Merkel viaja à América Latina com missão de impulsionar comércio

Jan D. Walter (fc)

Em visita a Argentina e México, líder alemã tenta angariar parceiros contra protecionismo dos EUA. Enquanto chineses tentam aumentar influência, Alemanha e UE deveriam se posicionar melhor na região, dizem analistas.A América Latina é algo como o bom enteado da política externa alemã: o subcontinente não causa nenhum problema, os parceiros estão felizes com as boas relações, mas ninguém se empenha para intensificá-las. Desde que os EUA mostraram não mais se interessar por seu antigo "quintal", os chineses têm se esforçado para aumentar sua influência na região – especialmente por meio do comércio e investimento direto maciço. Enquanto isso, Alemanha e União Europeia hesitam. "Nos últimos anos, a política externa da Alemanha atua muito impulsionada por crises. E a América Latina não tem nada a ver com essas crises", diz Günther Maihold, da Fundação Ciência e Política (SWP), de Berlim. Essa situação, porém, está começando a mudar. Até pouco tempo, sabia-se que o país mais poderoso do mundo estava ao lado dos europeus. Mas, ao menos desde a aparição de Donald Trump na reunião do G7, não há mais nenhuma garantia. Em vez disso, torna-se evidente que as posições da Casa Branca em relação a questões fundamentais da política mundial estão distantes das posturas alemãs e europeias. Portanto, a viagem da chanceler federal alemã, Angela Merkel, para Argentina e México, a ser realizada entre esta quinta-feira (08/06) e sábado, não se trata, de modo algum, de uma simples visita pro forma, como parte da presidência alemã do G20. Na verdade, trata-se também da sustentação de uma visão de mundo. "Merkel se tornou involuntariamente uma defensora do livre-comércio", afirma Detlef Nolte, diretor do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), de Hamburgo. Segundo Maihold, no Ministério das Relações Exteriores alemão é esperado de Merkel na Argentina um discurso sobre a política da Alemanha para a América Latina. O pesquisador também acredita que isso seja apropriado, já que, até agora, o paradigma vigente vem sobrevivendo: o ex-ministro do Exterior Guido Westerwelle (2009-2013) definiu os países emergentes Argentina, México e – acima de tudo – Brasil como "atores globais", que deveriam contribuir nos níveis regional e global para a resolução de problemas como livre-comércio e mudanças climáticas. Hesitação em ambos os lados No entanto, logo vieram as crises econômicas: Argentina e Brasil entraram em recessão e, além disso, Brasília mergulhou numa crise política permanente. É questionável se o livre-comércio poderia ter evitado a recessão. O evidente é que, durante anos, os dois países não mostraram interesse. Assim, desde seu início, em 1999, as negociações de um acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia tiveram pouco progresso. Para Nolte, a culpa não é só dos sul-americanos. "Os países do Mercosul querem, principalmente, fornecer produtos agrícolas para a Europa, mas isso parece não ser possível. E é neste ponto que as coisas falham", afirma. Por outro lado, o México vem se dedicando ao comércio mundial há um bom tempo. Em comparação com outras grandes economias da América Latina, os mexicanos têm um excelente desemprenho, apesar do crescimento moderado. Mas o país se centra muito em seus próprios problemas: o crime organizado, corrupção, migração e – agora mais do que nunca – suas relações com os EUA. Isso é compreensível, já que, geograficamente e economicamente, o México faz parte da América do Norte. Desde 1997, o país tem com a União Europeia um tratado comercial que, gradualmente, se transforma num acordo de livre-comércio de certos bens e serviços. E embora o México também mantenha com muitos outros países da América Latina e Ásia um acordo de livre-comércio, 80% de suas exportações vão para os EUA. Agora isso poderá mudar. Pois se o presidente Trump isolar os EUA do comércio internacional, a economia do México, voltada para a exportação, poderá entrar em sérias dificuldades se não encontrar novos mercados. O ministro da Economia mexicano, Ildefonso Guajardo, mostrou sua determinação ao anunciar, após um encontro com a comissária de Comércio da União Europeia, Cecilia Malmström, no início de maio, que a nova versão do acordo comercial será concluída no final de 2017. A China também está interessada em um comércio mais intenso com o México. De acordo com Nolte, os custos do trabalho por unidade produzida já são em parte mais elevados na China do que no México. Posicionamento urgente Para Maihold, Merkel deveria também posicionar urgentemente a Alemanha e a União Europeia como atores na região. E, para isso, a chanceler federal alemã está levando uma moeda de troca na bagagem, diz. "Há anos, o México nutre expectativas não cumpridas em relação à Alemanha – especialmente na área de cooperações técnico-científicas", afirma o especialista. O ano da Alemanha no México 2016/2017, que o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, abriu em Berlim e que Merkel irá fechar de forma solene agora, poderia ter sido um primeiro passo nessa direção. Na Argentina, tal posicionamento talvez seja ainda mais importante se a Alemanha não quiser ceder espaço para outras potências: Rússia e Índia aumentaram suas influências no país nos últimos anos. A China já é um grande ator na Argentina e tem contratos que incluem a construção de duas usinas hidrelétricas e outros negócios que datam da era Kirchner. Desde o final de 2015, o presidente argentino, Mauricio Macri, vê a influência da China como grande demais. Ele chegou a renegociar contratos, mas não os rescindiu. No que diz respeito a parceiros comerciais, a economia da Argentina já está diversificada. No entanto, todo o comércio exterior equivale a apenas o volume que o México exporta para todos os países menos seu maior parceiro, os EUA. Merkel deverá ser ouvida com atenção nos dois países caso tente estabelecer uma aliança contra os EUA e a favor do livre-comércio. Mesmo que até agora México e Argentina não tenham desempenhado seus papéis como atores globais, diz Maihold, a Alemanha os mantém como parceiros de valor no contexto de organismos internacionais. Hoje talvez mais do que nunca.

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