico, tenha ultrapassado seu ponto alto e vá agora retroceder.

Terrorismo, o inimigo comum

Em tais circunstâncias, é quase um espanto Trump estar visitando os líderes políticos da UE. Mas note-se que a visita foi bastante breve e sem uma posterior coletiva de imprensa conjunta. Trump, Tusk e Juncker tiveram só uma hora para repassar os problemas mais prementes da política mundial, no que foi, portanto, pouco mais do que um encontro simbólico.

No tema que é talvez o mais urgente, o combate ao terrorismo fundamentalista islâmico, há até uma certa coincidência de visão, embora o americano aposte quase exclusivamente nos meios militares.

Após o atentado da noite de segunda-feira na cidade inglesa de Manchester, Trump declarou: "Quando se vê uma coisa destas, nota-se como é importante vencer essa luta. E nós vamos vencer." Contudo a luta no sentido militar é mais tema para o encontro da Otan, o próximo compromisso do presidente em Bruxelas.

Entre os diversos pomos da discórdia que separam Trump e os líderes da UE, destaca-se a proteção do clima. Com base em diversas declarações dele, os europeus temem que os EUA se retirem do Acordo de Paris, embora ainda mantendo a esperança que o republicano mude de ideia. Também na política comercial, Trump tem sinalizado a intenção de isolar o país bem mais do que seus antecessores.

Do outro lado de "America first"

Nestes e em outros temas, porém, Trump parece ter se moderado um pouco, em comparação com o tom de suas semanas inaugurais na Casa Branca. Durante esta primeira viagem como presidente, passando pelo Oriente Médio antes de chegar à Europa, a costumeira avalanche trumpista de tuítes arrefeceu, dando lugar a pronunciamentos de natureza mais propriamente estatal.

Após se encontrar com o chefe de Estado americano, o primeiro-ministro belga, Charles Michel, afirmou: "Existe a vontade de manter um eixo forte entre a Europa e os Estados Unidos." Donald Tusk – que anunciara no Twitter a intenção de convencer Trump de que o "mundo livre" precisa cooperar "para evitar uma ordem mundial pós-ocidental" – confirmou, após a breve conversa em Bruxelas, que não sublinhara a importância apenas dos interesses comuns, mas também dos valores ocidentais comuns.

"Valores e princípios em primeiro lugar", disse o presidente do Conselho Europeu, parafraseando o slogan trumpista "America first".

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