Trabalho para refugiados na Alemanha: difícil, mas não impossível

Nora Nassif (InfoMigrants / av)

Para quem obteve asilo na Alemanha, integrar-se no mercado de trabalho pode ser um dos maiores desafios. Domínio do idioma e compreensão do sistema são indispensáveis. Autoridades pedem tenacidade e paciência."Até 2020, a metade de todos os recém-chegados à Alemanha terá encontrado um emprego", afirmou Detlef Scheele, diretor da Agência Federal do Trabalho (BA), ao ser indagado sobre as perspectivas de integração da mão de obra refugiada. Dados do Instituto alemão de Pesquisa sobre Mercado de Trabalho e Profissão (IAB) mostram que, dos migrantes vindos para o país em 2013, um terço encontrara emprego em 2016, enquanto entre os que chegaram dois anos mais tarde a taxa de ocupação era de apenas 10%. Sorte grande... O egípcio Saber Yahya é um desses afortunados que encontraram trabalho. Desembarcado na Alemanha dois anos atrás, ele agora está empregado no restaurante de estilo americano Touch Down, na cidade de Bergisch Gladbach, no leste do país. Embora tenha se apresentado no local apenas para fins de treinamento e de adquirir experiência profissional, ele mostrou tanta competência que o proprietário, Jamal, lhe ofereceu contrato em regime integral. "Mesmo não tendo nenhuma experiência profissional, Saber conseguiu dominar o alemão em pouco tempo. Ele realmente adorava o trabalho na cozinha e mostrou engajamento, o que me levou a querer mantê-lo e a lhe oferecer um contrato", conta seu patrão ao site InfoMigrants. Mas, apesar do interesse de Jamal no novo empregado e de sua disposição de contratá-lo, o aspecto burocrático teve seus percalços: "A Secretaria de Trabalho se recusou a me deixar trabalhar em tempo integral e queria cortar minhas horas pela metade", lembra Saber. ... ou falta de oportunidades e exploração Por outro lado, a refugiada Manal de 53 anos, também do Egito, não consegue encontrar emprego desde que chegou à Alemanha, em 2012. Ela participou de cursos de idioma, e depois de treinamentos para ajudar em contatos no mercado de trabalho e na procura de oportunidades, mas sem sucesso. "Eu atuo na dietética e nutricionismo, mas encontrar um trabalho nessa área aqui foi impossível. Não há vagas, e talvez eu não tenha domínio suficiente da língua alemã", avalia. Ainda assim, ela não desistiu e partiu para frequentar cursos de habilitação em cuidados geriátricos. "Além dos cursos em classe, tenho que fazer treinamento vocacional por seis meses para encontrar um emprego nesse setor." Ela torce para obter uma vaga em breve, pois não quer mais depender da assistência social mensal do governo alemão. Mas falta de experiência profissional e conhecimentos insuficientes de idioma não são os únicos obstáculos enfrentados pelos refugiados. O também egípcio Michael, de 26 anos, conseguiu aprender rapidamente o alemão e fez treinamento numa companhia de entrega de pacotes e correspondência a domicílio. Após o estágio, o proprietário convidou-o a trabalhar na firma, mas em condições que o jovem considerou "muito injustas": em vez de um salário mensal fixo, propôs pagar a Michael 0,50 euro por pacote entregue. "Isso não dá para pagar nem o meu seguro-saúde", comentou o jovem à InfoMigrants. Burocracia entrava contratações Num estudo do IAB, 40% dos migrantes consultados disseram ter conseguido entrar no mercado de trabalho com o auxílio de familiares ou amigos; 32%, através da agência BA; 10%, obtiveram emprego por anúncios na internet; enquanto 17% recorreram a outros métodos. Outro proprietário de restaurante em Bergisch Gladbach, que pediu para não ser identificado, explicou à InfoMigrants que a burocracia alemã é um dos maiores desafios para os recém-chegados, dificultando muito sua integração no mercado. "Todo refugiado que queira trabalhar precisa obter um formulário de descrição das atividades junto à Secretaria do Trabalho. A gerência do restaurante tem que preenchê-lo e aí reenviar à Secretaria, para ser novamente aprovado." No total, o período de espera fica entre quatro e oito semanas. "Essa espera prolongada pode levar o empregador a contratar outra pessoa que não exija todo desse processo de aprovação. Isso tem um impacto negativo sobre os refugiados que querem trabalhar, é claro", justifica o comerciante. Ministra pede paciência Outro problema ressaltado pelo dono de restaurante é o auxílio-desemprego que a Secretaria de Trabalho concede, pois "aqueles que recebem os benefícios têm prioridade na ajuda para encontrar trabalho", indiretamente prejudicando os demais. Embora haja ainda outros obstáculos impedindo os refugiados de encontrarem ocupação remunerada, falando ao talk show de TV WDRforyou a ministra alemã do Trabalho, Andrea Nahles, pediu-lhes que sejam pacientes: a Alemanha está precisando urgentemente de mão de obra especializada, afirmou. Nahles louvou o desejo dos recém-chegados de trabalharem na Alemanha e de obter sucesso, mas alerta que as dificuldades iniciais que enfrentam podem ser devidas a sua falta de compreensão do mercado de trabalho nacional. A ministra frisa, ainda, que Berlim destinou um orçamento à criação de oportunidades profissionais para os refugiados, e os aconselha a se inscreverem em cursos de treinamento e de aperfeiçoamento.

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