Zeitgeist: Nova Rota da Seda reflete ambições da China

Alexandre Schossler

Megaprojeto de infraestrutura tenta reviver antiga ligação com a Europa Ocidental e é uma expressão dos objetivos econômicos e geopolíticos do país asiático, alçado a defensor da globalização.A globalização e o livre comércio ganharam um defensor inusitado nos últimos anos: a China liderada pelo presidente Xi Jinping. A surpresa é ainda maior diante do contraste oferecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que tem adotado um discurso protecionista e isolacionista. "A globalização está enfrentando alguns ventos contrários. Temos de buscar resultados por meio de maior abertura e mais cooperação, evitando a fragmentação, nos abstendo de colocar limites inibidores à cooperação ou perseguindo acordos exclusivos, e rejeitando o protecionismo", declarou recentemente o líder chinês. A menina dos olhos da globalização promovida pelos chineses é o projeto batizado One Belt, One Road, mais conhecido pelo nome de Nova Rota da Seda. Trata-se de um megaprojeto de infraestrutura que tenta reviver a antiga Rota da Seda, que ligava a China a Roma. A iniciativa, lançada no fim de 2013, prevê investimentos de 1,3 trilhão de dólares em projetos de infraestrutura, ligando os centros industriais chineses aos mercados consumidores na Europa Ocidental por meio de rotas terrestres, marítimas e redes de comunicação. O Belt do nome oficial do projeto se refere à rota que passa pela Ásia Central, Irã, Turquia e Leste Europeu. Já o Road é o caminho marítimo que passa pelo Sudeste Asiático, Sul da Ásia, África e Mediterrâneo. Ambos ligam a China à Europa Ocidental. Bancos de investimentos chineses já colocaram 890 bilhões de dólares em cerca de 900 projetos de infraestrutura, incluindo uma vasta rede de portos, rodovias, estradas e parques industriais, em 65 países. Numa recente cúpula realizada em Pequim, Xi anunciou que mais 124 bilhões de dólares estão disponíveis. O objetivo mais evidente da Nova Rota da Seda é abrir mercados para as empresas chinesas, criando um contraponto ao comércio transatlântico entre os Estados Unidos e a Europa. Mas a China também espera atrair para sua zona de influência países do Oriente Médio e da Ásia Central. Além disso, a Nova Rota da Seda é uma expressão da maneira como a China se vê e quer ser percebida: um ator de primeira grandeza no cenário internacional, o equivalente aos Estados Unidos para a Ásia. A China tem o apoio de países importantes para o sucesso do projeto, como a Turquia e a Rússia, mas líderes europeus têm se mostrado reticentes. Eles têm exposto, por exemplo, preocupações sociais e ambientais na execução de obras de infraestrutura. Conflitos regionais também têm se mostrado um entrave para o sucesso da Nova Rota da Seda. A Índia não compareceu à recente cúpula em Pequim por se opor ao projeto conhecido como Corredor Econômico China-Paquistão, que liga a China ao Mar Arábico. A rota passa pela região da Caxemira administrada pelo Paquistão, um território disputado que a Índia reivindica para si. Outro problema são as dificuldades para se investir em vários dos países da Nova Rota da Seda. Segundo o consultor Tom Miller, da consultoria Gavekal, os chineses deverão perder 80% dos investimentos no Paquistão, 50% em Myanmar e 30% na Ásia Central. A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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