Pé na praia: O chamado na floresta

Thomas Fischermann

Na Segunda Guerra Mundial, Antônio adentrou-se pela floresta para viver por lá: na época, em sua região de origem, ia-se ou para o Exército ou para a Amazônia, tornar-se "soldado da borracha$escape.getQuote().Na semana passada viajei pela BR-364, que vai de Rondônia ao Acre. Aqui e ali, ainda se podem ver os vestígios da Estrada do Ferro Madeira-Mamoré: velhas locomotivas e dresinas, e pontes de aço que, antigamente, ficavam no meio da selva hostil. O trem já há muito tempo que não anda mais. O projeto ferroviário maluco foi implementado entre 1907 e 1912, 366 quilômetros de trilhos para a locomotiva a vapor. Na época, borracha do Amazonas era a commodity mais forte do mundo, e nenhum investimento gigantesco parecia ser caro demais para transportá-la dos seringais até os rios. A viagem me fez lembrar de Antônio Falcão Ribeiro. Encontrei-o pela primeira vez dois anos atrás. Antônio é um senhor orgulhoso, de cabelos grisalhos, na época tinha 82 anos de idade (hoje tem 84) – e ele me contou como era nos tempos da borracha e da locomotiva. Antônio era do Ceará e, no começo da Segunda Guerra Mundial, adentrou-se pela floresta amazônica para viver lá. Não fez isso voluntariamente. Seu pai o havia levado consigo para juntar borracha quando ele ainda era um menino de dez anos de idade. O pai também não teve escolha. Na época, em sua região de origem, ia-se ou para o Exército ou para a Amazônia para tornar-se "soldado da borracha". O Brasil e seu parceiro de guerra, os EUA, necessitavam muito da borracha oriunda do norte. "Mas acabei ficando sozinho na selva", contou Antônio. "Meu pai morreu logo após nossa chegada ao Seringal." Os trabalhadores eram mal equipados e não tinham nenhuma experiência na floresta, a maioria acabou não sobrevivendo. Antônio lembra-se do dia em seu pai morreu. Ele bebeu água de uma cratera na floresta, e uma hora depois estava morto. Os homens contaram para Antônio que era culpa dos índios. Os índios teriam envenenado a água de seu pai. Até hoje Antônio acredita nisso. Antônio me contou muitas histórias. Ainda sabe muito bem como era na época da estrada de ferro cujos restos eu vi por todo o lugar. Ele sabe como era trabalhar com os seringueiros, pois cresceu órfão entre eles e teve que sobreviver. O "dono" explicou para ele: Antônio teria que pagar as dívidas de seu falecido pai. Foi maltratado e raramente recebia algum pagamento. Quando se queixava, o dono mandava os pistoleiros atrás dele. "Fui condenado à morte cinco vezes", disse. Sumia na floresta e só reaparecia depois, em outro lugar. Contou-me como carregava um pacote de farinha pela floresta o tempo todo, até aprender a matar macacos. "Lá eu comia macaco todo dia, até hoje acho macaco saboroso." Os índios dessa região continuaram a ser seus inimigos. "A gente se conhecia na floresta", contou Antônio. "Eles roubavam redes, comida, roupas." Ele via os índios à distância, as vezes sentia-se atraído por suas belas mulheres. Mas nunca se atreveu a chegar perto deles. "Teria sido muito perigoso." Foi somente em 1973 que Antônio veio a sair da floresta, empregou-se como trabalhador rural numa fazenda, casou-se com uma garota. Ele disse que foi feliz, mas sentia falta da vida na selva. Mesmo depois de passado muito tempo ainda retornava à floresta de vez em quando, com um carro velho. Queria estar na natureza e entre os animais. "Infelizmente foi assim, não tive juventude", contou Antônio. "Deixei de ser de criança para tornar-me diretamente um adulto". Quando falava de seu pai, escorriam lágrimas de seus olhos, mas ele as enxugava rapidamente. Era muito grato, apesar de tudo que acontecera em sua vida. "Meu pai era um analfabeto, mas não era burro", explicou Antônio. "Naquela época, quando os recrutadores do Exército estavam na praça principal do nosso lugarejo, meu pai disse: nunca irei à guerra. Vou com meu filho para a Amazônia, onde está surgindo o progresso, onde tem a estrada de trem e se pode viver de trabalho honesto. E nos deixaram partir. Ainda lembro do que gritaram para nós. 'Deixa eles serem devorados pelas onças!', disseram." Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Em sua coluna "Pé na Praia" faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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