Bibliothek: O Muro de Berlim e as cenas literárias alemãs

Ricardo Domeneck

Divisão do país teve efeitos drásticos para a literatura, que se fazem sentir até hoje. Após a Reunificação, a produção cultural da Alemanha Oriental foi colocada toda ela sob o signo da suspeita.Ainda um incômodo para a historiografia da literatura alemã, a construção do Muro de Berlim, em 1961, teve consequências para as cenas literárias na Alemanha que ainda são sentidas. Em quais cidades se congregavam os escritores das duas Alemanhas? E onde estão os escritores agora? Com o estabelecimento de duas capitais, dois territórios que eram até pouco tempo um mesmo país mas agora tinham sua comunicação impedida, os escritores da Alemanha Ocidental se espalharam por diferentes cidades. Já a cena literária da Alemanha Oriental, forçada a representar um país diferente, permaneceu mais coesa. A Berlim dividida não tinha como manter toda a cena literária das duas Alemanhas. Ilhada na República Democrática Alemã, Berlim Ocidental era em parte inviável para muitos escritores, ainda que tenha muito cedo se tornado bastante atraente para as gerações mais novas, os iniciantes e para a cultura underground. No entanto, como capital da República Democrática Alemã (RDA), a Berlim Oriental congregou grande parte dos escritores e intelectuais do país – como Anna Seghers, Christa Wolf, Heiner Müller e Wolf Biermann. O segundo grande centro literário da Alemanha Oriental foi Leipzig, onde há até hoje uma das cenas literárias fortes da Alemanha unificada. Bonn, capital da Alemanha Ocidental, era pequena demais para congregar uma cena cultural forte. Tornou-se uma cidade de burocratas. Colônia, a maior cidade na região, lucrou com o estabelecimento nela de grande parte da mídia da Alemanha Ocidental. Ali se desenvolveu uma cena musical forte, atraindo uma parte dos escritores. Foi aí que nasceu, por exemplo, Heinrich Böll, Prêmio Nobel de Literatura de 1972. Munique sempre desempenhou um papel importante e tradicional na literatura alemã e se tornou o grande centro literário da Alemanha Ocidental. Sua proximidade das fronteiras com a Áustria e a Suíça fazem dela um ponto privilegiado para a comunicação entre as cenas literárias de língua alemã dos três países. Com a queda do Muro, em 1989, e a transformação de Berlim em capital da Alemanha unificada, a cidade se transformou no grande centro literário do país. Para os escritores da antiga Alemanha Oriental, não era preciso sequer contratar caminhões de mudança. Agora uma capital maior, a cidade impôs aos escritores da antiga ditadura comunista a dificuldade de se integrar à literatura da Alemanha Ocidental. A transição foi mais simples para os escritores já estabelecidos no Oeste, discutidos em revistas do outro lado da fronteira. Para escritores que haviam recém-começado seus trabalhos no Leste, a aceitação na Alemanha reunificada foi mais complicada, e isso teve um efeito sobre a carreira de muitos deles. Em Leipzig e Munique, cada qual cravada no centro das metades alemãs divididas, isso talvez seja sentido de forma menos forte. As cenas seguiram com seus velhos nomes e os novos que chegaram a uma literatura unificada. Foi em Berlim que as duas cenas primeiro se chocaram, tentaram entender-se, ler-se uns aos outros. A literatura da Alemanha Oriental foi colocada toda ela sob o signo da suspeita. É difícil explicar, fora da Alemanha, como se manteve precária e complexa, durante muito tempo, a posição da produção cultural do país extinto na Alemanha unificada. Porque a literatura é um incômodo para um país que parece querer esquecer esse passado de divisão, destruindo e implodindo marcos físicos e arquitetônicos centrais do país extinto – como o antigo Palácio da República no centro de Berlim. A literatura lembra. Quando a política parece querer esquecer, esse poder da literatura se torna um problema, pois é uma das formas mais claras de memória cultural. Nesse aspecto, a literatura produzida na Alemanha Oriental talvez venha sempre a ser vista com suspeita. Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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