Helmut Kohl soube compreender a França

Andreas Noll (ca)

Aperto de mão em Verdun e lágrimas no réquiem para o falecido François Mitterrand: Na França, Helmut Kohl é visto como personificação do bom alemão. Mas nem sempre as relações franco-alemãs foram livres de conflito."Helmut Kohl, um francófilo?" Quando o político democrata-cristão Helmut Kohl sucedeu ao social-democrata Helmut Schmidt, em 1° de outubro de 1982, não somente o jornal francês Le Monde indagou com preocupação sobre o futuro das relações franco-alemãs. Naquele momento, o conservador Kohl era um desconhecido para os franceses. Somente a sua origem da região do Palatinado, que faz fronteira com a França, foi digna de menção positiva pelo redator do jornal, que localizou politicamente o novo chefe de governo alemão como pró-ocidental, interessado principalmente nas boas relações com os EUA e a Otan. Naquela ocasião, ninguém podia imaginar que precisamente esse político iria entrar para história como amigo dos franceses. Mesmo assim, Helmut Kohl deixou claro, logo após sua eleição, o quão importante para ele seria manter um bom relacionamento com o país vizinho. A sua primeira viagem internacional o levou à capital francesa. Uma viagem bastante complicada, já que François Mitterrand, um socialista, estava à frente do Palácio do Eliseu e seu programa avesso à economia de mercado pouco tinha a ver com as convicções do político alemão. No entanto, tais diferenças político-partidárias nunca exerceram um papel decisivo nas relações entre os dois estadistas. O que se deve também ao fato de ambos os políticos terem acordado desde o início nos pontos mais importantes – principalmente na necessidade de uma integração europeia mais profunda. Símbolo da reconciliação franco-alemã Uma pequena prova da estreita aliança que iria se formar posteriormente entre dois parceiros aparentemente tão diferentes foi dada pelo político socialista francês no Bundestag, câmara baixa do Parlamento alemão, somente poucas semanas após Kohl assumir o poder em Berlim. Em discurso perante os deputados alemães, Mitterrand defendia a exigência de Kohl com vista ao estacionamento de mísseis Pershing II em território alemão – fornecendo assim munição para a campanha eleitoral recém-iniciada por Kohl contra o Partido Social Democrático (SPD). Num local especialmente simbólico, pôde-se ver em setembro de 1984 quão estreitas eram as relações entre os dois políticos já nos primeiros anos do mandato de Kohl. O chanceler federal alemão foi a Verdun para lembrar os mortos das duas Guerras Mundiais. Ali, o pai de Kohl havia lutado na Primeira Guerra Mundial e Mitterrand, na condição de jovem soldado, havia sido ferido na Segunda Guerra. Sob a chuva, os dois estadistas silenciosamente de pé diante das fileiras intermináveis de sepulturas, Mitterrand estendeu a mão em direção do antigo chanceler federal alemão, que espontaneamente a segurou. Motor da unificação europeia A imagem dos dois estadistas segurando silenciosamente as mãos um do outro ficou para história franco-alemã como um grande gesto de reconciliação – e está até hoje consagrada na memória coletiva dos franceses. Em seu livro de memórias, Kohl escreveu mais tarde sobre aquele momento: "Meus sentimentos são difíceis de descrever. Eu nunca havia me sentido tão perto de nossos vizinhos franceses. Fui dominado pelo gesto espontâneo do presidente francês." Na opinião dos historiadores, Kohl e Mitterrand se encontraram finalmente no antigo campo de batalha de Verdun. Nos anos seguintes, a dupla garantiu por meio de diversas iniciativas um maior aprofundamento da integração europeia. Também as relações entre os dois países atingiram um novo patamar. Em 1987, os dois políticos concordaram sobre a criação de uma brigada franco-alemã. Atualmente com cerca de 6 mil soldados, essa primeira organização militar binacional foi montada poucas semanas antes da queda do Muro. Por seus passos corajosos, os dois estadistas foram condecorados conjuntamente com o Prêmio Internacional Carlos Magno, em 1988. Aceitação de clara liderança francesa Foi o ano de 1989 que marcou um ponto baixo nas relações franco-alemãs. Diante da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, Mitterrand reagiu com relutância e cautela. Embora os seus assessores tivessem lhe aconselhado viajar para Berlim, o presidente francês preferiu ficar longe daquele grande palco da história mundial. Quando o socialista decidiu visitar até mesmo Berlim Oriental em dezembro de 1989, impunha-se a impressão de que a França queria bloquear a Unidade Alemã. Na ocasião, François Mitterrand declarou que a nova liderança da antiga Alemanha Oriental podia "contar com a solidariedade da França para com a República Democrática Alemã". No final, foi o compromisso de Kohl com a fronteira ocidental polonesa e sua anuência à união monetária europeia que fizeram Mitterrand abandonar a atitude hesitante frente à Reunificação alemã. O fato de Kohl, na segunda metade de seu mandato, não ter tentado impor abertamente à França o aumento de poder de seu país reunificado é visto com grande apreço no Palácio do Eliseu. O historiador Kohl sabia das sensibilidades do poder de liderança política no continente. Citando o antigo chanceler federal alemão Konrad Adenauer, Kohl costumava dizer que antes de se curvar diante da bandeira alemã, ele saudava duas vezes a bandeira tricolor francesa. O fim de uma amizade política A dimensão da coordenação e da confiança no trabalho conjunto entre Helmut Kohl e François Mitterrand ficou clara em 1995, após a mudança de poder em Paris. O fato de Jacques Chirac, um presidente que dividia com Kohl a mesma família partidária, estar à frente do Palácio do Eliseu não trouxe nenhum impulso novo às relações entre os dois países. Pelo contrário: somente quando o social-democrata Gerhard Schröder subiu ao poder na Alemanha, a dupla franco-alemã passou novamente a trabalhar em uníssono. Na medida em que é possível falar de amizade entre políticos, com a morte de Mitterrand, em 8 de janeiro de 1996, pode-se dizer que Kohl havia perdido um amigo. As lágrimas que lhe vieram aos olhos na cerimônia em memória do falecido estadista francês na Catedral de Notre Dame, em Paris, fazem parte, além de Verdun, da imagem que ficará na memória dos franceses de um chanceler federal alemão, para quem a relação com a França sempre foi uma preocupação sincera.

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